CAINDO NA REAL APÓS O CARNAVAL
Ressaca e malhação de Dilma
Fernando
Canzian*
O ano começa entre hoje e segunda-feira. A partir de agora os brasileiros sentirão
de fato o tamanho da ressaca do primeiro governo Dilma.
Os indicadores que saíram em dezembro (mês de festas e 13º)
e janeiro (férias e pré-Carnaval) passaram meio batidos e foram muito ruins.
Prenunciam o que vem aí.
Vendas no varejo em
2014: alta de apenas 2,2%. Foi o pior desempenho desde 2003, ano do pesado
ajuste promovido por Lula (sob supervisão do FMI) e que levou vários trimestres
para recolocar o Brasil nos eixos.
Inflação em janeiro:
1,2%, a maior também desde 2003. O que nos leva novamente ao passado ruim de 12
anos atrás. Dois retratos importantes do atraso que o atual governo nos
entregou.
A coluna insiste sempre em um ponto, fundamental para
entender a precariedade da economia brasileira: 67% das famílias têm renda mensal menor do que R$ 2.170. Inflação em alta derruba rapidamente o
poder aquisitivo, levando o PIB para baixo.
Um terceiro movimento importante pré-Carnaval foi a disparada do dólar. Isso trará um empobrecimento a jato para a população
brasileira, via consumo de produtos importados acabados e produzidos pela
indústria nacional. Hoje, quase um
quarto do que é fabricado aqui leva componentes importados.
No campo social, foi extremamente significativo, no Paraná
(também no pré-Carnaval), o recuo do
governador Beto Richa (PSDB) ao retirar medidas de corte de gastos que
havia encaminhado à Assembléia Legislativa.
Os deputados tiveram de entrar em ônibus blindado (e por um
buraco aberto às pressas em uma grade nos fundos) para tentar aprovar as medidas.
Diante da fúria dos manifestantes, recuaram.
Assim como Richa no Paraná tentando equilibrar suas contas,
o fracasso da gestão Dilma (numa combinação de políticas atrasadas e
nacionalistas em um contexto de economia globalizada) agora leva o seu governo
a correr com ajustes.
Um grande risco em 2015 segue o Brasil perder o chamado
"grau de investimento", uma espécie de chancela de agências
financeiras internacionais dadas a "bons pagadores".
Essas agências constituem um dos maiores embustes do capitalismo.
Até a grande crise global de 2008/2009 carimbavam papéis que viraram lixo de
uma hora para a outra. Mas é assim que o "altar do mercado" funciona.
E será bem pior para o Brasil se de fato perder o "grau de
investimento".
Dilma conseguirá em
nível nacional o que Richa não conseguiu no Paraná?
Dia 15 de março
próximo (um domingo) há
manifestações previstas em cerca de 50 cidades do país contra a presidente.
No Carnaval de Olinda nesta semana, os organizadores desistiram de colocar
entre os bonecos gigantes a figura de Dilma.
Temiam que a festa se transformasse em Sábado de Aleluia,
com a malhação da presidente pior avaliada no país desde dezembro de 1999 (Fernando
Henrique Cardoso).
* * * * * * *
Há vários tipos de
estelionatos eleitorais. Um dos mais emblemáticos foi o do ex-presidente José Sarney em 1986, quando congelou
preços no Plano Cruzado.
Sarney sustentou medidas irrealistas até seu partido, o
PMDB, lavar a égua nas eleições de 15 de novembro daquele ano. Em seis dias
vieram as medidas impopulares.
Em uma semana, saques e depredações varreram Brasília no
chamado "badernaço". Sete meses depois o ônibus do presidente seria
apedrejado no Rio. Uma janela foi quebrada a golpes de picareta.
*
Fernando Canzian é repórter especial do jornal Folha de S. Paulo. Foi secretário de
Redação, editor de política, do "Painel" e correspondente da Folha em Nova York e Washington.
Vencedor de dois prêmios Esso, é
autor do livro "Desastre Global - Um
ano na pior crise desde 1929" (Editora Publifolha).
Fonte: Folha de S.
Paulo – Colunistas – 19/02/2015 – Publicado às 13h27 – Internet: clique aqui.
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