CONHEÇA O PARTIDO POLÍTICO QUE, DE FATO, COMANDA A POLÍTICA BRASILEIRA
Esfinge devoradora
Carlos Melo*
Só Fernando Collor
resistiu ao PMDB.
Sabe-se bem no que deu
Trata-se de um todo
contraditório: o PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro]** espelha parte da história da redemocratização do
País, mas também do processo de degeneração do sistema político nacional.
Seu apetite por cargos e recursos é voraz; sua disposição e expertise para
arrancar concessões e recursos dos governos se igualam em habilidade e frieza
às de jogadores de pôquer. Ao contrário do PT, é um campo de profissionais. Sua visão reside na perpetuação do próprio
poder e levar o baixo clero ao paraíso. O PMDB não é para principiantes.
Há anos o partido se desenvolve num movimento desigual e
combinado. Federação de grupos, suas áreas são diversas, contraditórias e
divergentes. Mas é a diversidade que mantém a unidade e a perspectiva de poder
que o amalgama. É notável a capacidade que possui de representar grupos
particularistas e satisfazer interesses restritos, nem sempre claros ou
visíveis. É importante compreender o engenho e a arte desse seu dividir para
somar.
Em 2002, por exemplo, o partido esteve oficialmente com José
Serra, na candidatura à Presidência da República - Rita Camata (ES) foi sua
vice; outra banda namorou a possibilidade de Lula finalmente ser eleito.
Vitorioso Lula, os vencedores do PMDB resgataram os derrotados do partido. Em
1998, ameaçando a reeleição de FHC, a legenda flertou com Itamar Franco,
deixado no sereno após acordo com os tucanos. Em 2006, para assombrar a
reeleição de Lula, o instrumento foi Anthony Garotinho. Ameaças assim rendem
bons acordos e espaços crescentes no governo dos outros.
A mecânica é simples: partido de numerosa bancada, assume
centralidade no jogo da governabilidade do presidencialismo de coalizão. Além de tempo de TV, a grande bancada
oferece apoio e blindagem, mas reivindica - e recebe - uma mancheia de
ministérios e recursos que beneficiarão grupos e municípios, elegendo centenas
de prefeitos que, mais adiante, elegerão uma nova e relevante bancada.
Ciclo vicioso para o País, mas virtuoso para partidos, quase todos como o PMDB.
Não importa quem
ganhe ou perca a eleição, o PMDB sairá vitorioso, sempre. É sua natureza.
Por arriscado e custoso, eleger presidentes da República interessa pouco. Nem
José Sarney, seu presidente de honra, era PMDB; foi Ulysses Guimarães o
poderoso do período. Na era FHC, o partido incorporou-se ao governo. Com Lula,
o veto presidencial à sigla fez com que José Dirceu se embrenhasse na vereda do
mensalão. Por gravidade, Lula caiu no colo de Renan, Sarney e companhia. Para
Dilma, Michel Temer é fatalidade difícil de assimilar, mas impossível de
descartar. Somente Collor resistiu realmente ao PMDB. Sabe-se no que deu.
A fórmula de sucesso se espalhou por todos partidos de
alguma relevância no complicado enredo do presidencialismo de coalizão. Nas
últimas eleições, a bancada peemedebista até se reduziu. Mas sua cultura, como
gás, se expandiu. Mais que um partido, o
PMDB é um espírito. Eduardo Cunha
é um parlamentar multipartidário, despachante do interesse de várias bancadas -
na oposição e no PT, inclusive. Não é líder político clássico, que expressa
programa e projeto. É um objeto; o primus
inter pares de um Parlamento cuja estatura encolheu.
![]() |
Eduardo Cunha - PMDB-RJ - eleito Presidente da Câmara dos Deputados |
Desinteligência e teimosia se misturam e a história patina.
Intolerantes não só com as leis de mercado, a presidente Dilma e seus
conselheiros parecem ter ojeriza também à implacável lógica dessa política. Na
disputa pela presidência da Câmara, pretendendo esvaziar e descartar o aliado
rebelde, agiram como uma curiosa espécie de franco-atirador que dispara no
próprio pé. Ao tentar romper o ciclo vicioso do peemedebismo, recorreram aos
instrumentos que censuravam no adversário, oferecendo cargos e verbas. Perderam
o respeito e o discurso. Com Gilberto Kassab, imaginaram criar um outro PMDB
para chamar de seu. Saíram ainda mais vulneráveis e suscetíveis ao jogo de
pressão e chantagens.
A negociação de parte da agenda do ajuste fiscal fica,
assim, mais dependente dos apetites do Congresso. Certamente, mais custosa: o
saldo do esforço de Joaquim Levy pode resultar em muito pouco. Ademais, as
delações premiadas estabelecem um clima de imprevisibilidade - “fim de
governo”, “impeachment”? O desembaraço com que se fala já é mau sinal. Mas, só
mesmo o desenrolar do novelo da política é que dirá. O certo é que Dilma
necessitará do mais alto grau da habilidade que parece lhe faltar.
Muito disso tudo passará pelo humor do novo presidente da
Câmara, um negociador implacável, sabedor do que quer e pouco condescendente
com inimigos. Possui, ao que parece, telhado de vidro, mas é dono de
perspicácia pouco comum para o atual padrão da política nacional. Ousado, chama
atenção pela capacidade de se antecipar. Será, enfim, um jogo de nervos. À
presidente, pouco política, nada valerá reagir com impaciência. Precisará
dominar seu asco, errar menos. Decifrar a esfinge do peemedebismo e confiar na
sorte. E não ser devorada.
*
Carlos Melo é cientista político, professor do INSPER e
autor de “Collor – o ator e suas circunstâncias” (Ed. Novo Conceito).
** Para mais
informações sobre este que é o maior partido político brasileiro, clique aqui. Sobre o deputado federal Eduardo Cunha, clique aqui para saber mais sobre a carreira e aliados desse poderoso político do PMDB.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Suplemento ALIÁS – Domingo, 8 de fevereiro de 2015 – Pg. E9 –
Internet: clique aqui.
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