Apelo do Vaticano: não às homilias do tipo abstratas e moralistas
IACOPO
SCARAMUZZI
Apresentação
do “Diretório Homilético”, vade-mécum com 156 parágrafos sobre a boa pregação.
Papa
Francisco: «Muitas são as queixas em relação a este importante ministério e não
podemos fechar os ouvidos»
A homilia:
·
“não é
um sermão sobre um tema abstrato”,
·
nem “uma
ocasião, para o pregador, abordar assuntos completamente desligados da
celebração litúrgica e das suas leituras,
·
ou para
fazer violência aos textos previstos pela Igreja, torcendo-os para adaptá-los a
uma ideia preconcebida”,
·
não é “um
puro exercício de exegese bíblica”,
·
“não
deve ser usada como tempo de testemunho pessoal do pregador”,
·
não deve
limitar-se a exprimir “simplesmente, a história pessoal do pregador”,
·
nem deve
reduzir-se a um caráter “puramente moralista ou doutrinante”.
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Cardeal Robert Sarah Presidente da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos |
O Vaticano
apresentou hoje (terça-feira, 10 de fevereiro) um “Diretório Homilético”,
elaborado pela Congregação para o Culto
Divino e a Disciplina dos Sacramentos presidida, desde novembro de 2014,
pelo cardeal guinesano Robert Sarah,
acelerada com Papa Francisco, publicado, na realidade, em dezembro passado, e
em preparação já sob o pontificado de Bento XVI, quando à frente do dicastério estava
o cardeal espanhol Antonio Canizares Llovera.
Em 156 parágrafos e
dois apêndices, este vade-mécum endereçado a todos os bispos, sacerdotes e
seminaristas do mundo repropõe as indicações sobre como desenvolver uma boa
pregação e quais erros evitar.
O cardeal Sarah, em
uma entrevista coletiva no Vaticano, explicou que o diretório “não nasce sem um
porquê” e citou, a propósito, o que escreveu Papa Francisco na exortação
apostólica Evangelii Gaudium (n.
135): “Muitas são as queixas em relação a este importante ministério e não
podemos fechar os ouvidos. A homilia é a pedra de comparação para avaliar a
proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De fato –
prosseguia o Papa – sabemos que os fiéis lhe dão muita importância; e eles,
como os próprios ministros ordenados, muitas vezes sofrem, uns a escutar e
outros a pregar. É triste que seja assim”.
O diretório é
articulado em duas partes. Na primeira,
intitulada “A homilia e o âmbito
litúrgico”, descreve – explica o decreto de apresentação – “a natureza, a
função e o contexto peculiar da homilia”, na segunda parte, “Ars
praedicandi” [trad.: Arte e
pregar], “são exemplificadas as coordenadas metodológicas e de conteúdo que
a homilia deve conhecer e das quais deve levar em conta ao se preparar e
pronunciar a homilia”. Seguem, finalmente, dois apêndices, um com as
referências ao Catecismo da Igreja Católica e o segundo com referências aos “textos
de documentos do Magistério sobre a homilia”.
Não se trata,
portanto, de “uma coleção de homilias já prontas nem de um subsídio, como
existem tantos, com explicações exegéticas, espirituais e pastorais entorno das
leituras da missa”, explicou padre Corrado
Maggioni, subsecretário do dicastério, nem o diretório pretende “introduzir
novas normas, mas recolher disciplinas existentes”.
Entre as várias
indicações, o apelo a prestar uma atenção particular àquelas celebrações onde
estão presentes também não católicos ou, em todo caso, pessoas que talvez não
frequentam missa todos os domingos, como no caso de matrimônios e funerais com
missa. Insiste-se que a homilia pode ser feita “somente pelos bispos, pelos
sacerdotes e pelos diáconos”, enquanto um leigo, explicou padre Maggioni, pode “oferecer
um testemunho” temático se no calendário litúrgico ocorrer uma jornada
específica, ou, em sentido geral, pode intervir com uma “pregação” na Igreja,
mas fora da “ação litúrgica”, que é reservada “ao ministério ordenado”.
Com relação à
brevidade da homilia, é invocado o que foi escrito por Papa Francisco na Evangelii Gaudium (“deve ser breve e
evitar parecer uma conferência ou uma aula”), mas também aquilo que se lê no Lecionário (“não demasiadamente longa
nem muito breve”). A duração, esclareceu o cardeal Sarah em resposta aos
jornalistas, “depende da cultura onde estamos: é claro que no Ocidente superar
vinte minutos parece muito, na África, porém, vinte minutos não bastam, porque
as pessoas vêm de longe para escutar a Palavra de Deus, se um padre fala dez ou
vinte minutos não basta”. Diferente é o discurso para as missas de segunda a
sexta-feira, quando é, em todo caso, aconselhável que se faça uma homilia, mas
devido o fato que a “Eucaristia cotidiana é menos solene que a liturgia
dominical e deveria ser celebrada de tal modo que todos aqueles que possuem
responsabilidades familiares e de trabalho possam ter oportunidade de
participar”, é necessário que “a homilia, em tais ocasiões, seja breve”. Quanto
à aplicação destas indicações, “a responsabilidade é dos bispos”, explicou
Sarah.
O diretório, disse o
cardeal africano, não é dirigido a um específico país, porque “há dificuldades
de homilia em todo lugar”, é um “problema mundial”. Dom Arthur Roche, secretário da Congregação [para o Culto Divino e
a Disciplina dos Sacramentos], de seu lado, recordou uma outra passagem da
[exortação apostólica] Evangelii Gaudium
(n. 138): “A homilia não pode ser um espetáculo de entretenimento, não deve
seguir a lógica dos veículos mediáticos [de comunicação], mas deve dar fervor e
significado à celebração. É um gênero peculiar, uma vez que se trata de uma
pregação dentro do âmbito de uma celebração litúrgica”.
Será, pois, um “bom homileta [pregador]”, anotou o bispo, “quem, através da
pregação homilética, for capaz de fazer isto:
·
guiar ao
entendimento e apreciar aquilo que sai da boca de Deus,
·
abrir os
corações à ação de graças a Deus,
·
alimentar
a fé naquilo que o Espírito realiza para nós, agora e aqui na ação litúrgica,
·
preparar
a uma frutuosa comunhão sacramental com Cristo,
·
exortando
a viver naquilo que se recebeu no sacramento”,
enquanto que, “será
um mau pregador [homileta] quem, mesmo sendo, talvez, um grande orador, não for
capaz de suscitar estes efeitos”.
As homilias,
acrescentou o vice-diretor da Secretaria de Imprensa vaticana, padre Ciro Benedettini, são “cruz e
delícia” de todo padre e de todo fiel, “frequentemente cruz mais que delícia: o
importante é que não façam os fiéis se adormentarem”. A homilia “deve ser o
meio com o qual o sacerdote infunde em mim o desejo de conhecer ou reconhecer
Jesus, apresentando-0 da maneira mais direta e clara, não retorcido ou parcial”,
disse, por seu lado, Filippo Riva, membro
do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, dando voz a quem escuta as
homilias.
Traduzido
do italiano por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
Fonte: Vatican Insider / La Stampa – Vaticano – 10/02/2015 – Internet: clique aqui.
10 conselhos acerca das homilias,
uma síntese do "Diretório Homilético”,
elaborado pela Congregação para o Culto Divino e a
Disciplina dos Sacramentos
1 – A homilia é preparada
cuidadosamente, ancorando-a um profundo conhecimento das Sagradas Escrituras,
especialmente do Evangelho. (Proposição 19, do Sínodo dos Bispos 2005).
2 – Não é um discurso qualquer, mas uma
palestra inspirada na Palavra de Deus. Pode-se recorrer a imagens ou lendas
para não aborrecer os fiéis. (Card. Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto
Divino e a Disciplina dos Sacramentos).
3 – A homilia não é um show de
entretenimento, mas deve dar sentido e fervor à celebração (Papa Francisco, Exortação
Apostólica Evangelii Gaudium, n.
138).
4 – A homilia não pode ser improvisada:
ao contrário merece "um longo tempo de estudo, oração, reflexão e
criatividade pastoral" (Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n 145).
5 – A pregação deve ser positiva, pois
fornece "sempre esperança" e não deixa "prisioneiros da
negatividade" (Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium).
6 – O bom homileta [pregador] ajuda a
“entender e apreciar o que sai da boca de Deus, a abrir o coração à ação de
graças a Deus, a alimentar a fé, a preparar uma frutuosa comunhão sacramental
com Cristo.” Será um mau pregador aquele que, “embora talvez um grande orador,
não seja capaz de provocar estes efeitos.” (Dom Arthur Roche, secretário da
Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos).
7 – O pregador deve organizar sua
homilia, seguindo este caminho: escolher o que dizer, por que dizê-lo, como
dizê-lo a esta assembleia específica. As homilias diferenciar-se-ão de acordo
com a celebração. Na missa ferial recomenda-se uma breve homilia. (Padre
Corrado Maggioni, subsecretário da Congregação).
8 – A homilia eficaz desperta no
ouvinte o desejo de conhecer ou reconhecer Deus, apresentando-O no modo mais
direto e claro, não enrolado ou parcial. (Filippo Riva, oficial do Pontifício
Conselho para as Comunicações Sociais).
9 – A homilia eficaz põe em risco o que
o ouvinte "já sabe". (Filippo Riva).
10 – A palavra de um sacerdote deve ser
encarnada, testemunhar uma atitude perante a vida, uma posição humana. (Filippo
Riva).
Fonte: Associação
Fraternitas Movimento – Blog – 11 de fevereiro de 2015 – Internet: clique aqui.
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