TOMANDO "GATO" POR "LEBRE" - ATENÇÃO!
Filmes podem distorcer fatos históricos na
memória das
pessoas
Jeffrey M. Zack
The New York Times
Segundo estudos sobre
a memória, público tende facilmente a adotar fatos distorcidos de filmes
históricos como sendo reais
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Cena do filme "A TEORIA DE TUDO" sobre a vida do cientista britânico Stephen Hawking Acima se vê o ator Eddie Redmayne (como o Dr. Stephen Hawking) e Felicity Jones (como Jane Hawking) |
Entre os indicados para o Oscar de melhor filme deste ano há
quatro películas baseadas em histórias verídicas: Sniper Americano (sobre o atirador de elite Chris Kyle); O Jogo da Imitação (sobre o matemático
britânico Alan Turing), Selma (que
fala da aprovação da Lei sobre Direito de voto em 1965) e A Teoria de Tudo (sobre o físico Stephen Hawking).
Cada um deles foi criticado por apresentar os fatos de
maneira imprecisa. Será que Selma ignora a dedicação de Lyndon
B. Johnson ao direito de voto dos negros? O Jogo da Imitação representará de
maneira equivocada a natureza da obra de Turing, assim como A
Teoria de Tudo de Hawking? Sniper Americano abranda os
conflitos militares que pretende descrever? O público poderá pensar: E isso
importa, realmente? Não podemos separar
o mundo do cinema do real? Infelizmente,
a resposta é não. Estudos mostram que se você assiste a um filme – mesmo
que seja sobre acontecimentos históricos que você conhece – suas convicções podem ser modificadas por
“fatos” que não são reais.
Em um estudo publicado pela revista Psychological Science em 2009, uma equipe de pesquisadores pediu a
estudantes universitários que lessem ensaios e depois assistissem a trechos de
filmes históricos contendo informações imprecisas e que não se coadunavam com
os textos.
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Cena do filme "O JOGO DA IMITAÇÃO" - sobre o matemático britânico Alan Turing Ele foi interpretado pelo ator Benedict Cumberbatch (foto) |
Embora tivessem sido alertados de que os filmes poderiam
conter distorções factuais, os estudantes apresentaram cerca de um terço dos
fatos falsos dos filmes num teste posterior.
Em outra pesquisa, publicada na revista Applied Cognitive Psychology em 2012, outra equipe de estudiosos,
reproduzindo a experiência, tentou eliminar o “efeito de desinformação”,
pedindo explicitamente aos estudantes que analisassem recortes à procura de
equívocos. Não funcionou. Os estudantes
mostraram-se mais propensos a aceitar as inverdades. Quanto mais os estudantes
mergulhavam nos clipes, mais suas memórias eram contaminadas.
Por que temos tanta dificuldade em separar os “fatos” de um
filme, dos fatos reais? Uma das hipóteses é que nossa mente está bem equipada para lembrar de coisas que vemos ou
ouvimos – mas não para lembrar a origem dessas memórias.
Consideremos a seguinte história sobre a evolução: à medida
que os nossos distantes ancestrais se tornavam mais capazes de comunicar fatos
entre si por meio da linguagem, e de armazená-los em sua memória, isso os
ajudou a sobreviver. Se um caçador na savana se aproximava de um olho d’água,
se ele fosse capaz de lembrar que havia ocorrido um ataque de leão naquele
mesmo lugar, poderia salvar sua vida. Mas recuperar a memória fonte (foi meu
primo que me falou sobre isso? Ou foi meu irmão?) era menos crucial.
Consequentemente, os sistemas do nosso cérebro referentes à memória fonte não
são firmes e, aliás, estão predispostos ao fracasso.
Esta história é especulativa, mas combina bem com o que
sabemos a respeito da memória fonte. Em termos cognitivos, a memória fonte se desenvolve relativamente tarde nas crianças; e
em termos neurológicos, depende de maneira seletiva do córtex pré-frontal, uma
região do cérebro que também amadurece tarde.
A memória fonte
também é frágil, extremamente sensível às vicissitudes do envelhecimento, de
lesões e doenças. Os pacientes com danos no córtex pré-frontal apresentam
falhas de memória fonte que exageram os erros cotidianos que todos cometemos. O
sujeito de uma pesquisa que sofrera uma lesão desse tipo acreditava que
determinado edifício em seu bairro estava sendo usado para fins sinistros; mais
tarde, soube-se que sua interpretação paranoica do prédio era consequência de
um filme de espionagem ao qual ele assistira 40 anos antes.
Num estudo de 1997, pacientes com lesões semelhantes
receberam listas de palavras ou sentenças lidas por dois pesquisadores, um
homem e uma mulher. Os pacientes reconheceram facilmente se haviam ouvido uma
frase ou não, mas encontraram grande dificuldade para identificar qual dos
pesquisadores a lera. Entretanto, é importante observar que esta tarefa também
era particularmente difícil para sujeitos sadios. Nenhum de nós é imune aos
perigos da memória fonte.
A debilidade da
memória fonte nos deixa sempre, até certo ponto, à mercê de filmes imprecisos.
Há algo que possamos fazer? A pesquisa descrita acima revelou uma técnica que
ajuda: se a informação equivocada é
explicitamente destacada e corrigida quando é encontrada, sua influência se reduzirá
substancialmente. Mas a aplicação desta estratégia – o emprego de
comentários para a verificação do fato para acompanhar o filme, levando sempre
o historiador ao cinema com a gente – poderá ser um problema.
Traduzido do inglês por Anna Capovilla.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Caderno 2 – Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015 – Pg. C5 –
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