Número de crianças atendidas em consultórios de psicologia dobra [Impressionante!]
A CRIANÇA NO DIVÃ
Angústias infantis e desorientação paterna contribuem;
saiba quais são os temas mais recorrentes na capital
Mauricio Xavier e Júlia Gouveia
Na sala
de aula do 4º e do 5º ano do ensino fundamental, a professora pergunta: “Quem
faz terapia?”. Metade dos alunos, por volta dos 10 anos, levanta a mão. A cena,
ocorrida na semana passada no Colégio Nossa Senhora do Morumbi, ilustra o
recente aumento na procura por atendimento psicológico infantil na capital.
Segundo levantamento de VEJA SÃO PAULO realizado em dez dos consultórios que
mais atendem pessoas dessa faixa de idade, o número de pacientes abaixo dos 13
anos dobrou nos últimos dez anos. Entre os menores, até 3 anos, o índice
triplicou. Pipocam até casais grávidos: quando o rebento vem ao mundo, é
incluído nas sessões.
A
corrida em busca do tratamento, que custa a partir de 120 reais por sessão,
aumenta nesta época do ano, devido à divulgação do boletim do primeiro
trimestre. Pais e professores queimam neurônios em reuniões, e o psicólogo
entra na pauta. Em alguns casos, nem é preciso ir ao consultório, ele vai à
casa da criança. “Observo sutilezas da relação familiar e sirvo de modelo para
os pais”, diz a terapeuta Ana Beatriz Chamati, do Núcleo Paradigma, centro de
análise de comportamento, que realiza esse trabalho meio Supernanny em visitas de três horas, duas vezes por semana. Em
alguns casos, o serviço estende-se ao colégio. Apresentado como professor
auxiliar, o profissional “espiona” um aluno específico por até uma semana.
Vários
motivos contribuíram para o fenômeno. Um deles é positivo: procurar ajuda para
resolver questões da mente deixou de ser tabu. Os demais, no entanto, sugerem
exagero dos pais na dose. “Eles estão atrapalhados. Reclamam até que o filho
não quer tomar banho, quando isso é normal!”, afirma a psicopedagoga Ana Cássia
Maturano. As escolas também carregam culpa. “O tipo clássico encaminhado pelo
colégio é o do bagunceiro inteligente, que atrapalha a aula”, diz a psicanalista
Miriam Ribeiro Silveira, vice-presidente do Departamento de Saúde Mental da
Sociedade Paulista de Pediatria. Até a sociedade contemporânea entra na conta.
“Hoje, timidez é tratada como fobia social, tristeza virou depressão e bagunça
é hiperatividade”, critica Yves de La Taille, educador aposentado da USP. O
incrível é que há motivações ainda mais prosaicas.“Virou sinal de status: tenho
paciente de 9 anos que só vem à terapia porque as amigas fazem”, conta Anderson
Mariano, formado em psicomotricidade, especialidade que ajuda pessoas com
dificuldade de movimento e locomoção. Ao longo da reportagem, confira os temas
que mais movimentam os consultórios.
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Bárbara, Arthur e Beatriz: terapia preventiva por causa do divórcio dos pais |
+ SEPARAÇÃO DOS PAIS
Há
trinta anos, a criança com pais separados era a diferente entre os colegas.
Hoje, quem tem os dois em casa talvez seja o alienígena. É fato que a
popularização colaborou para que o assunto seja tratado com mais leveza. O
curioso é que existam crianças que não só toleram, como aprovam a prática.
“Algumas sugerem aos amiguinhos que é até bom forçar o divórcio, porque os pais
passaram a pegar menos no pé”, conta a terapeuta Ana Beatriz Chamati. Os
especialistas costumam concordar que, por si só, a separação nem sempre traz
danos. “O que precisa haver é o contato constante dos filhos com a figura
materna e a paterna”, explica Maria Thereza de Barros França, membro da
Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.
Mas é
ilusão pensar que os problemas se extinguiram. “Na nova configuração familiar
que surgiu, todo mundo parece bem. Mas, durante as sessões, o bonequinho que
apanha é o do meio-irmão”, exemplifica a psicanalista Miriam Ribeiro Silveira.
Como medida preventiva, a engenheira Andreza Mazzieri decidiu pôr os três
filhos na terapia antes mesmo de contar que iria se divorciar do pai deles.
Cinco anos depois, continua levando Beatriz, de 10 anos, Arthur, de 9, e
Bárbara, de 7, ao consultório. “O acompanhamento me ajudou a fazer com que
diminuíssem as brigas e competições em casa”, conta.
+ HIPERATIVIDADE
O
transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) é um problema
neurobiológico, de causas genéticas, que se manifesta na infância. Crianças com
os sintomas da doença enfrentam dificuldade para acompanhar o ritmo dos colegas
na escola, entre outros problemas. Pelos números oficiais das entidades médicas,
o déficit atinge uma parcela mínima da população (3%). Apesar disso, vem sendo
diagnosticado com frequência cada vez maior. “Os próprios pais fazem pressão.
Se uma criança não aprende, sofre menos preconceito ao ser tachada de
hiperativa”, afirma Nívea Fabrício, presidente da Associação Nacional de
Dificuldades de Ensino e Aprendizagem e diretora do Colégio Graphein.
“Geralmente é só agitação.”
A falta
de contato físico dentro de casa (os pais muitas vezes chegam quando os filhos
estão dormindo) contribuiria para isso. “Certa vez, promovi uma oficina de
histórias para uma pesquisa. Os pais não conseguiam contá-las por falta de
hábito e pediam ajuda aos avós”, diz a professora Ivonise Fernandes da Motta,
coordenadora do Laboratório em Criatividade e Desenvolvimento Psíquico da USP.
A hiperatividade também viria da falta de uso do corpo. “Hoje as crianças não
gastam energia e ficam mais ansiosas. Ou seja, trata-se mais de ansiedade
física que psicológica”, diz o psicomotricista Anderson Mariano.
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Camilla: dificuldade de se relacionar no mundo real |
+ VIDA DIGITAL
Camilla
Duarte, de 13 anos, sempre foi tímida. Quase sem amigos, pouco participava das
atividades no colégio. Para compensar, acabou se isolando na frente do
computador, onde ficava a maior parte do tempo. No ano passado, a mãe, a
coordenadora pedagógica Elisabete, ligou o sinal de alerta. “Vi conversas dela
com desconhecidos e não gostei. Tentei proibir, mas não deu certo”,diz. Acabou
levando a menina à terapia, e ela obteve resultados positivos. “Eu tinha muita
vergonha na hora de conhecer uma pessoa, hoje me sinto mais à vontade”, conta
Camilla. No entanto, mais do que servirem de rota de fuga para quem já
apresenta dificuldade, as novas tecnologias estão entre as causas do aumento
dos problemas de interação social. “As crianças pouco escrevem, só trocam
fotos. Elas estão perdendo o dom da conversa, como se fossem autistas”, afirma
a psicanalista Miriam Ribeiro Silveira.
Nesse
cenário, os videogames costumam ser associados à obtenção rápida de prazer. No
mundo real, objetivos demoram a ser atingidos, seja aprender álgebra, seja se
tornar um craque de futebol. “Joguinhos trazem retorno imediato”, diz a
psicóloga Giovana del Prette, especialista em terapia comportamental. A chamada
geração multitarefa também não anda dando conta de tantos afazeres. Com isso, é
comum ocorrer queda no desempenho escolar. “Tenho uma paciente de 12 anos que
ri por fazer a lição da escola de qualquer jeito enquanto conversa no WhatsApp
e acessa o Facebook”, conta a psiquiatra Suzana Grünspun. Os pais se queixam do
excesso de tempo que o filho permanece plugado, mas o controle deveria ser
deles mesmos. A receita dos profissionais é estabelecer horários específicos
para os jogos durante o dia e tirar os equipamentos de circulação nos momentos
de estudo.
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Matheus: transtorno alimentar e fobia de comer frutas vermelhas |
+ MEDOS
Coitado
do bicho-papão. O monstro que povoou os pesadelos de gerações passadas foi
substituído por aflições mais realistas pela turma de hoje. O mundo está menos
seguro e o medo paterno da violência urbana acabou transmitido aos filhos.
Crianças de 10 anos falam nos consultórios sobre a possibilidade de ser
sequestradas e, por vezes, apresentam crises de pânico. “Elas andam de carro
blindado, veem a preocupação da família e estão sendo afetadas”, diz a
psicóloga Daniella Freixo de Faria. Com esse quadro, arriscam-se cada vez
menos. Décadas atrás, a rebeldia pré-adolescente costumava ser acompanhada
pelas clássicas fugas da residência. Agora, ninguém mais ousa pôr o pé para
fora do portão. “Um paciente de 12 anos me disse: ‘Qual criança vai querer sair
de casa? Lá fora é muito pior’”, conta a terapeuta Giovana del Prette.
Não é
só o estresse dos adultos que está replicado: suas doenças também. “Atendi um
menino de 9 anos com úlcera nervosa”, diz Quézia Bombonatto, diretora da
Associação Brasileira de Psicopedagogia. É comum ainda que os profissionais
tratem de fobias específicas e inusitadas. Matheus Ramos, por exemplo, começou
a sentir medo de ingerir alimentos vermelhos por volta dos 4 anos.
Diagnosticado com transtorno alimentar, foi levado a uma psicóloga. Hoje, aos
7, sua fruta favorita é maçã.
+ ADAPTAÇÃO ESCOLAR
Um
estereótipo comum nos colégios é o aluno quieto e isolado, com dificuldade de
integrar-se aos colegas. Em outros tempos, esse tipo de comportamento era
associado a questões da própria criança, como timidez, ou à rejeição do grupo,
pelos mais variados motivos. Pois essa figura tornou-se mais frequente no
pátio durante o recreio. Por diversos fatores — como a interação com menos
pessoas hoje do que em outras épocas —, os pequenos estão mais calados. “Trato
crianças de 5 anos que não conseguem se comunicar nem fazer amizade porque não
aprenderam o repertório verbal necessário ao contato social”, diz a
neuropsicóloga Anne Tarine.
As
escolas não colaboram muito para melhorar o panorama. “Colégios não ensinam
mais a conviver, só se preocupam em julgar e cobrar conteúdo”, comenta Rosely
Sayão, consultora de educação. Mesmo em questões pedagógicas, existe
descompasso entre as demandas infantis e a percepção dos mestres. “Atendi uma
menina de 8 anos classificada como ‘pouco inteligente’. Fizemos um teste, e ela
era superdotada”, diz a terapeuta Maria Thereza de Barros França. Claro que a
dificuldade das instituições de ensino em lidar com casos que fujam do padrão é
histórica. A novidade é a solução sugerida. “Quem é diferente acaba encaminhado
para terapia”, afirma o psicólogo Victor Mangabeira.
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Lorena com a mãe, Erika Angeli: mimada para compensar a ausência |
+ FRUSTRAÇÕES
Esse
tema é praticamente unânime entre psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e
terapeutas, seja qual for a linha de atuação. As crianças de hoje são mais
mimadas. Os pais passam menos tempo ao lado dos filhos — porque não moram
juntos ou trabalham demais — e tentam compensar essa “deficiência” da pior
forma possível, esquecendo-se de dizer a palavrinha mágica “não”. Os
consultórios estão abarrotados de “reizinhos da casa” que não conseguem lidar
com as frustrações naturais da vida. “Impor limites é mostrar cuidado. A
criança se sente mais confiante e protegida”, afirma a professora Ivonise
Fernandes da Motta. “Como isso é chato, trabalhoso e demorado, muitos adultos
preferem a saída mais fácil: deixar as crianças soltas para fazer o que
quiserem”, completa.
Segundo
especialistas, a facilidade está criando uma geração com tédio existencial.
Como batalham pouco, não valorizam o que ganham. “Elas estão recebendo tudo de
mão beijada, e é importante cultivar desejos”, diz a psicanalista Miriam
Ribeiro Silveira. Durante os primeiros anos de sua vida, Lorena, de 8, passava
a maior parte do dia ao lado da babá, enquanto os pais trabalhavam em tempo
integral. A mãe, Erika Angeli, procurava equilibrar a distância exagerando ao
chegar em casa. “Ela dormia todo dia na minha cama, eu a mimei demais”, admite.
Em 2013, surgiram mais dificuldades: um divórcio em casa e a mudança de
colégio. Lorena começou a tentar chamar a atenção dos professores na aula e
terminava frustrada e emburrada por não conseguir seu intento. No fim das
contas, isolou-se e teve problemas de relacionamento com os colegas. Após um ano
e meio de acompanhamento psicológico, tornou-se mais sociável e consegue
controlar melhor as emoções.
10 SINAIS DE QUE A CRIANÇA DEVE FAZER TERAPIA
Segundo
especialistas, os pais precisam aguardar por mudanças significativas de
comportamento:
1. Agitação — Mostra
alto grau de ansiedade ou tem atitudes como quebrar objetos de propósito
2. Agressividade — Grita,
esperneia, bate e protagoniza birras, tanto em casa como no colégio
3. Alimentação — Passa
a comer mais, ou menos, que o usual; em alguns casos, pode deixar de se
alimentar
4. Aprendizado — Tira
muitas notas baixas nas provas e tem queda geral no rendimento escolar
5. Comunicação — Não
consegue contar uma história do começo ao fim ou explicar como foi seu dia
6. Depressão — Chora
mais e fica de mau humor; a irritação também é um traço comum na depressão
infantil
7. Desligamento — Não
presta nenhuma atenção no que lhe dizem ou no que está ocorrendo à sua volta
8. Medo — Começa
a apresentar fobias exageradas e repentinas, sem motivação aparente
9. Socialização — Não
faz mais amigos, ou se distancia dos antigos, e tem dificuldade para brincar em
conjunto
10. Sono — Faz
xixi na cama (fora da idade em que é natural), range os dentes ou começa a ter
pesadelos frequentes.
QUE TIPO DE PAI
VOCÊ É?
Os
estilos de educação mais praticados dentro de casa
BONS
›
Ensino moral: os pais transmitem valores sobre o que é certo e o que é errado
›
Monitoria positiva: ficam atentos à criança e oferecem afeto sem vinculá-lo a
um prêmio por bom comportamento
RUINS
› Abuso
físico: os pais exageram nas broncas agressivas e chegam a utilizar a palmada
›
Disciplina relaxada: não apresentam coerência - uma regra que vale hoje pode
passar a não valer amanhã
›
Monitoria negativa: trancam o filho em uma bolha para protegê-lo do mundo
›
Negligência: não prestam atenção na criança e desconhecem seus gostos pessoais
›
Punição inconsistente: ameaçam retirar regalias, a exemplo do celular, como
forma de tentar controlar seu comportamento
Fonte: VEJA São Paulo –
Parte integrante da revista VEJA – Edição 2374 - Ano 47 – Nº 21 – 21 de maio de 2014 – Páginas
46 a 54 – Internet: clique aqui.
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