É HORA DE PENSAR MAIS LONGE E DE TER JUÍZO!
Primavera
Antonio Delfim
Netto*
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Joaquim Levy - Ministro da Fazenda |
Quem foi premiado com uma longa experiência pública com o
setor privado (financeiro e real) sabe:
1º) que, para o
empresário, o nível de volatilidade do seu humor é proporcional à perspectiva
de flutuação da sua conta bancária, o que o torna um curto-prazista e 2º) que a inquietação que ataca os trabalhadores é a perspectiva de aumento do nível de desemprego. As dificuldades de manter a coesão de suas famílias e sua integração na empresa, a ausência de reservas de poupança, o nível de seu endividamento e a precariedade do auxílio ao desemprego explicam a angústia por resultados imediatos, o que os torna, também, curto-prazistas.
Esses fatos explicam por que o "ajuste"**,
mesmo quando sabidamente indispensável para que num prazo mais longo se
recupere o aumento da taxa de crescimento do PIB [Produto Interno Bruto] e a
continuidade da inclusão social, é frequentemente retardado e sempre sujeito às
vicissitudes do período eleitoral.
É porque o seu
sucesso depende essencialmente da arte política de convencer a sociedade que o
"ajuste" será o mais inteligente possível (minimiza os seus
custos econômicos e sociais) e o mais
equânime (distribui os custos proporcionalmente a quem pode e deve
pagá-los) para maximizar a sua
moralidade.
Como é absolutamente evidente, as condições necessárias para
que o "ajuste" seja bem-sucedido são a credibilidade e
"convicção" do poder incumbente, a qualidade do programa e a
reconhecida competência dos encarregados de sua execução. Não há condição suficiente para garantir o seu sucesso, a não ser,
talvez, a sorte...
Por maiores e mais preconceituosas que sejam as
desconfianças de parte da sociedade em relação à presidente Dilma, é preciso
reconhecer a sua coragem. Diante das dificuldades de 2011-2014, ela escolheu
uma nova política econômica e chamou os ministros Joaquim Levy, Nelson Barbosa,
Armando Monteiro e Kátia Abreu para executá-la.
Trata-se de um
programa razoável dentro das limitações políticas vigentes, que, sem
diminuir a ênfase na igualdade de oportunidades, apresenta um caminho realista
para nos aproximar da administração "normal" dos países mais bem-
sucedidos.
Mas ele não será
percorrido em menos de dois anos.
Se a sociedade não
for convencida politicamente dos benefícios da troca de algum sacrifício no
curto prazo pelas condições de crescimento mais robusto e equilibrado no futuro
e não tiver a paciência de esperar os seus frutos, o curto-prazismo acabará
prevalecendo. E, quando a primavera chegar, em setembro, se eu conheço os
empresários e os trabalhadores, nós os veremos pedindo a troca do programa e
dos ministros...
*
Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda (governos
Costa e Silva e Médici), é economista e ex-deputado federal. Professor
catedrático na Universidade de São Paulo.
** O “ajuste”, a grosso modo, são as medidas econômicas tomadas pelo novo Ministro
da Fazenda, Joaquim Levy, numa tentativa de fazer o Governo Federal voltar a
gastar somente aquilo que tem, ou seja, que consegue arrecadar através de
impostos e outros meios; bem como, criar as condições para os empresários
nacionais e internacionais voltarem a confiar no Brasil e investir. Por esse motivo,
está havendo cortes de despesas em vários ministérios, bem como, aumento de
impostos e tarifas que estavam, artificialmente, baixas.
Fonte: Folha de S.
Paulo – Colunistas – 25/02/2015 – Publicado às 02h00 – Internet: clique aqui.
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