Brasileiro vai às ruas por direitos, mas desrespeito às leis aumenta
VICTOR
VIEIRA
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Desrespeito às leis e regras de boa convivência: jogando lixo em local público |
Na mesa
de bar ou nas redes sociais, o brasileiro reclama que políticos descumprem as
leis - e cada vez mais sai às ruas por direitos. No cotidiano, porém, a
transgressão de regras é frequente - desde o consumo de pirataria até a
embriaguez ao volante. Para oito em cada dez brasileiros, é fácil desobedecer
às normas. Sempre que possível, recorrem ao "jeitinho". As causas,
segundo quem viola as regras, são falhas nas leis e o mau exemplo de
autoridades.
Os
números são da segunda edição do Índice de Percepção do Cumprimento da Lei
(IPCL) da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (Direito GV), obtido
pelo [jornal] Estado com exclusividade. Entre 2013 e este ano, aumentou a quantidade de
pessoas que admitem ilegalidades ou infrações, como as de trânsito. Na escala
de zero a dez, o IPCL recuou de 7,3 para 6,8 em relação a 2013. Participaram do
levantamento 3,3 mil entrevistados em sete Estados e no Distrito Federal.
A
agente de viagens Cristina, que preferiu adotar um pseudônimo, bateu o carro
depois de beber. Pior: a jovem não tinha carteira de habilitação. "Você
faz uma, duas, três vezes. Como não acontece nada, relaxa", reconhece ela,
de 23 anos.
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Desrespeito às leis de trânsito: beber e dirigir veículos automotores |
Apesar
do recente endurecimento da lei seca, a mistura de álcool e direção foi
admitida por 17% dos entrevistados pela Direito GV. "Por causa das blitze,
trocava caminhos ou deixava de passar por ruas movimentadas. Nunca havia tido
problemas", relata.
Ninguém
se feriu no acidente de Cristina, mas a experiência negativa fez com que ela
mudasse de postura. "Bati só em uma placa. Mas isso mexeu comigo. Não bebo
e dirijo de novo. Já perdi amigos em situação igual." Ela ainda presta
serviço comunitário como pena, que foi menor porque o exame não detectou a
presença de álcool. Embora no comportamento muitos ignorem a lei, a pesquisa
mostra que a maioria sabe que a prática é imprópria - 97% disseram que beber
após dirigir é "errado" ou "muito errado".
Regras e exceções
Já o
arquiteto Cauê Azevedo, de 24 anos, confessa usar carteira de estudante
adulterada. "Estou com o curso trancado, mas não deixei de ser aluno. Como
o documento da minha faculdade não vale mais, resolvi fazer um falso",
argumenta. Mesmo para a irregularidade, Azevedo afirma adotar critérios.
"Se o preço é baixo, às vezes nem uso. Mas não vou pagar caro para ir a um
show e ficar em pé", afirma.
Azevedo
acredita que um dos principais problemas é a defasagem de algumas leis.
"Estão fora da realidade das pessoas", reclama ele, que também admite
baixar séries de TV na internet e ouvir música alta a ponto de incomodar os
vizinhos. Para ele, os escândalos de corrupção políticos também levam às
práticas irregulares. "Se a figura pública não é punida, por que isso
acontecerá com quem comete delitos menores?", questiona.
Para
evitar maus exemplos às três filhas, Élvio Freitas garante evitar desvios.
"Elas precisam aprender o que é certo em casa. Sou bem 'caxias'",
conta o pós-graduando em Direito, de 46 anos. Freitas afirma, no entanto, que
já perdeu a carteira de motociclista por infrações. "O motivo foram
ultrapassagens no farol vermelho: é perigoso parar em uma esquina de madrugada.
Não arrisco minha vida só pela regra", justifica.
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Desrespeito às leis de trânsito: ultrapassar em local proibido devido visibilidade baixa ou inexistente |
Vigilância social
A
coordenadora do estudo, Luciana Gross Cunha, afirma que a certeza da punição,
diferentemente do que se imagina, pesa menos do que o controle social no
cumprimento das leis. "A preocupação é quanto a conduta gera de imagem
negativa", afirma. Isso explica por que algumas ações, como a compra de
produtos piratas ou atravessar fora da faixa de pedestre, são alvo de menos
críticas, apesar de também irregulares. "Há uma permissividade, cultural e
social, que interfere no comportamento", afirma.
Segundo
ela, chama a atenção nos resultados o número de pessoas que admitem dirigir
alcoolizadas, apesar das campanhas de conscientização. "É necessário
pensar em como garantir o cumprimento das regras, mesmo depois de elas saírem
das discussões diárias e dos meios de comunicação."
Fonte: O Estado de S. Paulo – Metrópole – Domingo,
6 de julho de 2014 – Pg. A18 – Internet: clique aqui.
“Instituições
não responderam aos protestos”
BÁRBARA FERREIRA SANTOS, FELIPE NEVES e VICTOR VIEIRA
A
sensação de desrespeito às leis é acompanhada por uma crise de legitimidade das
instituições. A pesquisa, feita após as manifestações de junho de 2013,
evidencia baixa confiança no governo, nos partidos políticos, no Judiciário e
na polícia.
"As
instituições políticas e representativas não souberam responder aos
protestos", avalia a professora da Direito GV Luciana Gross Cunha. O
descontentamento popular com a corrupção no governo visto nas manifestações,
entretanto, não se traduz em maior controle sobre o cumprimento de normas de um
cidadão em relação ao outro. "Talvez aumente o pessimismo: se o outro faz,
faço também. E, sem incentivo do governo ou da Justiça, não me comporto de
acordo com a lei", diz.
Mendez,
fotógrafo de 24 anos, não acredita em seguir regras a todo custo. "A lei
supõe que somos a Suíça. Mas ando quarteirões com lixo na mão sem achar uma
lixeira", critica ele, que se considera transgressor. "Não significa
que eu seja antiético. Apenas contra hipocrisias. É preciso questionar as
leis", sugere.
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Luciana Gross Cunha (Direito / FGV) Coordenadora da Pesquisa IPCL |
Para o
professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Carlos Kauffmann, porém, ainda há a ideia de que o resultado justifica a ação.
"Alguns acham que falsificar documento de estudante é menor. Mas é crime
grave", explica ele, que também defende mudança de cultura.
Transformações
O professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) José Álvaro
Moisés identifica contestações e desconfiança no governo como parte do processo
de amadurecimento do País. "Há menos passividade, com grande atenção ao
que se passa na política", aponta.
Segundo
ele, as infrações não são aceitáveis, mas também explicadas por desigualdades
sociais. "Até hoje não é universal o acesso à educação, por exemplo",
afirma.
A
pesquisa confirma diferenças de percepção entre classes: ricos creem ser mais
fácil desobedecer às leis. "Quem é vítima de maior controle social não é a
população de alta renda", explica Luciana. Dos entrevistados que recebem
mais de oito salários mínimos, 85% dizem ser fácil descumprir leis. Já entre os
que ganham menos de um salário, são 71%.
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