O RISCO DE FORTE RECESSÃO!!!
Carlos
Drummond
O pacote fiscal do
governo pressiona uma economia frágil em meio a incertezas globais
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Joaquim Levy - Ministro da Fazenda |
A situação está difícil, o mundo atravessa uma crise de
duração indeterminada e o Brasil vive
claramente um risco seríssimo de recessão, hipótese admitida em relatórios elaborados pelos maiores bancos
do País. O complicador do quadro é o ajuste
fiscal baixado pelo governo em dezembro, complementado na segunda-feira 19 [janeiro/2015]
com o aumento de impostos sobre combustíveis, crédito ao consumidor e
importações e mudanças no Imposto Sobre Produtos Industrializados para o setor
de cosméticos.
Ninguém discute a necessidade de um ajuste, mas esse pacote
fiscal, especificamente, pode ter consequências graves para a sociedade. Cortes pretensamente seletivos retirarão um
total previsto de, aproximadamente, 80 bilhões de reais de uma economia
estagnada, em meio a um ambiente internacional desfavorável e a uma
concentração de renda inibidora do desenvolvimento, no mundo e no Brasil. Não
se sabe como o segundo governo Dilma Rousseff imagina atingir o objetivo
pretendido com restrição do crédito de longo prazo para as empresas concedido
pelo BNDES, anunciado em rodada anterior, e contração simultânea do crédito ao
consumidor. O aumento do investimento público seria a resposta correta, mas
nisso não se fala. Todas as fichas são
colocadas na esperada retomada do ânimo empresarial, a partir de iniciativas
aparentemente contraditórias com esse objetivo.
Os apertos de crédito, acentuados pelo aumento da taxa de
juros em meio ponto porcentual, para 12,25%, na quinta-feira 22 [janeiro/2015],
a terceira elevação do segundo mandato de Dilma, agravam a situação periclitante da indústria instalada no País, desfigurada
em 30 anos de crises, políticas equivocadas e desconhecimento quase absoluto,
pelos diversos governos do período, do papel determinante do setor na
trajetória dos países avançados ao Norte e dos emergentes bem-sucedidos no
Oriente.
As crises nacionais da energia e da água, geradoras de
incertezas adicionais e da postergação de investimentos, agravam a situação do
País e o tornam mais vulnerável a um ajuste
fiscal que atinge em cheio as parcelas mais frágeis da sociedade. As
restrições ao crédito afetam negativamente investimentos e empregos, e as
reduções de direitos trabalhistas e sociais diminuirão o socorro às camadas
desprotegidas da população e aos desempregados, um contingente que já começa a aumentar,
como mostram as mais de 12 mil demissões
nas empresas fornecedoras da Petrobras, esta em crise profunda, e as
centenas de dispensas no setor automobilístico.
Na busca de explicações para a guinada do segundo governo
Dilma em relação à política econômica dos três mandatos anteriores, além da
hipótese de capitulação pura e simples, surgem pistas em alguns pronunciamentos
da presidenta e do ministro da Fazenda, Joaquim
Levy. Em seu discurso de posse, no dia 5 deste mês [janeiro], por cinco
vezes ele condenou “o Estado patrimonialista”.
Em duas das menções remeteu à alusão ao tema feita pela presidenta Dilma
Rousseff, no seu discurso de diplomação, em 18 de dezembro. “O sistema patrimonialista de poder, que
atravessou séculos e séculos da nossa história, nos deixa uma herança nefasta,
cujo traço mais marcante é, ainda, a não
dissolução plena dos laços nocivos entre o que é público e o que é privado”,
verberou Dilma.
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Jessé de Souza - professor da UFJF |
“No Brasil, a influência do pensamento weberiano é dominada pela leitura liberal apologética. É de [Max] Weber que se retira a autoridade para a legitimação da noção de patrimonialismo, para indicar uma suposta ação parasitária do Estado e de sua elite sobre a sociedade”, aponta o professor de sociologia da Universidade Federal de Juiz de Fora Jessé de Souza, organizador do livro A Atualidade de Max Weber [Editora da Universidade de Brasília, 2000]. A quem interessa, pergunta Souza, “demonizar o Estado, pleitear o Estado mínimo, criticar a incipiente assistência social estatal e, em suma, reduzir os interesses da sociedade aos interesses da reprodução do mercado? O que dizer do empresariado brasileiro, especialmente o paulista, principal beneficiário do processo de industrialização nacional financiado pelo Estado interventor desde Vargas? Ele foi o que mais ganhou com o suposto Estado patrimonial brasileiro”.
As distorções apontadas pelo professor comprometem as falas
do ministro e da presidenta. A questão
patrimonial mais importante para o País é outra. Apesar dos avanços
notórios na diminuição da desigualdade no País desde 2002, a concentração no topo da sociedade piorou, como mostra o trabalho
pioneiro “O topo da distribuição de renda no Brasil: primeiras estimativas com
dados tributários e comparação com pesquisas domiciliares, 2006-2012”,
publicado em agosto do ano passado por Marcelo
Medeiros, Pedro H. G. Ferreira de
Souza e Fábio Avila de Castro,
professores da Universidade de Brasília [abaixe este estudo, clicando aqui].
Trata-se da primeira estimativa da concentração de renda
entre os mais ricos no Brasil, calculada a partir das declarações de Imposto de
Renda Pessoa Física para os anos de 2006 a 2012. “Nossa conclusão é de que os dados tributários revelam uma concentração
no topo substancialmente maior do que as outras fontes, e ela permanece
estável”, dizem os autores. No período analisado, o 0,1% mais rico recebeu quase 11% da renda total e isso significa que
a sua renda média foi quase 110 vezes maior do que a média nacional. O 1% mais rico, incluindo esse 0,1%, apropriou-se de 25%, e os 5% mais ricos receberam 44%, quase a
metade da renda total. Na Colômbia e nos Estados Unidos, a parcela do 1% mais
rico na renda total situa-se em torno de 20%. Os resultados para outros países
desenvolvidos indicam porcentuais entre 10% e 15%, caindo abaixo disso no resto
do mundo.
Um exemplo de
concentração é a transferência, entre 1995 e 2014, pelo Estado brasileiro dito
patrimonialista, de renda e riqueza para os detentores da dívida pública,
na forma de pagamento de juros reais, no
total acumulado de 125% do PIB. Segundo a organização Auditoria Cidadã da
Dívida, mais de 90% da bolada foi
entregue pelo governo ao sistema financeiro, principal credor da dívida
pública.
[ . . . ]Os resultados da pesquisa da UnB [Universidade de Brasília] acentuam a importância da criação de um imposto sobre grandes fortunas, alternativa não contemplada no pacote do governo. “O imposto sobre grandes fortunas deveria ter sido incluído no Orçamento Fiscal”, explica a professora Lena Lavinas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no estudo referencial “Um longo caminho para a justiça tributária: o caso do Brasil”, apoiado em uma consolidação de pesquisas de diversos autores.
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Lena Lavinas - professora da UFRJ |
Criado pela Constituição de 1988, o imposto nunca foi regulamentado pelo Congresso e isso impede a sua
implementação. Com base em estudos da Receita Federal, o economista Amir Khair afirma que esse imposto pode
ser um dos mais efetivos mecanismos para reverter a regressividade tributária,
“dada a concentração de riqueza extraordinariamente alta nos setores mais ricos
da sociedade brasileira”. De acordo com o trabalho “Imposto sobre grandes fortunas”,
publicado por Khair em 2003 [clique aqui,
para baixar este estudo], uma taxa
de 1% sobre a riqueza declarada à Receita Federal por pessoas físicas e
jurídicas nesse ano teria proporcionado uma receita fiscal de 1,89% do PIB, no
mínimo. A estimativa torna mais chocante ainda submeter o País a um esforço
fiscal de 1,20% do PIB em 2015, estabelecido por um governo que se diz
ultrajado com o suposto patrimonialismo do Estado, não com o patrimônio detido
efetivamente pelos ricos, beneficiados
por uma das legislações tributárias mais injustas do mundo.
Enquanto o governo foge da tributação das grandes fortunas,
a ameaça aos beneficiados com a melhora da distribuição de renda nos últimos 12
anos é mais grave do que se imagina. É o que mostra o trabalho recém-concluído “Paralisia
econômica, retrocesso social e eleições”, do economista Waldir Quadros, professor da Facamp, de
Campinas, publicado pelo site Plataforma Política Social [clique aqui, para baixar este estudo]. Com base nos dados de 2012 da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, ele constatara que,
apesar dos baixos índices de crescimento econômico, a mobilidade social avançou
nos dois primeiros anos do governo Dilma.
De 2012 para 2013,
entretanto, há uma piora significativa e a interrupção do ciclo de melhoras
iniciado em 2004, alerta o pesquisador. A participação das classes médias
(alta e média) encolhe e incha a da classe média baixa. Uma parte da última
regride para a classe pobre ou dos trabalhadores e uma fração desta cai para a
faixa dos miseráveis. Nos seus cálculos, Quadros buscou eliminar as distorções
decorrentes do aumento da população entre os dois anos considerados e simulou a
inexistência de mudanças nas participações das diversas camadas, como se não
houvesse mobilidade social ascendente ou descendente no período. Com esses
ajustes, foi possível atribuir as variações observadas exclusivamente às
mudanças nas posições sociais.
Os achados são
chocantes. Em apenas um ano, 780 mil
pessoas deixaram de integrar a alta classe média e 2,6 milhões abandonaram a
média classe média (leia o quadro abaixo). “Como a baixa classe média, que
potencialmente recebeu essa queda de 3,4 milhões de pessoas, cresceu em 2,4
milhões, sugere-se que 1 milhão desceu
desta camada para posições inferiores”, conclui Quadros. Com o descenso de
330 mil pessoas da massa trabalhadora, a
camada de miseráveis cresceu em 1,3 milhão de pessoas, em uma evidência da
profundidade do processo. “Diante da estagnação na economia, é possível que
o mau desempenho tenha se mantido em 2014. Nesse caso, parece-nos bastante
plausível admitir que o cenário de retrocesso social tenha contribuído com as
dificuldades que a candidata Dilma enfrentou nas últimas eleições”, conclui o
professor.
O levantamento mostra
“uma impressionante melhora para as
camadas populares” na estrutura social existente na eleição de Lula em 2002 e por ocasião
também da sua reeleição em 2006 e isso “ajuda a compreender a sua
recondução, apesar das insistentes denúncias do chamado ‘mensalão’”. O avanço social durante o primeiro mandato
de Dilma Rousseff concentra-se nos dois primeiros anos e é interrompido pela
mudança drástica da conjuntura, em especial a partir de 2013.
Quadros considera “inteiramente procedentes as preocupações
com os desdobramentos dos ajustes de corte recessivo anunciados pelo governo
federal para 2015. Se a estagnação
prolongada provocou um retrocesso dessa magnitude, um recuo maior na economia
pode causar estrago ainda mais sério na estrutura social, afetando em grande
medida aqueles beneficiados recentemente. E nada garante que esses enormes
contingentes aceitarão passivamente a piora em suas condições de vida”.
As dificuldades das camadas de menor renda são acentuadas
por uma das estruturas tributárias mais injustas do mundo, aponta Lena Lavinas:
·
Os
impostos e tributos indiretos sobre mercadorias e serviços, os mais
regressivos, totalizaram 49,22% da receita tributária de 2011,
·
enquanto a média dos países integrantes da
Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico é 34%.
·
Em
contrapartida, a tributação da renda perfaz apenas 19,02% da carga total.
·
A alíquota sobre
imóveis é de ínfimos 3,7%, segundo dados de 2012 da Secretaria da Receita
Federal.
·
A
transmissão hereditária é tributada entre 2% e 4%.
·
Além disso, heranças
e doações são isentas de Imposto de Renda no Brasil.
Há amplo consenso quanto à melhora da distribuição de renda a partir de 2002:
·
O salário mínimo teve um crescimento real de 93%
entre janeiro de 2001 e dezembro de 2012 e
·
a seguridade social criada pela Constituição de
1988 ganhou força institucional.
·
As transferências monetárias aos grupos mais
vulneráveis aumentaram, com programas como o Bolsa Família e a garantia de
renda contínua a idosos, deficientes e famílias abaixo da linha de pobreza.
·
O sistema de seguridade padronizou também uma
pensão mínima para trabalhadores urbanos e rurais baseada nos salários mínimos
e estendeu o direito de receber pensões a grupos com pequena contribuição.
Grande parte do
esforço para aumentar a justiça social sucumbe, entretanto, à injustiça
tributária. As famílias mais pobres,
com renda familiar até dois mínimos por mês, têm 53,9% da sua renda absorvida
pela tributação. A renda líquida dessas famílias é menor do que os impostos
que elas pagam. O pacote fiscal do governo lhes impôs a extinção do abono de um
salário mínimo anual, medida a ser revista, espera-se, após solicitação nesse
sentido apresentada pelas centrais sindicais. As famílias que recebem entre dois e três salários mínimos têm 41,9% da
sua renda encaminhada para o pagamento de impostos. Entre os produtos tributados com maior efeito
regressivo estão:
·
alimentos básicos,
·
gás de cozinha,
·
eletricidade,
·
vestuário e
·
tabaco.
Um trabalho do Sindicato
Nacional de Auditores da Receita Federal mostra que “a ausência ou insuficiência da correção das faixas de renda nos últimos
anos absorve um número crescente de trabalhadores de baixa renda e sobrecarrega
os que recebem salários médios. O volume de contribuições para o Imposto de
Renda cresce através da inclusão dessa camada, cuja carga tributária aumenta
constantemente”. Um exemplo de
distorção é o pagamento de 27,5% de Imposto de Renda tanto por quem recebe um
salário mensal de 4,08 mil reais quanto por aqueles remunerados com 408 mil
reais por mês, segundo a tabela de faixas de rendimentos em vigor. Na
segunda-feira 19 de janeiro, a
presidenta rejeitou a proposta do Congresso de correção da tabela de faixas do
Imposto de Renda em 6% e optou por um ajuste de 4,5%, que em nada melhora a
situação do contribuinte.
Em contrapartida às
injustiças para as pessoas físicas, a concessão de benefícios tributários às
corporações expandiu-se consideravelmente de 1988 a 2009, com a criação de
“pelo menos 52 mecanismos legais favoráveis ao capital, a exemplo de isenções
fiscais para segmentos produtivos e outros, muitos deles de iniciativa do
Executivo”, afirmam os cientistas políticos Wagner Pralon Mancuso e Davi
Cordeiro Moreira, no artigo “Benefícios tributários valem a pena? Um
estudo de formulação de políticas públicas” [clique aqui, para ler este estudo]. Os benefícios referem-se a três
tributos que financiam a ação social da União, a Contribuição para o Plano de
Integração Social (PIS), a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e a
Contribuição, para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). O projeto de reforma tributária encaminhado
pelo governo ao Congresso em 2008 não corrige as distorções apontadas e ameaça
desmantelar o sistema de financiamento da seguridade social, baseado nas três
contribuições acima mencionadas. A medida prevê uma redução dos aportes
feitos pelos empresários equivalentes a 40% da receita da seguridade social e
deverá resultar em déficit, um encorajamento à privatização do sistema, prevê Lena Lavinas.
As perspectivas gerais são desanimadoras. Só 37% dos 1.322 executivos de 77 países
entrevistados na abertura do Fórum Mundial, em Davos, acreditam que o
crescimento global aumentará, 44% acham que permanecerá como está e 17%
temem a sua redução. Um estudo divulgado na segunda-feira 19 pela ONG britânica
Oxfam prevê que, em 2016, o 1% mais rico do mundo terá, pela
primeira vez, mais riqueza do que os outros 99%. No mesmo dia, o FMI
reduziu a previsão de crescimento da economia brasileira, de 1,4% para 0,3% em
2015. No Brasil, o pessimismo
empresarial identificado em levantamentos recentes supera todos os recordes
anteriores.
[ . . . ]Para resgatar o País da recessão, é preciso desenvolver algumas das conquistas mais importantes dos últimos 12 anos, em especial a:
·
ampliação
do mercado consumidor e
·
o início
de implantação do Plano de Investimento em Logística no primeiro governo
Dilma.
·
A tarefa passa também por uma “limpeza” e uma recuperação da Petrobras,
responsável por 15% do investimento e 10% do PIB, em uma escala muito mais
ampla e profunda do que se imagina. Há dúvida quanto à possibilidade de
realização da tarefa pela presidenta Maria das Graças Silva Foster,
aparentemente acuada e quase aniquilada por uma empreitada superior às suas
forças.
No Palácio do Planalto, a nomeação de Joaquim Levy continua
à espera de explicações satisfatórias. Inicialmente, Dilma Rousseff convidou o
presidente-executivo do Bradesco, Luiz
Carlos Trabuco Cappi, para uma permanência de dois anos à frente do
Ministério da Fazenda. Depois disso, ele poderia assumir a condução do banco
conforme o plano de Lázaro Brandão, presidente do Conselho de Administração.
Não se sabe ao certo por que a proposta de permanência por dois anos não
vingou, apenas que a sugestão de Joaquim Levy partiu da própria organização,
como moeda de troca. Trabuco e Brandão, comenta-se em círculos próximos de
ambos, não teriam aceitado algumas das condições de Dilma. Nessa história toda,
houve um figurante muito ativo, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.
Os desdobramentos do ajuste fiscal prometem uma sucessão
numerosa e eventualmente tumultuada de capítulos econômicos e políticos, de
consequências insondáveis, com desfecho marcado para novembro de 2018.
Fonte: Carta Capital –
Economia – Publicado em 01/02/2015 às 09h24 – última modificação em 01/02/2015
às 09h57 – Internet: clique aqui.
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