OS NOVOS BISPOS BRASILEIROS SÃO COMO PAPA FRANCISCO QUER?
Os “novos” bispos de Papa Francisco no Brasil:
mudar para que as coisas continuem as mesmas
Sérgio Ricardo
Coutinho
Analisando as 41
nomeações episcopais para o Brasil, podem significar "a continuidade do
“espírito wojtyliano-ratzingeriano”:
pouca preocupação
pastoral-missionária de uma “Igreja acidentada” e mais a preocupação com as
dimensões administrativa, disciplinar e moral típicas de uma “Igreja
autorreferencial”
Esta é a constatação de Sérgio
Ricardo Coutinho, professor de História da Igreja no Instituto São Boaventura de Brasília e de “Serviço Social, Religião
e Movimentos Sociais” no curso de Serviço Social do Centro Universitário IESB de Brasília.
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Papa Francisco fala aos bispos do Comitê do CELAM (Conferência Episcopal Latino-Americana e Caribenha) quando de sua visita ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude (Julho/2013) |
Segundo ele, "se tomarmos as indicações do Papa
Francisco aos bispos do CELAM, durante encontro realizado no último dia da
Jornada Mundial da Juventude de 2013, parece
que, com estas nomeações-remoções, o lugar do Bispo continua o mesmo de sempre:
“à frente”, com sua “psicologia de príncipe” e fortalecendo o fenômeno do
“bispo-polígamo” (termo usado pelo Papa Francisco), ou seja, vivendo na
expectativa de ser esposo de “outra Igreja”.
Leia, na íntegra, esse importante pronunciamento de Papa Francisco aos bispos,
clicando aqui.
Sem dúvida que já existem alguns destes que se colocaram ou
que querem se colocar “no meio” do seu povo “para mantê-lo unido e neutralizar
as debandadas”, mas levará ainda algum tempo para que se coloquem também, e
fundamentalmente, “atrás” “porque o
próprio rebanho tem seu faro para encontrar novos caminhos”.
Eis
o artigo:
No momento em que o Papa Francisco realiza um novo
Consistório com a nomeação de 16 novos cardeais com direito a voto e que
procura mudar e universalizar radicalmente a configuração da geopolítica
eclesiástica da Cúria Romana, talvez já seria o momento de verificarmos qual é o rosto dos novos bispos nomeados, e também a
configuração geopolítica eclesiástica, da Igreja no Brasil nestes quase dois
anos de pontificado.
Desde maio de 2013, até o mês de janeiro deste ano, Papa Francisco fez 41 novas nomeações
episcopais para o Brasil, sendo que 85% delas (36) foram de remoções (seja
de uma diocese para outra, seja da condição de bispo-auxiliar ou prelado
nullius para a condição de [arce]bispo titular da diocese).
Dos 17 novos bispos
ordenados, 9 foram nomeados para as grandes Arquidioceses do Brasil na
condição de bispos-auxiliares, atendendo, assim, aos pedidos dos arcebispos de
São Paulo, Salvador, Olinda e Recife, Belém do Pará, Brasília e Goiânia. Só para a Arquidiocese de São Paulo foram
nomeados 4 novos bispos-auxiliares, revelando bem a influência do cardeal
D. Odilo Scherer.
Os 36 remanejados, em
sua grande maioria, foram feitos bispos por Bento XVI durante o período de D.
Lorenzo Baldissieri como Núncio Apostólico, e agora cardeal e
secretário-geral do Sínodo dos Bispos. Talvez esteja aqui um sinal da velha e
boa estratégia do mote: “plus ça change,
plus c’est la même chose” (“mais que se mude, mais as coisas continuam as
mesmas”). Isto pode significar a continuidade do “espírito
wojtyliano-ratzingeriano” [dos papas João Paulo II e Bento XVI]:
·
pouca
preocupação pastoral-missionária de uma “Igreja acidentada” e
·
mais a
preocupação com as dimensões administrativa, disciplinar e moral típicas de
uma “Igreja autorreferencial” [voltada para si mesma e não a serviço do mundo].
Então vejamos. Destes remanejamentos, alguns chamam atenção
para uma espécie de “promoção”, ou
seja, saindo de dioceses “pouco significantes” para uma (arqui)diocese de maior
tradição e valor simbólico-político.
Por exemplo, as nomeações de D. Jaime Spengler, OFM para a Arquidiocese de Porto Alegre (deixando
de ser bispo-auxiliar); de D. José
Valmor César de Bom Jesus da Lapa (BA) para São José dos Campos (SP), ou
seja, do “sertão” da Bahia para a “Via Dutra”; de D. Edmilson Amador Caetano, O. Cist. de Barretos (SP) para
Guarulhos (SP), da terra do “pião-boiadeiro” para a terra do “pião-operário”;
de D. Fernando José Monteiro Guimarães de
Garanhuns (PE) para o Ordinariato Militar (Brasília), da “diocese” de Lula para
a “diocese” dos Militares.
Além deles, também D.
José Luiz Majella Delgado de Jataí (GO) para a Arquidiocese de Pouso Alegre
(MG); de D. Zanoni Demettino Castro
de São Mateus (ES) para coadjutor da Arquidiocese de Feira de Santana (BA); de D. João José da Costa de Iguatu (CE)
para coadjutor da Arquidiocese de Aracajú (SE) e de D. José Antonio Peruzzo de Palmas-Francisco Beltrão (PR) para a
Arquidiocese de Curitiba (PR).
O Regional da CNBB que mais se privilegiou das nomeações
(remanejamentos) foi o Sul 1 (que corresponde ao Estado de São Paulo), maior
“colégio eleitoral-episcopal” do Brasil e que sempre tem um peso
importantíssimo quando das eleições para a Presidência e Comissões Pastorais da
CNBB. Só para dentro deste Regional foram conduzidos 13 dos 14 nomeados
(somente D. Fernando Brochini saiu
de Jaboticabal e foi transferido para Itumbiara-GO).
Geograficamente, continua a concentração Centro-Sul com 26
nomeações, enquanto Norte e Nordeste tiveram 10. Depois do Sul 1, foram os
Regionais Centro-Oeste (Brasília e Goiás), com 6 nomeações, e Nordeste 3 (Bahia
e Sergipe), com 4 nomeações, respectivamente, que mais foram contemplados. No
NE 3 há um caso de remoção, a partir de informações levantadas, feita por
pressão dos fiéis diocesanos devido à suspeitas de mal comportamento moral de
seu bispo.
Apesar disso, algumas
destas parecem ser interessantes no sentido de fortalecer ou de manter opções
pastorais importantes. Este é o caso, a nosso ver, da diocese de Chapecó (SC). A saída de D. Manoel João Francisco (atual presidente do CONIC) para Cornélio
Procópio (PR) pode ajudar muito o Regional Sul 2 (Paraná), que irá acolher o
14º Intereclesial das CEBs em Londrina, no fortalecimento de uma caminhada
ecumênica e de participação dos leigos nas bases dentro de uma perspectiva
bergogliana (“periferias existenciais”). Por outro lado, a chegada à Chapecó de
D. Odelir José Magri, vindo de
Sobral (CE), pode dar continuidade e fortalecer ainda mais a caminhada já feita
nos últimos anos.
O perfil pastoral dos 17 novos bispos é o seguinte:
a) Clero:
diocesano: 8; religioso: 9;
b) Famílias
Religiosas: Opus Dei (2), Josefinos (2), Franciscanos (1), Missionários do
Sagrado Coração (1), Congregação da Missão (1), Oblatos (1) e Congregação da
Santa Cruz (1);
c) Formação Teológica predominante: Direito
Canônico (5), Teologia Espiritual (3) e Dogmática (2);
d) Atividades Pastorais predominantes antes da
nomeação: Formador/Reitor/Provincial/Diretor Espiritual (11), Párocos (9),
Coordenação de Pastoral/Vigário Geral (5), Ação Social [Fazenda Esperança e Caritas] (2) e Cúria Romana [Conselho
para os Textos Legislativos] (1).
e) Geografia: Centro-Sul: 10;
Norte-Nordeste: 7.
Apesar da diversidade das famílias religiosas de cunho
missionário, podendo indicar assim um princípio para uma “Igreja em saída”, o que se pode ver é a força de uma
“pastoral de conservação” que tanto a Conferência e o Documento de Aparecida
alertavam para a sua superação se se queria, de fato, uma “conversão pastoral”.
A formação predominantemente em Direito Canônico e Dogmática, mais a
experiência burocrático-administrativa em funções diretivas, onde a “virtude da
obediência” é a atitude mais praticada, são sinais evidentes de continuísmos.
Além disso, a presença de 3 bispos-auxiliares (São Paulo,
Brasília e Goiânia) vinculados efetivamente (e afetivamente) com o Opus Dei (o
auxiliar de Brasília, D. José Aparecido Gonçalves de Almeida fez sua
Pós-graduação em Direito Canônico na Universidade Santa Cruz de Roma, dirigida
pela Opus Dei) seria mais um indício desta tendência.
Por outro lado, podemos
também enxergar algumas possibilidades interessantes e inovadoras para um
possível “efeito Francisco”:
·
D. Irineu
Roman, josefino, nomeado bispo-auxiliar de Belém, um pároco de “periferia”
e com “cheiro de ovelhas”;
·
D. Ailton
Menegussi, formado em território de CEBs de São Mateus (ES), indo para a
Crateús (CE) do saudoso D. Antônio Fragoso;
·
D.
Onécimo Alberton, foi Coordenador de Pastoral, presidente da Caritas de Criciúma (SC) e com forte
sensibilidade social nomeado para a diocese de Rio do Sul (SC); e
·
do franciscano D. João Inácio Müller nomeado para Lorena (SP), território da
Canção Nova, onde estava o conservador D. Benedito Beni dos Santos.
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Prof. Sérgio Ricardo Coutinho - autor deste artigo |
Se tomarmos as indicações do Papa Francisco aos bispos do
CELAM, durante encontro realizado no último dia da Jornada Mundial da Juventude
de 2013, parece que, com estas nomeações-remoções, o lugar do Bispo continua o
mesmo de sempre: “à frente”, com sua “psicologia de príncipe” e fortalecendo o
fenômeno do “bispo-polígamo” (termo usado pelo Papa Francisco), ou seja,
vivendo na expectativa de ser esposo de “outra Igreja”. Sem dúvida que já
existem alguns destes que se colocaram ou que querem se colocar “no meio” do
seu povo “para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas”, mas levará ainda
algum tempo para que se coloquem também, e fundamentalmente, “atrás” “porque o
próprio rebanho tem seu faro para encontrar novos caminhos”.
Não sabemos se o atual Núncio Apostólico no Brasil, D. Giovanni D’Aniello, está a par deste
critério eclesiológico de Francisco.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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