BRASIL: O QUE ESTÁ ACONTECENDO? COMO SAIR DESSA?
Entrevista especial com Luiz Werneck Vianna
Patricia Fachin
Colaboração de César Sanson
“A pior coisa que ocorreu foi o desencanto e o fato de o país olhar em
torno e ver que não há nenhum projeto de futuro que seja persuasivo, que
mantenha capacidade de encantamento; estamos sem rumo”, lamenta o sociólogo.
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Luiz Werneck Vianna - sociólogo e pesquisador - PUC/RJ |
Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio
[Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro]. Doutor em Sociologia pela
Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e
americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A
judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de
Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo
Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada.
Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e
Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012).
Nos últimos dois
anos, Werneck Vianna esteve entre os sociólogos brasileiros que acompanharam as
causas e as consequências das manifestações de massa que iniciaram em 2013 e
assegura que embora não tenha havido um retorno às manifestações massivas no
país, “a insatisfação agora é mais
funda. Se ela vier à tona vai ser muito difícil domesticá-la, porque aí diz
respeito aos rumos do país e não a políticas setoriais como foi em 2013, quando
as manifestações foram organizadas em torno de políticas públicas específicas, como
da saúde, do transporte. Agora, se vier, virá por uma agenda geral”.
Ele sugere que em
algum momento os partidos políticos “mais responsáveis e presentes” terão de
encontrar uma “saída para o impasse que aí está para evitar o terremoto que
pode abalar as estruturas políticas do país, ameaçando as conquistas que
fizemos ao longo desse tempo”.
Confira
a entrevista:
Sendo
sociólogo, como o senhor está enxergando o Brasil hoje, considerando que há
dois anos ocorreram manifestações em massa, depois a presidente Dilma foi
reeleita, e já no primeiro mês do segundo mandato, a popularidade dela caiu por
conta dos ajustes anunciados, entre eles, as medidas de austeridade, como o
aumento dos impostos, o aumento da energia, o aumento da gasolina, a crise da
Petrobrás? O que está acontecendo?
Luiz Werneck Vianna – O governo está perdido e confuso. A
situação é preocupante.
O senhor
percebe mudanças no governo Dilma em relação ao discurso que levou à reeleição
da presidente e o primeiro mês e meio de sua gestão? Concorda com as teses de
que o governo deu uma guinada à direita ou pode-se dizer que se trata de um
governo de continuidade?
Luiz Werneck Vianna – Uma guinada à direita não é bem o caso; ela
deu um “cavalo de pau”. O rumo dos acontecimentos no primeiro mandato dela
apontava para uma direção de retorno da inflação e baixo crescimento econômico
– tudo isso estava no radar. Aliás, as candidaturas de oposição batiam
exatamente nessa direção, na necessidade de mudança na orientação.
O problema da Dilma
é que ela pensa que é economista; ela pode ser tudo, mas ela não é a economista
que ela pensa que é. Tanto que quando ela assumiu as rédeas da economia, junto
com o [Guido] Mantega, ela enfiou o país num beco sem saída. Então, não tinha
jeito, tinha de mudar.
Considerando
esse cenário previsto anteriormente de baixo crescimento para este ano, então
não há surpresa em relação às mudanças anunciadas no segundo mandato ou há?
Luiz Werneck Vianna – Não, certamente. Mas para o eleitor há,
porque foi dito uma coisa e outra coisa foi feita. Agora, o caminho em que a
situação se encontrava não permitia a reiteração, porque era o caminho errado.
E não à toa Dilma foi chamar economistas que na verdade perfilavam o programa
do adversário.
Foi
acertada a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda?
Luiz Werneck Vianna – Acho que foi, porque se ela continuasse no caminho
em que estava, a crise seria maior ainda.
Quais são
as principais crises e contradições do atual governo Dilma?
Luiz Werneck Vianna – Ela apostou no caminho do nacional
desenvolvimentismo. Esse caminho está exausto. Ele teve seu momento décadas
atrás, mas agora não há como continuar. O mundo evoluiu e não há mais fôlego
para uma política desse tipo. A globalização e a internacionalização da
economia são um fato, são uma realidade.
O governo
Lula iniciou seu mandato com o projeto nacional desenvolvimentista. Em que
momento o governo Dilma, como continuidade do governo Lula, deveria ter mudado
de projeto ou deveria ter percebido que este projeto estava esgotado, como o
senhor está dizendo?
Luiz Werneck Vianna – Faltou coragem intelectual e competência
também para admitir que as circunstâncias eram outras. Então, levou-se até o
fim essa possibilidade esgotada na campanha eleitoral, mas com o fim da
campanha eleitoral, não havia prerrogativa se não mudasse.
As
circunstâncias das quais o senhor fala, que deveriam ter levado a uma mudança
de projeto, foram consequência de fatores internos ou externos? Pode
exemplificar alguns?
Luiz Werneck Vianna – As duas coisas. Os internos são a baixa
capacidade de investimento, o afastamento do empresariado do governo Dilma, e o
desencanto com uma proposta que já estava claro que já tinha dado o que tinha
que dar.
Qual é o
significado da eleição de Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados e de Renan
Calheiros no Senado?
Luiz Werneck Vianna – A eleição de Renan Calheiros era muito
esperada, inclusive porque ele é muito confiável do ponto de vista do governo.
Por outro lado, Cunha vinha acumulando forças em nome de algumas coisas até
importantes, como a independência do Poder Legislativo, e ele foi capaz de
galvanizar em torno dele o baixo clero [deputados federais de pouca expressão] e
setores inconformados com a política do governo, inclusive da própria base
aliada, conforme se viu.
Que papel
jogará o PMDB no segundo mandato de Dilma?
Luiz Werneck Vianna – O PMDB é chave. Ele está mais encorpado e
autonomizado agora em relação ao governo. O PMDB percebeu que estava sendo
alijado pelo governo e esse foi um dos motivos, inclusive, que propiciou a maciça
adesão, por parte do PMDB, à candidatura de Eduardo Cunha.
Enfim, as urnas
apontavam para o fato de que o PMDB tinha se fortalecido, mas a presidente, que
tem um vice-presidente do PMDB, não reconhece o fato e montou um ministério com
uma influência reduzida do PMDB, e o PMDB reagiu. Além do fato de o Eduardo Cunha
agrupar em torno dele todas as demandas corporativas na classe política e
também de agrupar a reação a essa agenda comportamental, digamos, libertária,
de alguns setores, como o tema da sexualidade, do aborto. Então, ele se tornou
um candidato muito poderoso por vários motivos. Ele tem uma agenda política,
uma agenda corporativa e uma agenda das questões comportamentais. Agora a
presidente vai ter de saber coexistir e conviver bem com ele. A situação é
preocupante.
O senhor
concorda com a tese de que o governo Dilma está muito isolado neste segundo
mandato? Se sim, quais são as razões e os possíveis riscos disso?
Luiz Werneck Vianna – Que está havendo atritos e ruídos na
relação da presidente Dilma com o PT, que é o partido dela, é evidente. Isso
está presente no cotidiano, estampado nos jornais. E isso é muito perigoso,
porque a presidente precisa de um partido que a sustente.
Quais são
as razões dos atritos entre ela e o partido? Isso representa uma crise ainda
maior do próprio partido?
Luiz Werneck Vianna – Um dos motivos é que tal como o PMDB, as
facções majoritárias do PT foram deslocadas na hora da composição do governo:
os homens da Democracia Socialista
passaram a ter uma posição mais encorpada do que as correntes majoritárias do
PT. Então isso também pesa. Além do fato de que a presidente não é capaz de
justificar, de forma clara, para o mundo da política, para os eleitores, para
os cidadãos em geral, qual é o sentido da política dela, ou seja, por que ela
adotou a linha, em termos de programa econômico, do seu adversário. Isso tem de
ser dito e explicado. Ela tem de apresentar um diagnóstico.
Agora é difícil
para ela explicar, porque ela fez uma campanha política dizendo que estava tudo
bem. Mas de qualquer forma ela tem de dizer que se antes estava tudo bem, agora
a situação é outra e é preciso fazer mudanças, ou seja, que neste momento é
preciso fazer uma mudança de rumo no que se refere a aspectos da sua política.
Mas ela não fez nada: mudou e não falou nada; ficou muda.
É
possível identificar um núcleo duro hoje no governo?
Luiz Werneck Vianna – É o pessoal do teu estado, a Democracia Socialista do Rio Grande do
Sul, a Dilma, Aloizio Mercadante, que não é o “Ás” da política que dizem que
ele é. Tudo vai depender do que o PT vai fazer, especialmente o Lula. A
presidente precisa ter um partido que a sustente. Se ela ficar sem partido,
vamos repetir o caso do Collor e aí o impeachment
[1] seria inevitável.
A pior coisa que
ocorreu foi o desencanto e o fato de o país olhar em torno e ver que não há
nenhum projeto de futuro que seja persuasivo, que mantenha capacidade de
encantamento; estamos sem rumo e não podemos ficar assim.
Essa
falta de encantamento não é repentina. O que houve? Não foi diagnosticada a
tempo?
Luiz Werneck Vianna – Sem dúvida, mas isso aconteceu por causa do
pragmatismo. O pragmatismo é bom em política, mas ele não pode prescindir de um
elemento de convicção. A ética da responsabilidade – essas categorias célebres
da obra de Weber - é incontornável, mas ela não pode abdicar de uma ética de
convicção. O que ocorreu ao longo desses governos foi que as convicções foram
jogadas fora, postas embaixo do tapete. A ética de responsabilidade nos levou
ao pragmatismo que só consultou as suas razões e pôs a marca maior no presidencialismo de coalizão que temos,
que é uma forma degradada de política.
Assiste-se
hoje a um crescente movimento interno no PT com a convocatória “Lula 2018” como
tábua de salvação da continuidade do PT no poder. Como interpreta esse
movimento?
Luiz Werneck Vianna – Isso a meu ver não ajuda porque apenas põe
em parêntese quatro anos. Quatro anos é muito tempo. Como era o mundo há quatro
anos? Como era o Brasil há quatro anos? Diferente e, em alguns casos,
radicalmente diferente. As coisas não vão permanecer iguais até que chegue a
hora da convocação da próxima sucessão presidencial. O que se tem de pensar é
como garantir condições de operação do governo que aí está.
Parcela
do movimento social brasileiro tem levantado a bandeira da REFORMA POLÍTICA.
Como interpreta essa bandeira no contexto da atual conjuntura?
Luiz Werneck Vianna – O presidente da Câmara já assumiu o
compromisso de levar a iniciativa legislativa que já existe a voto. Isso vai
encontrar uma decisão, mas é claro que isso vai demorar porque o projeto de
reforma que está no Congresso agrada apenas parcialmente, mas não agrada a
todos. Vai ser difícil encontrar um consenso, mas como a opção foi de
encaminhar a reforma política de modo “fatiado”, é possível que os aspectos de
difícil aceitação sejam logo rejeitados e as partes, digamos, mais saudáveis da
reforma persistam. Esse é um caminho possível.
Diante
das manifestações que ocorreram em 2013 e no passado, vislumbra a possibilidade
de novas manifestações por conta do aumento da tarifa de energia, do provável
aumento da tarifa de água - já anunciado -, e do aumento da gasolina, que
possivelmente irá gerar aumento no valor da passagem do transporte público e
dos alimentos?
Luiz Werneck Vianna – Tem havido algumas movimentações,
especialmente em São Paulo, mas elas não têm, pelo menos por enquanto, a mesma
envergadura do que se encontrou em 2013. E as manifestações de massa, se
vierem, virão por essa agenda que você mencionou, por conta do custo de vida,
da inflação.
Há razões
para ir às ruas hoje como se teve em 2013?
Luiz Werneck Vianna – A insatisfação agora é mais funda. Se ela
vier à tona vai ser muito difícil domesticá-la, porque aí diz respeito aos
rumos do país e não a políticas setoriais como foi em 2013, quando as
manifestações foram organizadas em torno de políticas públicas específicas,
como da saúde, do transporte. Agora, se vier, virá por uma agenda geral.
E se as
manifestações vierem, poderá haver risco de impeachment?
Luiz Werneck Vianna – Penso nessa possibilidade com muita
preocupação porque não gosto dessa saída institucional, mas, como disse o
senador Cristovam Buarque, em declaração recente no Senado, isso já está nas
ruas. Mas isso seria, a meu ver, um terremoto. A presidente tem de procurar
dialogar. Um diálogo que está implícito aí é o [Joaquim] Levy e o seu programa
econômico, que é o programa econômico do PSDB. Então, num certo sentido, há uma
coalizão aí não declarada.
Os principais
protagonistas da política brasileira deviam propor uma saída suprapartidária no sentido de defender as instituições e a
democracia brasileira. André Lara
Rezende escreveu há poucos dias um artigo no Estadão [para ler este artigo, clique aqui]em
que os últimos parágrafos são dedicados precisamente a essa possibilidade de
uma “quase que” – não estou dizendo “de” - união nacional.
Mas precisa de
muita maturidade para realizar isso, porque do contrário essa crise pode se
tornar infernal, especialmente se ocorrer a reiteração de movimentações
massivas como aquelas de 2013, onde certamente o termo impeachment vai aparecer. É necessário evitar isso urgente. Mas
está difícil ver quem seria um dos portadores dessa boa mensagem.
O governo
em negociação com as centrais sindicais não voltou atrás e sequer negociou as
medidas de redução do direito ao seguro-desemprego e de mudanças nas regras de
pensão por morte e o auxílio-doença. Como interpretar esse endurecimento do
governo?
Luiz Werneck Vianna – Essa foi também uma coisa mal conduzida.
Que há distorções, há, que há fraude, há. Que isso tem de ser corrigido, tem,
mas isso tem de ser dito. Isso tudo
tinha de ser concebido de forma consensual, as centrais sindicais tinham de ser
chamadas e a situação tinha de ser exposta para mostrar qual é o tamanho da
fraude e do buraco que as distorções têm trazido para a política fiscal
brasileira, e aí chegar a um consenso. Mas não, o assunto caiu como um
relâmpago de cima para baixo.
Algumas
notícias dos últimos dias informam que o ex-ministro Mantega havia dito aos
representantes das centrais sindicais, no ano passado, que ajustes seriam
feitos neste ano. Mas essa questão não foi informada nas eleições. Por quê?
Luiz Werneck Vianna – O debate eleitoral foi muito pobre. O tema da distribuição de renda, por
exemplo, não apareceu nas eleições. Thomas
Piketty fazendo um sucesso danado nas livrarias e na imprensa, mas esse
tema passou ao largo nas eleições e ninguém quis se aventurar nele. Todas as questões polêmicas foram
contornadas no debate eleitoral por falta de coragem política de apresentar as
ideias com medo da perda de votos.
A presidente da
República é claramente favorável ao aborto,
mas essa é a última questão que ela irá trazer para o debate. Com essa covardia política, conforme denunciou o
candidato do PV, Eduardo Jorge, de os candidatos não apresentarem de fato suas
posições, elas não vêm à tona e não resulta em educação cívica, e a política
fica uma coisa meio eleitoreira.
Outro
movimento social, ao lado da CUT [Central Única dos Trabalhadores], que tem endurecido o discurso contra o
governo é o MST [Movimento dos Sem Terra], principalmente após a nomeação de Kátia Abreu. O governo corre o
risco de perder apoio junto a bases tradicionais do movimento social?
Luiz Werneck Vianna – O MST é ambivalente; foi assim com Lula
também. O MST é outro que não se assume, não sai do armário. O MST é o que: um
movimento social ou um partido político?
Faz falta, no
sistema político brasileiro, um partido que tenha mais representação agrária
real. O MST poderia ter se tornado esse partido ou então, se não quisesse, que
fosse uma facção de outro partido, como, por exemplo, do PT. Mas não quis; ele
prefere atuar como movimento social, mas é muito dependente do governo. Quem dá
dinheiro para o trabalho do MST, para as escolas do MST? De onde vem esse
dinheiro? É do governo. Então, é um movimento muito ambivalente e não creio que
o MST tenha esse poder de fogo.
Como o
senhor está “lendo” a atual crise da Petrobras?
Luiz Werneck Vianna – Essa é uma crise terrível porque afeta uma
empresa que é um símbolo do país, do desenvolvimento e da industrialização do
país. A Petrobras cresceu demais, cresceu mais do que podia e com uma
velocidade que não permitiu que os passos fossem bem calculados. Foi uma
corrida vertiginosa contra o tempo à base de uma visão mágica de que com o
pré-sal nós iriamos saltar para o mundo desenvolvido. Claro que o pré-sal é um recurso importante, mas isso tudo exigia mais
ponderação, um cálculo mais refinado. Mas uma ambição desmedida tomou conta do
governo. A empresa tem de ser defendida e tem de ser regenerada.
Como o
avalia a renúncia coletiva da direção da empresa, na semana passada?
Luiz Werneck Vianna – Ao que tudo indica a Graça Foster desistiu,
não suportou mais o curso dos acontecimentos. A Petrobras foi muito mal administrada politicamente e não só
politicamente, mas gerencialmente. A empresa precisa ter sua lógica
própria. Rebaixar o preço da gasolina como se fez, penalizou a Petrobras. Vamos
ver se a empresa consegue se recuperar agora.
Há
possibilidades de um novo partido que preencha o vácuo do PT? Como vê a
articulação em curso a partir do Rio e de São Paulo em torno da criação de um
partido similar às experiências do “Syriza” da Grécia e do “Podemos” da
Espanha?
Luiz Werneck Vianna – Em primeiro lugar, fala-se disso (do
surgimento de um partido como o Podemos
no Brasil), mas não há esboço disso (da criação do partido no Brasil) nem de
longe. Em segundo lugar, tanto o movimento grego como o espanhol são movimentos
de jovens educados politicamente, com trajetórias políticas articuladas. A
juventude brasileira não está nesse nível; ela está ainda viciada nos manuais
revolucionaristas das décadas anteriores. Então não tem novidade política e
intelectual nesses movimentos juvenis. Basta ver os black blocs; é um modelo
exemplar disso. Uma das moedas correntes
na juventude é o anarquismo, mas com o anarquismo não se faz o poder, o Podemos, não se faz o Syriza.
O
anarquismo já está superado enquanto uma “possibilidade” para se chegar ao
poder, ou uma reação ao poder instituído?
Luiz Werneck Vianna – O anarquismo tem lá os seus encantos
poéticos, agora, para governar o mundo é preciso algo além disso. Mas voltando
ao ponto, a juventude brasileira não
está se educando para uma intervenção do tipo da que ocorre na Espanha e na
Grécia; ela está olhando para o passado e é prisioneira de uma história que já
passou, ainda vive no bovarismo [2]. Os
jovens não são modernos. Não estou vendo até agora algo que reitere a
experiência espanhola e grega. Não vejo pistas e indícios disso.
O que o
futuro reserva ao Partido dos Trabalhadores? Conseguirá recuperar a vitalidade
que um dia teve com as “ruas” ou sobreviverá apenas de sua história?
Luiz Werneck Vianna – O futuro a Deus pertence. Agora, o que o PT
trouxe da época de sua formação está perdido. Se ele terá condições de encantar
e reanimar de algum modo a sua vida e ter um discurso persuasivo para a
população, vai depender dele. Ainda não deu os sinais disso. O PT, hoje, é um
partido sem intelectuais.
Ao mesmo
tempo alguns intelectuais estão tentando pensar novos rumos para a esquerda no
Brasil. O que falta para eles?
Luiz Werneck Vianna – É, há, mas essas esperanças dos gregos e
dos espanhóis, a meu ver, são muito ingênuas porque não há nada que esteja
fermentando em nossa sociedade que indique essa possibilidade. Acho que vamos
ter de contar com os partidos que estão aí.
Inclusive, tentei
sinalizar nesta entrevista, em algum momento, a necessidade de os partidos mais responsáveis e presentes encontrarem
uma saída para o impasse que aí está e para evitar o terremoto que pode abalar
as estruturas políticas do país, ameaçando as conquistas que fizemos ao longo
desse tempo. O melhor instrumento que nós temos é a Carta de 88 [a
Constituição Federal] e as suas instituições. Então, temos de vigiar essa crise
com recursos institucionais que estão ao nosso dispor, como o Ministério
Público, o Judiciário. Temos de impedir
que essa crise desate uma situação incontrolável de todos contra todos.
N O T A S :
[ 1 ] – Impeachment ou impugnação de mandato
é um termo que denomina o processo de cassação de mandato do chefe do poder
executivo pelo Congresso Nacional, pelas Assembleias Estaduais ou pelas Câmaras
Municipais. A denúncia válida pode ser por crime comum, crime de
responsabilidade, abuso de poder, desrespeito às normas constitucionais ou
violação de direitos pétreos previstos na constituição. A palavra "impeachment" deriva do latim,
expressando a ideia de ser pego ou preso, e tem analogias modernas no verbo
francês empêcher (impedir) e no
inglês impede (impedir). Antigamente
era também erroneamente associado como derivação do latim impetere (atacar). No Brasil,
o Presidente da República, governadores e prefeitos podem ser cassados, de
acordo com o artigo 85 da Constituição Federal que define quais são os crimes
de responsabilidade aplicáveis a eles. O procedimento de impeachment é regulado
pela lei 1079/50, que, em seu artigo 2º, estabelece atualmente o período máximo
de cassação em cinco anos. Em 30 de dezembro de 1992, Fernando Collor de Mello, o 32º Presidente do Brasil, foi removido
da presidência pelo Congresso Nacional e impedido de ser eleito por oito anos,
devido a indícios de corrupção em parceria com seu sócio e tesoureiro de
campanha eleitoral, Paulo César Farias, denunciado pelo seu irmão Pedro Collor
de Mello no mesmo ano. Em 20 de Outubro de 2011, Hélio de Oliveira Santos foi cassado de seu cargo de prefeito de
Campinas pelo conselho de cidade após acusações de fraude e corrupção (Fonte:
Wikipédia).
[ 2 ] – Em termos psicológicos, o bovarismo consiste em uma alteração do sentido da realidade, na
qual uma pessoa possui uma deturpada autoimagem, na qual se considera outra (de
características grandiosas e admiráveis), que não é. Em termos mais gerais, o
bovarismo faz referência ao estado de insatisfação crônica de um ser humano,
produzido pelo contraste entre suas ilusões e aspirações (que geralmente são
desproporcionadas tendo em conta suas próprias possibilidades) e a realidade
frustrante. Pode ser caracterizada como uma forma de mitomania. Essa designação de uma condição psicológica foi
introduzida pelo filósofo francês Jules
de Gaultier, em seu estudo Le
Bovarysme, la psychologie dans l’œuvre de Flaubert (1892), no qual se
refere ao romance Madame Bovary de Gustave Flaubert, de 1857,
principalmente em sua protagonista, Emma Bovary, que se converteu no protótipo
da insatisfação conjugal. Ainda que o termo "bovarismo" não seja
reconhecido por alguns dicionários, este possui um uso relativamente frequente
em obras ensaísticas, além de figurar em dicionários de psicologia (Fonte: Wikipédia).
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos On-Line –
Entrevistas – Sexta-feira,
13 de fevereiro de 2015 – Internet: clique aqui.
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