A oração não ouvida pela paz
Piero Stefani*
Il Pensiero della Settimana
13-07-2014
A
oração não ouvida é desde sempre um tema inquietante justamente da experiência
espiritual. A questão assim levantada se abre em duas frentes: a da apologética
e a do abandono.
A
primeira [apologética], por sua vez, se duplica: do lado do orante, afirma-se que este reza
mal ou pede o que é conveniente pedir; enquanto, do lado de Deus, apela-se a
misteriosos desígnios que, embora não compreendidos por criaturas humanas, são
orientadas infalivelmente ao bem.
A outra
possibilidade [abandono], por sua vez, se confronta de modo direto com o silêncio de Deus
e vive intensamente, sem saber como explicar, a resposta inexistente; é a
experiência da "noite escura".
Na
verdade, há também mais uma alternativa, com base na qual a decepção leva à
conclusão radical de que Deus simplesmente não existe. A oração de pedido
torna-se, então, uma projeção de necessidades de tipo psicológico ou social.
Nesse caso, o problema não é resolvido, é apenas dissolvido.
Uma
frente na qual a oração coletiva muitas vezes se chocou com o próprio fracasso
é a da paz. Um século atrás, nos meses que marcaram a passagem dos pontificados
de Pio X ao de Bento XV, elevaram-se orações para que cessasse a guerra
recém-deflagrada (mas também houve outras que pediam a Deus que fizesse com que
a sua parte vencesse).
O
conflito, porém, durou por mais de quatro anos e assumiu a dimensão de uma
tragédia sem precedentes.
Em
dimensões mais contidas, o discurso pode ser remetido também à atualidade. Na
noite do dia de Pentecostes, 8 de junho passado, o Papa Francisco convocou no
Vaticano um encontro de oração pela paz entre israelenses e palestinos. O
aspecto absolutamente inédito da iniciativa é que dela participaram, em pessoa,
o presidente israelense e o da Autoridade Nacional Palestina.
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Shimon Peres (Presidente de Israel), Papa Francisco e Mahmoud Abbas (Presidente da Autoridade Palestina) rezam pela paz nos jardins do Vaticano (08/06/2014) |
No
verão de 1914, era totalmente inimaginável que um papa convocasse ao seu redor
para rezar pela paz soberanos e chefes de Estado alinhados em frentes
contrapostas, mesmo que líderes de nações cristãs.
Há um
mês, nos jardins vaticanos, ao contrário, havia católicos, ortodoxos, judeus e
muçulmanos. Pelo que foi possível ver, o êxito da oração, no entanto, é o
mesmo; estamos diante de um fracasso seu.
Nas
últimas semanas, a situação na região israelense-palestina só piorou. De uma
situação de paz latente, passou-se à de um conflito cruel que ameaça se
transformar em guerra aberta. Ninguém, agora como então, pensa na situação como
um gatilho de um conflito de enormes proporções. Com efeito, não parece haver
os extremos para levantar previsões de tal feitio.
No
entanto, mesmo o propósito da oração dos jardins vaticanos tinha o seu alvo, e,
em relação a essa dimensão circunscrita, o saldo é, ao menos em curto prazo,
negativo.
Há um
mês, embora contida, havia uma retórica centrada na oração pela paz; hoje
pedimos apenas que a reflexão sobre a fraqueza da oração não tenha passado
totalmente em silêncio. Fazemos isso justamente para salvaguardar o sentido
alto do rezar que, quando é tal, não pode ignorar a experiência espiritual do
não cumprimento.
Caso
contrário, corre-se o risco de entregar a oração pela paz apenas a uma, mesmo
que inédita, forma de religião civil.
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
* Piero Stefani é filósofo
e biblista italiano, especialista em judaísmo e em diálogo judaico-cristão, ex-professor
das universidades de Urbino e de Ferrara [na Itália].
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