O PETRÓLEO OUTRA VEZ!
Petróleo desafia governos
Ian Bremmer*
Nenhum país deve
ganhar mais com essa queda dos preços do que a China
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IAN BREMMER - Universidade de Nova York (Estados Unidos) |
É a única situação observada com igual interesse em todas as
regiões do mundo. Os preços do petróleo caíram à metade desde junho e
provavelmente permanecerão baixos por algum tempo. Não se espera um aumento
surpresa da demanda na China ou em outros mercados emergentes que poderiam impelir
os preços para cima. E os sauditas não devem restringir a oferta realizando um
grande corte de produção nas próximas semanas, uma vez que seu novo rei,
Salman, quer restringir o crescimento da produção global - especialmente de
óleo de xisto - mantendo produtores rivais, particularmente o Irã, numa
situação apertada.
Assim, é caso de se perguntar: e se o barril do Brent
continuar valendo em média US$ 50 o restante do ano? A queda dos preços não irá
castigar Putin, na Rússia, porque sua popularidade depende cada vez mais da
resistência do país ao Ocidente. E os preços baixos também não forçarão o Irã a
aceitar um acordo envolvendo o seu programa nuclear que o líder supremo do país
não deseja. Mas se os preços mais baixos persistirem, eles estimulariam uma reforma
econômica importante em quatro países importadores: China, Japão, Indonésia e
Índia.
Em primeiro lugar, a boa notícia. Nenhum país deve ganhar
mais com essa queda dos preços do que a China, cujo processo de reforma é cada
vez mais importante para a estabilidade de toda a economia global. Para
capacitar economicamente os consumidores de modo a comprarem mais produtos do
que a China produz, o presidente Xi Jinping vem realizando reformas que podem
desacelerar a economia do país. O petróleo mais barato amortece o impacto que
essas reformas terão sobre a capacidade do país de gerar crescimento e
empregos.
Os preços menores também estimulam as reformas econômicas
internas empreendidas no Japão, uma vez que reduzem o custo para consumidores e
empresas num momento em que o premiê Shinzo Abe luta para manter o apoio da
sociedade às controvertidas mudanças políticas que ele pretende. Ao mesmo tempo
que colocarão mais dinheiro no bolso do consumidor, as reformas ajudarão Abe a
rechaçar as críticas de que as medidas que vem adotando enriquecem os grandes
exportadores e investidores e prejudicam os demais.
Planos ambiciosos de reforma também beneficiarão Índia e
Indonésia, onde os novos líderes prometem dar novo impulso ao crescimento
depois de anos de promessas de mudanças não cumpridas. Um dos primeiros
desafios para o premiê indiano Narendra Modi e o presidente da Indonésia Joko
Widodo será a necessidade de restaurar o equilíbrio das finanças públicas,
reduzindo os subsídios para o combustível. Os preços mais baixos do petróleo
permitirão ao governo transferir a responsabilidade para consumidores e
empresas num momento em que os custos menores absorverão o choque financeiro.
Quanto ao lado negativo, não é surpresa que a queda dos
preços do petróleo é uma péssima notícia para governos que dependem das
exportações do produto para arrecadar receita. Alguns, no entanto, são muito
mais vulneráveis do que outros.
Os sauditas e outros produtores do Conselho de Cooperação do
Golfo (GCC, na sigla em inglês) perderão receita, mas sabem que os custos
políticos sofridos pelo seu rival político, o Irã, com a imposição de sanções,
são muito maiores.
O retorno dos militares ao poder no Egito restaurou a
confiança dos sauditas de que as ameaças dos partidos políticos islâmicos diminuíssem
após a Primavera Árabe. Embora a Arábia Saudita tenha aumentado vigorosamente
seus gastos no ano passado, o país desfruta de reservas em caixa substanciais
para enfrentar qualquer tormenta.
Nigéria e Rússia estão em situação mais difícil. Na Nigéria,
maior economia da África, o presidente Goodluck Jonathan enfrenta um sério
desafio à sua reeleição, em março. As eleições nesse país, com frequência,
incitam a violência e a ameaça dos militantes do Boko Haram, que têm base nas
províncias de maioria muçulmana, polarizam uma nação já profundamente dividida,
aumentando as dificuldades enfrentadas pelo presidente. O governo já cortou
gastos e aumentou as taxas de juro para reforçar uma moeda fraca. E o preço do
petróleo com o barril a US$ 50 em média também aumenta seus problemas, o
privando dos fundos que necessita para responder aos problemas.
Na Rússia, um período prolongado de preços baixos aumentará
os danos já provocados pelas sanções ocidentais impostas ao país, em termos de
isolamento político e subinvestimento. Autoridades do Kremlin têm advertido que
a perda prolongada das receitas advindas do petróleo podem desencadear uma
crise bancária, embora no momento o Estado tenha recursos para dar apoio às
instituições de empréstimo
Os altos índices de aprovação de Putin e as reservas
financeiras do país ainda consideráveis ajudarão a Rússia a evitar episódios de
distúrbios sociais, mas o clima de negócios, especialmente para empresas
estrangeiras, deverá piorar salvo se os preços do petróleo se recuperem de modo
significativo.
Somente na Venezuela, a queda dos preços constitui um
desafio direto à estabilidade. Mais de 95% das suas divisas cambiais dependem
das exportações de petróleo. O presidente Nicolás Maduro diz que para
equilibrar o orçamento do país o petróleo bruto pesado precisa ser vendido a
cerca de US$ 100 o barril. Na verdade, US$ 117.
O país importa mais de 70% de todos os seus produtos de
consumo, incluindo alimentos, e a queda dos preços do petróleo obriga as
autoridades a reduzirem as importações de produtos de primeira necessidade
ainda mais. Se os preços permanecerem baixos nos próximos meses, Maduro não
conseguirá mais que o Exército o defenda de protestos que deverão aumentar.
Tradução de Terezinha Martino.
*
Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group e professor da
Universidade de Nova York.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Internacional – Domingo, 8 de fevereiro de 2015 – Pg. A18 –
Internet: clique aqui.
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