O MAIS FRACO PAGARÁ, NOVAMENTE, PELOS "AJUSTES"
Em nome da austeridade
Lena Lavinas*
A perversão da
política social que é usada para dar acesso ao sistema financeiro
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Joaquim Levy - Ministro da Fazenda |
Virada de ano, virada de governo. O chamado “reequilíbrio
fiscal” atinge em cheio a política social, cujo viés liberalizante entra em
marcha acelerada. Se, nos últimos anos, a
estratégia de fomento à competitividade de uma indústria combalida centrou-se
na desoneração tributária da folha de pagamento, ameaçando o orçamento da Seguridade Social, crescentemente
responsabilidade do trabalho e menos do capital, agora a linha de tiro alcança
o cerne dos direitos trabalhistas e previdenciários.
Em um contexto de desaceleração econômica aguda, retração do
investimento público e privado, rápida elevação dos juros para além de
patamares já proibitivos e escassez de novos empregos, alterar as regras do seguro-desemprego e de outros benefícios como as
pensões é dar as costas ao “modelo social” introduzido pelo próprio Partido dos
Trabalhadores, com custos não apenas em alta, mas fonte de grande
vulnerabilidade social e financeira para as famílias brasileiras.
Que “modelo social”
foi esse? A grande arquitetura começa com a criação do crédito consignado, em 2004, que vai vincular acesso
prioritário a linhas de crédito com taxas de juros menos extorsivas àqueles
detentores de uma aposentadoria ou pensão. A política social torna-se, assim,
colateral garantido pelo Estado. Rapidamente o emprego formal entra na lista dos critérios de habilitação a essa linha
de crédito preferencial de curto/médio prazo, o que é altamente
justificável, pois a renda do trabalho é sim um colateral relevante. E esta, em
particular seu piso, o [salário] mínimo,
teve ganhos reais importantes, numa trajetória sustentada de recuperação.
Em paralelo, no mesmo ano, é regulamentado o Bolsa Família, que vem, já com atraso,
expandir a incorporação ao mercado de milhões de famílias cujo grau de
destituição restringia não apenas oportunidades, senão ameaçava sua existência
e dignidade. Pouco a pouco, ampliam-se mecanismos de acesso ao crédito de
consumo também aos beneficiários do grande programa nacional de combate à
pobreza, para incentivar um modelo de
consumo que vem, finalmente, aquecer o mercado doméstico, dobrando as vendas no
varejo entre 2003-2014 (IBGE, Pesquisa
Mensal de Comércio) e, de tabela, financiando
também acesso a bens importados, que um câmbio sobrevalorizado favorece. Ou
seja, exportando empregos e agravando nossa balança comercial.
Se, em 2001, segundo
o Banco Central, o crédito correspondia a 22% do PIB**,
em dezembro de 2014 ultrapassa 58%. Saliente-se que o crédito a pessoa
física responde por 47% da oferta de crédito nessa data, sendo que a rubrica
crédito livre (para consumo em geral, aquisição de veículos, consignado e não consignado)
equivale a quase 2/3 de todo crédito a pessoa física. Seu volume triplicou
entre 2007 e 2014.
Ainda segundo o Banco Central, o endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro
nacional compromete hoje 48% de sua renda, para 22% no início de 2006. Isso não seria um problema se, depois de se
insuflar o consumo das famílias, motor do crescimento econômico a partir de
2006, usando a política social como colateral, o governo, em meio a uma recessão que bate à porta, não resolvesse
modificar a regra de acesso ao seguro-desemprego, cortar e reduzir pensões por
morte, e se o sistema tributário não garfasse, pela sua estrutura regressiva
que incide fortemente sobre o consumo, pouco mais de metade da renda bruta das
famílias que vivem com menos de dois salários mínimos mensais. Ah, sem
falar que praticamente metade do valor do benefício do Bolsa Família, segundo
dados do Ipea, retorna ao governo em
razão da incidência dos tributos indiretos.
Em outras palavras, a
renda disponível da família trabalhadora, ou aposentada, ou remediada é baixa,
muito baixa. Mas, igualmente baixa,
é a renda dos brasileiros em geral, dado nosso quadro de altíssima desigualdade.
Segundo o IBGE, o rendimento médio do
trabalho ao longo do ano de 2014 (PME) situa-se em R$ 2.054,00 mensais.
Some-se à equação o fato de o grosso da política social serem transferências de
rendas monetárias, contributivas ou não contributivas, enquanto a parcela da
provisão pública de serviços e bens que deveriam ser assegurados gratuitamente
continua a escassear, empurrando quem busca segurança e qualidade para o
mercado privado, com preços destorcidos elevadíssimos, incompatíveis com a
renda da população e comprometendo parcela significativa dela. Ou seja, a renda disponível da população brasileira
é sugada por:
·
níveis crescentes de endividamento,
·
por tributos indiretos massacrantes e
·
pela aquisição daquilo que lhe deveria ser
provido com qualidade, na quantidade imposta pelas contingências e
gratuitamente [ex.: educação, segurança, saúde, medicamentos etc.].
A presidente Dilma não se furtou a enfatizar, em seu mais
recente discurso, a primazia dos programas residuais como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida e o Mais
Médicos nas metas de seu governo, em detrimento do sistema de proteção social como um todo. Este, em 2014, além de ter
perdido o aporte de, aproximadamente, R$ 56 bilhões em favor das desonerações da Seguridade, ainda se
ressente do desvio de – numa estimativa conservadora – R$ 60 bilhões para
engordar a Desvinculação de Receitas da União (DRU).
A título de ilustração, assinala o TCU que, em 2013, os gastos com renúncia tributária
e previdenciária foram estimados em R$ 218 bilhões, ao passo que saúde e
educação públicas juntas receberam R$ 163 bilhões. A bom entendedor...
A política social tem por finalidade reduzir
vulnerabilidades, prevenir a pobreza, equalizar oportunidades e, sobretudo,
desmercantilizar acesso, garantindo direitos.
No Brasil a perversidade é tamanha que se usa a política social como
colateral para dar acesso ao sistema financeiro, de forma a potencializar um
consumo represado por salários relativamente baixos e uma estrutura de preços
relativos caros, com produtos medíocres, produtividade em queda e juros em alta.
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Lena Lavinas - Economista da UFRJ Autora deste artigo |
Claro está que nesta virada de ano, só se pode mesmo celebrar
a performance do Bradesco e do Itaú, cujo lucro líquido bateu novos recordes.
Não bastasse esse
viés liberalizante já conhecido, agora se quer cortar o colateral de acesso, em
nome da austeridade. E como se pagarão as dívidas? Que novo “modelo social” está sendo gestado para substituir o que se
esgota e foi falho?
Respeitar e consolidar a grande inovação institucional que
nos veio com a criação da Seguridade Social em 1988, isso parece fora do radar.
Decididamente, como dizia o refrão das ruas de 2013, esse governo não nos representa.
*
Lena Lavinas é professora do Instituto de Economia da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora, com Eduardo Henrique Garcia, de Programas Sociais de Combate à Fome – O
Legado da Estabilização Econômica (Editora UFRJ, 2004).
**
PIB (Produto Interno Bruto) representa a soma
(em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos numa
determinada região (quer sejam países, estados ou cidades), durante um período
determinado (mês, trimestre, ano etc.). O PIB é um dos indicadores mais
utilizados na macroeconomia com o objetivo de quantificar a atividade econômica
de uma região. Na contagem do PIB, considera-se apenas bens e serviços finais,
excluindo da conta todos os bens de consumo de intermediário. Isso é feito com
o intuito de evitar o problema da dupla contagem, quando valores gerados na
cadeia de produção aparecem contados duas vezes na soma do PIB (Fonte: Wikipédia).
Fonte: O Estado S.
Paulo – Notas e Informações – Sábado, 21 de fevereiro de 2015 – Pg. A3 –
Internet: clique aqui.
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