Quatro dias decisivos para a reforma da cúria (e do IOR)
Andrea
Tornielli
Vatican
Insider
30-06-2014
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Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga Cardeal-Arcebispo de Tegucigalpa (Honduras) |
São
quatro dias de trabalho decisivos para a reforma da cúria: a reunião dos oito
cardeais conselheiros (com a entrada do nono membro, o secretário de Estado
Pietro Parolin), que acontece de 01 a 04 de julho, deve revisar completamente
tudo o que foi discutido nas reuniões anteriores e elaborar uma síntese. O
autor da proposta do novo rosto da cúria será o coordenador do grupo, o cardeal
hondurenho Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga. O conselho formulará propostas
concretas e graças a elas o Papa, que sempre está presente nas sessões de
trabalho, tomará suas decisões.
É
possível, pois, que no dia 04 de julho saibamos se algumas das reformas que
haviam sido consideradas como hipóteses chegarão a bom porto. Por exemplo, será
institucionalizada a nova figura do “moderator curiae”, sobre a qual se
discutiu fartamente ou será esquecida após o nascimento do “ministério da
Economia”? Qual será o destino de alguns pontifícios conselhos? Passará o da
família, por exemplo, a congregação para os leigos, ou permanecerá como até
agora, em vista dos dois Sínodos dedicados justamente a este tema? O novo
Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização manterá seu atual
dirigente ou será integrado em alguma congregação (para a Educação Católica ou
para a Propaganda Fide)?
A
finalidade é chegar a:
- uma maior agilidade,
- a uma maior coordenação,
- a uma modernização,
- a uma simplificação e, sobretudo,
- a uma racionalização dos gastos.
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George Pell Ex-Cardeal-Arcebispo de Sidney (Austrália) |
Também
se falará sobre o futuro do IOR ["banco" do Vaticano]. Embora seja quase certa sua sobrevivência,
ainda não se sabe quais competências manterá e quais perderá, em relação à Apsa
(que deverá tornar-se quase um “banco central”, essa sigla significa: Administração do Patrimônio da Sé Apostólica) e à Secretaria para a Economia,
inclusive em relação à administração dos investimentos. Esta semana também se
reúne a comissão cardinalícia sobre o IOR, presidida pelo cardeal Santos Abril
y Castelló, e é provável que o cardeal espanhol também fale na presença do C8,
dos conselheiros papais. Além dos novos responsáveis pelo Instituto para as Obras
de Religião, em vista de uma possível mudança (com a saída do alemão Ernst Von
Freyberg, nomeado em fevereiro de 2013 depois da renúncia de Bento XVI, mas
antes da chegada da sede vacante à Sé Apostólica).
Os oito
cardeais conselheiros do Papa são:
- Giuseppe Bertello (único italiano e único curial presente),
- Francisco Javier Errázuriz Ossa (único emérito do grupo) [chileno],
- Oswald Gracias [indiano],
- Reinhard Marx [alemão],
- Laurent Monsengwo Pasinya [congolês],
- Sean Patrick O’Malley [norte-americano],
- George Pell [australiano],
- Óscar Andrés Rodríguez Maradiaga [hondurenho].
Nos
últimos meses, dois dos cardeais conselheiros foram chamados para desempenhar
novos postos na cúria: Pell deixou Sidney para ser o “ministro da Economia”, e
Marx, que continua como arcebispo de Munique, foi nomeado coordenador do
Conselho para a Economia, composto por leigos e especialistas em assuntos
financeiros. Alguns deles foram eleitos no âmbito da comissão referente de
estudo dos problemas econômico-administrativos da Santa Sé (Cosea). As
comissões referentes, sobre o IOR (CRIOR) e a Cosea, concluíram seus trabalhos
e foram dissolvidas.
Traduzido
do espanhol por André Langer.
Para ler o artigo em seu original, clique aqui.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos –
Notícias – Quarta-feira, 2 de julho de 2014 – Internet: clique aqui.
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos –
Notícias – Quarta-feira, 2 de julho de 2014 – Internet: clique aqui.
Da Cúria ao IOR,
todos os obstáculos que retardam as reformas do papa
Franca
Giansoldati
Il
Messaggero (Roma – Itália)
30-06-2014
Reformar
a Cúria? Uma missão bastante complicada. "Não é uma coisa fácil, porque se
dá um passo, mas depois surge que é preciso fazer isto ou aquilo, e, se antes
havia um dicastério, depois se tornam quatro." Um pouco como um jogo de
tabuleiro. Avança-se duas casas e depois se retrocede o dobro.
O Papa
Bergoglio se deu conta disso enquanto o tempo passava e ganhava corpo o projeto
de fazer ajustes substanciais ao aparato administrativo e burocrático do Estado
vaticano, do IOR aos Pontifícios Conselhos, segundo um mandato bem preciso
recebido dos cardeais em março de 2013, durante as congregações pré-conclave,
ou seja, as longas reuniões realizadas a portas fechadas que precederam o extra
omnes [1] e a eleição na Capela Sistina.
As críticas
Por
vários dias, duas vezes por dia, os eleitores tiveram a oportunidade de debater
sem limites, às vezes duramente, às vezes fazendo vir à tona contrastes e
divergências de pontos de vista sobre como, até então, a Cúria Romana era
gerida:
- Centralista demais,
- excessivamente tendenciosa sobre Roma,
- incapaz de captar as necessidades periféricas,
- até mesmo corrupta e
- atravessada por venenos.
- prevaricação [2],
- peculato [3],
- extorsão [4],
- suspeita de lavagem de dinheiro no IOR [Instituto para as Obras de Religião] e na Apsa [Administração do Patrimônio da Sé Apostólica],
- um mordomo condenado e preso por furtar documentos confidenciais,
- um policial e um técnico de informática que acabaram mal por tê-lo ajudado,
- corjas de monsenhores contra outras.
- E o Papa Ratzinger isolado, quase prisioneiro, no Apartamento do Palácio Apostólico.
O caminho
O
pedido para renovar radicalmente o aparato nasceu justamente da necessidade de
transparência, da necessidade de maior escuta e colaboração. Foi justamente
nesse período, como lembrou Francisco, entrevistado pelo Il Messaggero, que os
cardeais delinearam o caminho que o novo pontífice deveria percorrer.
O
primeiro objetivo de todos: rever o mecanismo da Secretaria de Estado, que, de
órgão complementar, de apoio ao pontífice, ao longo dos últimos dez anos,
ocupou espaços de gestão imprevistos, servindo de tampão para muitas
iniciativas, debates internos, propostas periféricas.
Nas
congregações gerais, a Secretaria tinha sido descrita como uma espécie de
tampão. É por isso que a reforma de um escritório tão importante como esse não
podia ser vista como um ponto isolado, mas considerada como uma parte de um
processo mais amplo, abrangendo o aparato inteiro, que, por sua vez, deveria
ser posto no marco mais geral da mudança da instituição eclesiástica.
Desde o
início, não faltaram propostas e ideias. Entre elas, por exemplo, a possível
introdução do Moderador Curiae [5], uma figura nova, sugerida por diversos juristas
(incluindo o cardeal Coccopalmerio) com funções de interface entre os diversos
órgãos, congregações, conselhos, escritórios para agilizar as práticas,
defini-las e direcioná-los aos lugares apropriados.
Uma
ideia nova, em uso em algumas dioceses, que, no entanto, assim que o debate
continuava, demonstrava-se ineficaz, porque daria origem a um órgão a mais.
Assim, ao invés de racionalizar, aumentaria os dicastérios em número. No fim, o
Moderador Curiae acabou arquivado.
O papa
quis se dotar de uma espécie de conselho da coroa, o Conselho dos oito [cardeais], uma
estrutura finalizada a rever a constituição apostólica Pastor Bonus (que é a
que regula a Cúria). O conselho é composto por líderes do clero dos cinco
continentes. Bergoglio chamou para fazer parte dele o hondurenho Maradiaga, o
italiano Bertello, o chileno Errazuriz Ossa, o indiano Gracias, o alemão Marx,
o congolês Pasinya, o estadunidense O'Malley e o australiano Pell, apoiados
pelo secretário, o bispo de Albano, Marcello Semeraro.
Eles se
veem em uma base trimestral por alguns dias, depois cada um retorna. Até agora,
estabeleceram como lidar com as reformas econômicas e como reforçar a prevenção
da pedofilia entre os padres.
O australiano
Por
sugestão do C8 [conselho dos oito cardeais], o papa assinou um motu proprio [6] para a instituição de uma
"nova estrutura de coordenação para os assuntos econômicos e
administrativos", um superministério vaticano da Economia, liderado pelo
cardeal George Pell, 72 anos, arcebispo de Sydney. Um homem de estilo rápido e
maleável, encarregado de supervisionar todas as despesas.
O novo
"Conselho para a economia" é constituído por oito cardeais ou bispos
e sete leigos de várias nacionalidades, com competências financeiras e
profissionalismo reconhecido. Outro órgão a mais, que vai se somar aos outros.
Além de
racionalização, fusões, simplificações. Encostar em um Pontifício Conselho logo
desperta um vespeiro, e assim, em cada reunião, o C8 reconhece a complexidade
de um sistema em que até mesmo um grão de areia corre o risco de obstruir todo
o mecanismo.
Algum
tempo atrás, Francisco explicou que a reforma em curso tem como objetivo
"melhor servir a Igreja e a missão de Pedro". O problema é que,
"entre as várias administrações, deveria se estabelecer uma nova
mentalidade de serviço evangélico".
Tempestade no IOR
O
exemplo é o IOR [Instituto para as Obras de Religião], onde explodiu a liderança para o controle do Instituto, e o
assento da presidência confiada por Bertone ao alemão Freyberg oscila, com a
hipótese de um aumento dos custos e outros venenos novamente prontos para
atingir os adversários.
A
renovação não é nada fácil. Em diversos níveis surgem resistências, ouvem-se
resmungos, dores de estômago submissas. O caminho da reforma da Cúria "não
será simples e requer coragem e determinação. Um desafio notável, que requer
fidelidade e prudência", dissera Francisco, prometendo avançar sem medo.
Bergoglio,
de fato, irá em frente. O mandato pré-conclave, além disso, foi muito claro.
Veremos quem vai levar a melhor.
A morte
Um
pontífice tem um "caminho definitivo". O seu fim é "no
túmulo". O Papa Francisco disse isso como uma brincadeira, mas a frase é
daquelas que geram discussão. Quando ele a disse na noite de sábado nos jardins
vaticanos, ele se encontrava na frente da gruta de Lourdes com um grupo de
jovens da diocese de Roma, em busca vocacional.
Depois
de lhes falar sobre o "sentido do definitivo", obrigatório na escolha
de quem quer ser padre e em antítese direta à atual e imperante "cultura
do provisório", Bergoglio acrescentou: "Acredito que quem tem mais
seguro o seu caminho definitivo é o papa! Porque o papa... aonde o papa vai
acabar? Ali naquele túmulo, não?".
Traduzido
do italiano por Moisés Sbardelotto.
NOTAS:
[1]
Extra omnes ("fora todos [os outros]") é uma frase latina da tradição
da Igreja Católica. É pronunciado pelo mestre de celebrações litúrgicas
pontifícias na Capela Sistina no início do conclave para eleger um papa, a fim
de convidar a sair todos aqueles que não são chamados à eleição, pois a eleição
papal é secreta. Posteriormente, a porta da Capela Sistina é fechada.
[2]
Prevaricação é crime cometido por funcionário público quando, indevidamente,
este retarda ou deixa de praticar ato de ofício, ou pratica-o contra disposição
legal expressa, visando satisfazer interesse pessoal.
[3]
Peculato é crime que consiste na subtração ou desvio, por abuso de confiança,
de dinheiro público ou de coisa móvel apreciável, para proveito próprio ou
alheio, por funcionário público que os administra ou guarda.
[4] Extorsão é o ato de obrigar alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, por meio
de ameaça ou violência, com a intenção de obter vantagem, recompensa, lucro.
[5] Moderador Curiae seria uma espécie de "diretor-geral" para supervisionar o trabalho dos
dicastérios [os Ministérios do Vaticano], perguntar se eles têm instrumentos necessários e pessoal
suficientemente qualificado e evitar que a Cúria trave ou se desentenda. Não
substituiria o atual trabalho do Secretário de Estado, mas seria mais ideal para os
problemas da Igreja universal ao lado do Pontífice.
[6] Motu proprio é uma frase latina (traduzida literalmente significa: por sua própria iniciativa) que indica
um documento, um compromisso ou de uma decisão geral de "iniciativa
própria" por aqueles que têm o poder ou a faculdade. Por definição, um
documento (decisão) do papa que não foi proposto por algum órgão da Cúria
Romana.
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