FIES: exemplo de "Pátria educadora"!!!
Pátria especuladora
José Roberto
de Toledo
Na campanha presidencial, as ações da Petrobrás caíam toda
vez que subiam as intenções de voto em Dilma Rousseff (PT). O registro de uma
pesquisa desencadeava um sobe e desce das cotações em 50 tons de especulação.
Pouca gente ganhou muito dinheiro vendendo e recomprando Petrobrás. Mas não só
Petrobrás.
Um pequeno grupo de empresas viu suas ações oscilarem na
Bovespa na razão inversa da petroleira: os chamados "papéis Dilma". Se
a presidente subia nas pesquisas, eles disparavam junto. Se caía, despencavam.
As estrelas do pacote eram as donas de
faculdades. Terá o mercado adivinhado que o lema do segundo mandato da
presidente seria "Pátria educadora"? Não, só fez contas.
Desde que o governo federal começou a mudar as regras de
acesso ao Fundo de Financiamento
Estudantil (Fies), em 2010, ser dono de muitas faculdades passou a ser
o que há de mais próximo ao capitalismo sem risco no Brasil. O aluno assume
um financiamento no Fies, e a
faculdade tem a garantia de que receberá integralmente e na data certa o valor
da sua mensalidade. Se o aluno não pagar o financiamento, o problema é seu,
meu, nosso.
O negócio é tão bom que o Fies foi tomado de assalto - no
bom sentido - por educandos e educadores. Desde
2010, o volume de recursos do Tesouro transferidos para os cofres das
faculdades dobra todo ano: de R$ 1,1 bilhão, pulou para R$ 13,4 bi em 2014.
Mas, como demonstraram os jornalistas Paulo Saldaña e Rodrigo Burgarelli, tanto dinheiro não acelerou o acesso de
jovens à educação superior além da taxa histórica de crescimento.
O que aconteceu foi
que as faculdades "securitizaram" os alunos que já tinham - usando
incentivos criativos para que aderissem ao Fies, zerando assim a inadimplência
das mensalidades. Alguns grupos se beneficiaram mais do que outros e
ficaram com uma parte recorde de recursos públicos - desbancando empreiteiras e
laboratórios no ranking de transferências do Tesouro.
Em 2014, o grupo
Kroton/Anhanguera recebeu pouco mais de R$ 2 bilhões do governo federal.
Nunca antes um grupo privado recebeu tanto dinheiro do Tesouro em tão pouco
tempo. Tudo legal. É que a maioria dos
seus estudantes está hoje garantida pelo Fies.
Essa agressividade foi recompensada também pelo mercado
financeiro. Nove entre dez fundos de ações passaram a incluir a companhia em
seu portfólio. Como resultado, as ações
da Kroton tiveram uma valorização de mais de 500% entre março de 2012 e
novembro de 2014. Ao mesmo tempo, o Ibovespa caiu 18%.
A Kroton foi a estrela da festa, mas não brilhou sozinha.
Outros grupos educacionais também receberam centenas de milhões de reais do
Fies e viram suas ações se valorizarem muito acima da média das outras empresas
brasileiras ao longo dos últimos anos. Foram os casos da Gaec Educação e da Estácio
Participações.
O champanhe começou a
azedar, todavia, em 27 de novembro de 2014. Coincidentemente, essa data
marca o pico de valorização das ações das três empresas Fies-dependentes. Desde
então, caíram mais que a Petrobrás (com Lava Jato e tudo). O que aconteceu naquela quinta-feira que estragou a festa de Kroton,
Gaec e Estácio? Dilma confirmou Joaquim Levy como ministro da Fazenda.
Precisando cortar
gastos para equilibrar as contas, não deve ter sido difícil ao novo ministro
perceber que o Fies era um ponto muito fora da curva. Para consternação do
mercado e das faculdades, o Ministério
da Educação impôs várias mudanças restringindo o acesso ao programa, no final
de dezembro.
Desde então, o lobby
dos Fies-dependentes educou Brasília. Para o contra-ataque, contatou a
banda oposicionista do PMDB. Na
quinta-feira, o governo reverteu parte das restrições ao Fies. O MEC só
anunciou as mudanças no fim da tarde, mas, curiosamente,
as ações da Kroton disparavam desde a abertura do pregão, logo pela manhã.
Foram as que mais subiram naquele dia. Pátria educadora é isso.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Política – Segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015 – Pg. A6 –
Internet: clique aqui.
Gasto com Fies cresce 13 vezes e chega a R$ 13,4 bilhões,
mas ritmo de matrículas cai
JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, PAULO SALDAÑA, RODRIGO BURGARELLI
Após regras mais
flexíveis a partir de 2010, número de alunos com financiamento federal saltou
448%, de 150 mil para 827 mil em 2013; total de universitários na rede privada
brasileira, porém, subiu 13%, de 3,9 milhões para 4,4 milhões no mesmo período
Enquanto os gastos federais com mensalidades de alunos em
universidades privadas por meio do Financiamento Estudantil (Fies) dispararam a
partir de 2010, o ritmo de matrículas no ensino superior caiu. Daquele ano até
2014, o custo do programa cresceu 13 vezes - saltou de R$ 1,1 bilhão para R$
13,4 bilhões, em valores corrigidos -, mas a média anual de aumento de alunos
nas instituições particulares passou de 5%, entre 2003 e 2009, para 3% de 2010
até 2013.
Criado em 1999, o
Fies teve uma explosão de contratos após mudanças promovidas em 2010 para
elevar as matrículas na rede privada, conforme anunciado na época. "O
Brasil precisa chegar a 10 milhões de matrículas no ensino superior",
afirmou o então ministro da Educação, Fernando Haddad (PT):
·
Os juros
caíram de 6,5% para 3,4% ao ano, abaixo da inflação.
·
Além disso, o
financiamento pôde ser obtido a qualquer momento,
·
a
exigência de fiador foi relaxada e
·
o prazo
de quitação, alongado.
Levantamento do Estadão
Dados, com base em informações do Portal da Transparência e microdados do
Censo da Educação Superior, mostra que, desde
então, o número de alunos no Fies subiu 448% - de 150 mil, em 2010, para 827
mil em 2013, último ano em que há dados do censo. O total de alunos na rede privada subiu apenas 13% - de 3,9 milhões
para 4,4 milhões.
A explicação é que muitas
faculdades passaram a incentivar alunos já matriculados a não pagar a própria
mensalidade, mas a entrar no Fies - que, por sua vez, repassa os valores
diretamente para as instituições, sem atraso ou inadimplência. Enquanto as
empresas têm dinheiro garantido, a
dívida fica com o aluno e o risco, com o governo.
Estratégias
Para incentivar a adesão ao programa, as universidades [privadas]
usaram várias estratégias:
·
distribuição de tablets,
·
feirões para explicar o financiamento [Fies] e
·
até prêmios para quem indicar um amigo.
As novas regras, porém, estimulam até quem não precisa
entrar no programa, uma vez que os juros abaixo da inflação fazem com que o
montante a ser pago no futuro seja menor do que o custo da mensalidade
atualmente.
![]() |
Prof. Celso Napolitano - Presidente da Fepesp |
A consequência das
novas regras foi o forte crescimento nas transferências para grupos de educação.
O Kroton-Anhanguera, por exemplo,
foi a empresa que mais recebeu pagamentos do governo federal em 2014. Doze
mantenedoras do grupo receberam juntas mais de R$ 2 bilhões - o dobro do que a
Embraer, que fabrica aviões militares, e a Odebrecht, responsável por dezenas
de obras pelo País.
Outros grupos também figuram entre os líderes de desembolsos
do Tesouro em 2014, como a Estácio
(R$ 683 milhões) e a Unip (R$ 390
milhões). O total a mais gasto com o
Fies de 2011 a 2014 em relação ao que se gastava antes das mudanças chega a R$
24 bilhões - o suficiente para operar uma instituição do porte da Universidade
de São Paulo (USP) no período.
Segundo o professor
Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São
Paulo (Fepesp), a relação das
instituições com o Fies é de "capitalismo sem risco". "Elas
não precisam competir por preço, não têm dificuldade de reajustar valores, não
têm crise nem problema com aluno."
![]() |
Carlos Monteiro |
O especialista em ensino superior Carlos Monteiro, da CM Consultoria, explica que a expectativa de expansão no número total
de matrículas não se concretizou. "O que a maioria das instituições
acabou fazendo foi transferir para o Fies aquele aluno que dava desconto, que
era bolsista", diz.
Mudanças
Após a reeleição de Dilma Rousseff, o Ministério da Educação
(MEC) decidiu restringir o acesso ao Fies. Agora, os alunos devem obter ao
menos 450 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) - antes, bastava ter
participado. Segundo a pasta, a mudança tem como objetivo melhorar a qualidade
do ensino.
Grupos educacionais
tiveram grandes perdas em valor de mercado na Bolsa e se posicionaram
contrários às mudanças. Ainda não é possível quantificar o impacto da
medida no gasto federal e na evolução das matrículas. O valor orçado para o Fies em 2015 é de R$ 12 bilhões.
Em nota, o MEC informou que busca "sempre aprimorar os
processos com o objetivo de garantir mais oportunidades". O [jornal] Estado procurou três entidades que
representam o setor - Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior,
Sindicato das Mantenedoras de São Paulo e Associação Brasileira para o
Desenvolvimento da Educação Superior -, mas nenhuma se posicionou.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR
– 15 de fevereiro de 2015 – 02h03 – Internet: clique aqui.
Ministério da Educação volta atrás:
universidades particulares podem reajustar matrículas
pelo Fies em até 6,4%
Ivan Richard
![]() |
Estudantes fazendo a prova do ENEM |
Pressionado pelas instituições de ensino superior, o
Ministério da Educação (MEC) elevou para até 6,4% o reajuste que poderá ser
aplicado nas matrículas para o Fundo de
Financiamento Estudantil (Fies). Anteriormente, a pasta havia bloqueado o
crédito para as instituições que aumentaram as mensalidades acima de 4,5%, que
é a meta de inflação fixada pelo governo.
Segundo a assessoria do MEC, a mudança ocorreu depois que
equipes técnicas da pasta e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
(FNDE) analisaram as informações prestadas pelas instituições de ensino. Com o novo patamar de reajuste, o
ministério anunciou que o sistema para novos contratos do Fies será aberto no
dia 23.
As inscrições poderão ser feitas no portal do programa. A
novidade é que será estabelecido um prazo para que os estudantes solicitem o
Fies. As inscrições estarão abertas até 30 de abril. Antes, a adesão podia ser
feita a qualquer momento.
Segundo o MEC, os estudantes que aderirem ao fundo de
financiamento até 29 de março não estarão sujeitos às mudanças feitas pela
portaria, no final do ano passado.
Os que aderirem a
partir de 30 março deverão ter obtido média de pelo menos 450 pontos no Exame
Nacional do Ensino Médio (Enem) a
partir de 2010 e não ter tirado zero na redação.
As inscrições do Fies foram suspensas no início do ano para
adequação às novas normas. Desde o final de janeiro, o sistema está aberto para
renovação de contratos. As mudanças no Fies, feitas pela portaria do MEC,
causaram polêmica no setor, pela possível redução de contratos. O fundo oferece cobertura da mensalidade a
juros de 3,4% ao ano. O contratante só começa a quitar o financiamento 18 meses
depois de formado.
Desde 2010, o Fies acumula 1,9 milhão de contratos e abrange
mais de 1,6 mil instituições.
Fonte: Portal EBC –
Agência Brasil – Educação – 13/02/2015
– Publicado às 13h44 – Internet: clique aqui.
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