''Os muçulmanos devem se oferecer como escudos humanos para igrejas e sinagogas''
Gad Lerner
La
Repubblica
24-02-2015
Esta é a afirmação do
líder muçulmano italiano Roberto Hamza Piccardo
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Roberto Hamza Piccardo - líder muçulmano italiano |
Roberto Hamza Piccardo esteve entre os primeiros italianos
convertidos ao Islã, há 40 anos, em 1975, virando as costas para a militância
juvenil na extrema esquerda de Imperia.
Vinte anos depois, publicou a tradução
do Alcorão, ainda em uso nas comunidades muçulmanas da península [italiana],
que chegou a 250 mil exemplares distribuídos.
Agora que está prestes a completar 63 anos, muitos dos quais
passados no topo da Ucoii (União das Comunidades Islâmicas da Itália),
ele dá espaço para o seu filho David
Piccardo, que nessa segunda-feira, no Viminale [Ministério do Interior
italiano], participou de um encontro com o ministro
Alfano, preferindo esculpir para si um papel de batedor livre na galáxia
não homogênea da Irmandade Muçulmana.
"Especifiquemos que, com a Irmandade Muçulmana, tenho
uma proximidade amigável, mas não sou um membro orgânico da congregação. Hoje,
nas nossas comunidades islâmicas, que se opõem tanto às petromonarquias quanto
ao Estado Islâmico [EI], está se
manifestando uma dialética importante: por um lado, os muçulmanos dialogantes;
por outro, a tendência dos puros e duros que – a meu ver, equivocando-se –
interpretam a guerra em curso como inevitável empurrão contra o Ocidente e o
sionismo".
Eis a entrevista.
É por isso que ainda não foi
pronunciada uma excomunhão definitiva, com o termo takfir (apóstata), aos seguidores do chamado Califado [Estado
Islâmico]?
Roberto Hamza
Piccardo: Você está errado. Várias autoridades islâmicas já condenaram sem
meios termos os crimes do EI, definindo-os como incompatíveis com a nossa fé.
Só que a expressão takfir, segundo a
jurisprudência islâmica, se refere à relação íntima entre o crente individual e
Alá. Não se pode abusar dela.
O senhor admitirá que
o avanço do EI marca uma trágica involução histórica do Islã.
Piccardo: Já
vivemos outras, esta também vai passar. O fascínio do uniforme preto [que os membros do EI usam], a ferocidade
ostentada pode exercer um apelo em algum rapaz apaixonado pelos filmes do
Zorro, mas eu asseguro a você que estamos registrando um fluxo de conversões ao
verdadeiro Islã que não tem nada a ver com o EI: uma operação montada de modo
exagerado, com a conivência de muitos atores externos interessados em
desestabilizar o mundo sunita. Quem pode acreditar realmente que os camelos vão
chegar a beber nas fontes de São Pedro? O EI vai desaparecer assim como
apareceu, quando não servir mais. Isso não significa que eu subestime a
tragédia em curso, especialmente para milhões de refugiados.
O senhor não teme a influência que a
propaganda dos degoladores exerce sobre as novas gerações de muçulmanos, também
na Itália?
Piccardo: Eu
constato, com efeito, uma espécie de impulso milenarista. A ilusão de resolver,
através de um desempenho muscular, as polêmicas internacionais. Mas o Islã
europeu tem uma vocação dialogante. Ele aprecia as diferenças. Reconhece as
diversas sensibilidades internas à Itália, à Europa, aos Estados Unidos, com as
quais podemos nos defrontar de maneira profícua. Eu penso no papel positivo da
Igreja, nas críticas ao sistema dominante formuladas pelos movimentos sociais e
ambientalistas, na reivindicação de uma cidadania plural.
Que impressão o senhor teve ao ver
uma corrente humana de muçulmanos noruegueses que cercaram, em solidariedade, a
sinagoga de Oslo?
Piccardo: Muito
bem-vinda. A proteção dos povos do Livro [judeus] é um preceito da nossa fé.
Vou lhe dizer mais. O atentado contra o Krudttønden Café de Copenhague, onde
estava sendo realizado um debate livre, me deu uma ideia.
Qual?
Piccardo: Seria
bonito se um certo número de expoentes islâmicos, eu também me incluo,
decidissem se oferecer como escudos humanos por ocasião de futuros eventos
semelhantes. Embora isso não substitua, naturalmente, a necessidade de um
trabalho de vigilância das forças de ordem.
O senhor seria um escudo humano
também para uma reunião na qual participasse Lars Vilks, o autor das caricaturas satíricas de Maomé?
Piccardo: Eu
considero essas caricaturas blasfemas e inutilmente ofensivas. Mas, do ponto de
vista humano, tenho o dever de proteger a incolumidade de toda criatura,
incluindo Lars Vilks. A expansão do Islã no mundo contemporâneo, a não ser em
situações particulares, não pode contemplar o uso das armas para alcançar o seu
objetivo de conversão.
O senhor não será acusado de
apostasia, depois de afirmações como essa?
Piccardo: Veja, o
convertido muitas vezes começa com o zelo do neófito. Quantos de nós, no
momento da conversão, jogaram fora os livros e os discos. Depois, fomos
pegá-los de volta. Recita um verso do Alcorão: "Há sinais para aqueles que
têm intelecto". Não basta aprender
o Alcorão de cor, é preciso compreendê-lo e, portanto, também interpretá-lo. O
literalismo trai o espírito, fingindo respeitar a letra.
O senhor fez diversas peregrinações
a Meca [na Arábia
Saudita, centro religioso muçulmano] e
viu a sua mudança. Que reação a "nova" Meca pode provocar em um
crente?
Piccardo: É um
choque cultural se deparar com o luxo e com o consumismo com que o regime
saudita tem circundado o nosso lugar mais sagrado. Chegamos ao limite da
profanação. Pode derivar daí, entre os peregrinos, uma repulsa perigosa. Tudo
em vantagem da erva daninha do literalismo. Nós não queremos ter nada a ver nem
com um regime ganancioso como o saudita, nem com o EI, que é uma derivação
dele, não totalmente imprevista, aliás.
O seu filho Davide participou do
encontro das comunidades islâmicas com o ministro Alfano. Quais são as suas
expectativas?
Piccardo: Alfano
poderia ter evitado a brincadeira sobre o Islã que atira e o Islã que reza. Mas
o encontro do Viminale [Ministério do
Interior, semelhante ao nosso Ministério da Justiça] é positivo,
especialmente se favorecer a completa emersão das comunidades islâmicas. Nós
somos cidadãos engajados também no plano da segurança, assim como em uma luta
de tipo espiritual e cultural. Ao mesmo tempo, pedimos proteção e respeito:
você viu o vídeo do Repubblica.it em
que um jovem vestido de imã recebe olhares e palavras hostis ao passear pelo
centro de Milão?
Traduzido o italiano por Moisés Sbardelotto. Para ter acesso à versão original desta
entrevista, clique aqui.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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