CHINA E AMÉRICA LATINA: UM NOVO IMPERIALISMO?

A China e a reprimarização da América Latina:
novo imperialismo?

José Eustáquio Diniz Alves[1]

José Eustáquio Diniz Alves
Algumas afirmações deste artigo:

"Enquanto houve crescimento da demanda e do preço das commodities[2] a América Latina e Caribe se beneficiaram, embora a valorização cambial tenha levado ao processo conhecido como 'doença holandesa', que necessariamente leva à uma desindustrialização, no caso da América Latina e Caribe, precoce desindustrialização"

"A China tem relações do tipo imperialista com os países latinoamericanos e os países latinoamericanos tem relações de dependência com a China".

"A ironia é que a criação desta nova dependência a este novo imperialismo é comemorada pelos governos de esquerda da América Latina e Caribe e pelo governo comunista da China, líder dos BRICS. Ao mesmo tempo, tudo isto deixa preocupado os velhos imperialismo europeu e americano. Já há quem diga que o “quintal” está mudando, de novo, de dono."

Eis o artigo.
As lideranças políticas da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) – bloco que agrega 33 países da região – se reuniram nos dias 08 e 09 de janeiro de 2015 em Pequim, para a primeira reunião do fórum China-Celac.

O presidente chinês, Xi Jinping, disse que o encontro é um sinal positivo sobre o aprofundamento da cooperação entre China e América Latina e Caribe e terá um impacto de longo prazo na promoção da cooperação sul-sul e para prosperidade no mundo. Ele disse que há uma expectativa de que o comércio bilateral entre China e América Latina suba para US$ 500 bilhões em dez anos e garantiu US$ 250 bilhões em investimentos chineses na América Latina nos próximos dez anos, como parte de um movimento para impulsionar a influência da China na região, superando a histórica dominação da América do Norte.

A Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) divulgou o estudo “Primer Foro de la Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños (CELAC) y China: Explorando espacios de cooperación en comercio e inversión[3] mostrando que o comércio de bens entre a Celac e a China aumentou 22 vezes entre 2000 e 2013, de US$ 12 bilhões para US$ 275 bilhões, sendo que a China passou a ser o maior “sócio” das transações internacionais da América Latina e Caribe. Em igual período, o comércio da região com o mundo aumentou apenas 3 vezes.

O documento apresentado pela Secretária Executiva da Cepal, Alicia Bárcena, se preocupa com o crescente déficit na balança comercial entre os países da Celac e a China e sugere que os investimentos externos diretos (IED) da China sejam alocados em outros setores que não somente nas atividades extrativas, onde se concentra 90% dos investimentos chineses na América Latina e Caribe.

De fato, a China foi muito importante para o ciclo de crescimento da América Latina e Caribe desde o início do século XXI. Foi a alta demanda chinesa que possibilitou o boom das commodities[4], que elevou o crescimento da economia, valorizou as moedas nacionais dos diversos países da América Latina e Caribe, reduziu o desemprego e possibilitou o aumento dos gastos sociais no sentido de reduzir a pobreza e aumentar a proteção social.
Mas ao mesmo tempo houve um regresso na qualidade do desenvolvimento da região. A maioria dos países da América Latina e Caribe estão passando por um processo de reprimarização, pois a China compra petróleo da Venezuela, cobre do Peru e Chile, soja da Argentina e do Brasil, dentre outros produtos primários e exporta produtos de maior valor agregado.[5]

Enquanto houve crescimento da demanda e do preço das commodities a América Latina e Caribe se beneficiaram, embora a valorização cambial tenha levado ao processo conhecido como “doença holandesa”, que necessariamente leva à uma desindustrialização, no caso da América Latina e Caribe, precoce desindustrialização.

Ou seja, a China foi importante para a retomada da economia da América Latina e Caribe depois da “década perdida”. Mas ao mesmo tempo ela aprofundou uma nova dependência, pois os países latinoamericanos exportam produtos primários e de baixo valor agregado e importam produtos industrializados da China. O emprego industrial cresce na China e diminui na América Latina e Caribe.

Agora, em 2014 e 2015, quando o preço das commodities estão caindo em todo o mundo, os países da Celac estão recorrendo à China a busca de capitais para fechar seus balanços de pagamento. Ou seja, primeiro aprofundaram a dependência econômica e agora vão aprofundar a dependência financeira.

O nome que se dá a esse processo na literatura internacional, desde Rosa de Luxemburgo (1871-1919) e Rudolf Hilferding (1877-1941), é imperialismo. Isto é, a China tem relações do tipo imperialista com os países latinoamericanos e os países latinoamericanos tem relações de dependência com a China.

Na verdade, o “Império do Meio” teve um superávit comercial recorde com o resto do mundo em 2014, de US$ 382 bilhões, resultado do saldo de exportações anuais de US$ 2,34 trilhões e importações anuais de US$ 1,96 trilhões. A China que exportava menos do que o Brasil até 1984, agora exporta 10 vezes mais e possui reservas internacionais de mais de US$ 4 trilhões de dólares.

A ironia é que a criação desta nova dependência a este novo imperialismo é comemorada pelos governos de esquerda da América Latina e Caribe e pelo governo comunista da China, líder dos BRICS[6]. Ao mesmo tempo, tudo isto deixa preocupados os velhos imperialismos europeu e americano. Já há quem diga que o “quintal” está mudando, de novo, de dono.

N O T A S :

[ 1 ] José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE.

[ 2 ] Commodity: é um termo de língua inglesa que, como o seu plural commodities, significando literalmente mercadoria, é utilizado para designar bens e as vezes serviços para os quais existe procura sem atender à diferenciação de qualidade do produto no conjunto dos mercados e entre vários fornecedores ou marcas. As commodities são habitualmente substâncias extraídas da terra e que mantém até certo ponto um preço universal. Tipos de commodities:
Agrícola - exemplos: café, trigo, soja;
Mineral - exemplos: ouro, petróleo, minério de ferro;
Financeira - exemplos: dólar, euro, real, Bitinino;
Ambiental exemplos: água, créditos de carbono;
Recursos energéticos - exemplos: energia elétrica;
Química - exemplos: ácido sulfúrico, sulfato de sódio (Fonte: Wikipédia).

[ 3 ] CEPAL. Primer Foro de la Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños (CELAC) y China: Explorando espacios de cooperación en comercio e inversión, Santiago, janeiro de 2015-01-09, clique aqui.

[ 4 ] O boom das commodities foi a alta procura por produtos agrícolas e minerais, sobretudo, por parte de países que experimentaram um forte crescimento econômico em fins do século XX para cá. Estamos falando, principalmente da China e Índia.

[ 5 ] Reprimarização é um termo para descrever a volta a um modelo de desenvolvimento econômico baseado, fundamentalmente, na extração ou produção de produtos primários (exemplos: soja, carvão, minério de ferro, cobre, peixes etc.). Eles são chamados assim, por são a matéria-prima levada para a indústria que os transforma em produtos industrializados e mais valiosos em seu preço.

[ 6 ] BRICS é um acrônimo que se refere aos países membros fundadores (o grupo BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que juntos formam um grupo político de cooperação. Em 14 de abril de 2011, o "S" foi oficialmente adicionado à sigla BRIC para formar o BRICS, após a admissão da África do Sul (em inglês: South Africa) ao grupo. A sigla (originalmente "BRIC") foi cunhada por Jim O'Neill em um estudo de 2001 intitulado "Building Better Global Economic BRICs" (Fonte: Wikipédia).

Fonte: Portal EcoDebate – Cidadania & Meio Ambiente – 25/02/2015 – Internet: clique aqui.

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