FIQUE POR DENTRO DO PRÓXIMO SÍNODO DOS BISPOS
O sínodo já realizado e aquele por ser realizado
Lorenzo Prezzi
e Marcello Matté
Indice del Sinodo - Il Regno
04-02-2015
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Cardeal Lorenzo Baldisseri - Secretário-Geral da 14ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos |
O tempo intersinodal deve ser dedicado ao aprofundamento da Relatio Synodi [1],
que constitui os Lineamenta [2] para a próxima Assembleia ordinária dos bispos
(04-25 de outubro de 2015). Tudo no estilo da parresia [3]
e da sinodalidade queridas pelo Papa Francisco. Ao secretário geral do
Sínodo dos bispos, cardeal Lorenzo
Baldisseri, dirigimos algumas perguntas que, amadurecidas na Assembleia
extraordinária (outubro de 2014), acompanham a reflexão deste período
intermediário (Roma, 22 de janeiro).
Eis a entrevista.
Eminência, é a primeira vez que um
tema (a família) é trabalhado em duas assembleias do sínodo (2014-2015). Quais
têm sido, a seu ver, os pontos fortes e os pontos débeis do sínodo
extraordinário (5-19 de outubro de 2014)?
Cardeal Baldisseri:
A 3ª Assembleia geral extraordinária dos bispos foi concluída em outubro
passado e agora estamos no período intersinodal, em vista da Assembleia geral
ordinária do próximo mês de outubro de 2015. Sim, o Sínodo se desdobra em duas
etapas, até gostaria de dizer em três, porque o Papa Francisco considerou o
Consistório de fevereiro de 2014 como a primeira etapa do percurso, tendo
solicitado aos cardeais de tratarem o tema. O tema do sínodo em sua formulação
completa é: os desafios pastorais da família no contexto da evangelização, o
qual foi amplamente tratado na 3ª Assembleia e produziu a Relatio Synodi. Os pontos fortes desta Assembleia podem ser
identificados, em primeiro lugar, na
implantação doutrinal sobre o matrimônio, fundamento da família, que é
desenvolvido na segunda parte do documento. Acrescentaria, depois, o anúncio do Evangelho da família e o destaque
da preparação ao matrimônio num contexto social completamente mudado desde os
tempos da Familiaris consortio
(1981).
A insistência na aceleração dos procedimentos para a
declaração de nulidade do matrimônio ocupou um espaço considerável, e introduz
obviamente aos outros temas das famílias feridas – os matrimônios falidos com
os separados, os divorciados, os divorciados redesposados – e as convivências,
especialmente entre os jovens. Estes temas compõem a terceira parte do
documento.
Os pontos débeis?
Falarei antes de caminho de renovação da instituição apenas iniciado, que
talvez tenha suscitado reações e confrontos em alguns participantes. Mas, não
se tratou de pouca clareza no desenvolvimento dos trabalhos. Foi algo bem
diverso!
A nova metodologia, a parresia
e a liberdade de expressão desejada pelo Papa, permitiram realizar uma
verdadeira sinodalidade e dar passos significativos para frente em todas as
direções sobre numerosas temáticas existentes sobre o tapete. Foi uma ocasião
formidável de renovação para o aperfeiçoamento da instituição sinodal.
Este percurso sinodal responde realmente à exigência de
mover-se com uma nova dinâmica, adaptada aos tempos de hoje e consoante à
crucial temática da qual o sínodo se ocupa, aquela da família.
Tensões e
convergências
O protesto de uma parte da aula a
favor da publicação das sínteses dos trabalhos de grupo e a votação “insuficiente”
de três números da Relatio synodi
parecem ter sido momentos críticos. Como os vivenciou?
Cardeal Baldisseri:
Na aula se viu muito espírito de comunhão e grande respeito pelas diversas
posições, mesmo que contrapostas sobre certas questões. O trabalho dos circuli minores (grupos de estudo) tem
sido fundamental, precioso, sério, rico em contribuições. Acolhida a
implantação e a composição de base da Relatio
post disceptationem, os modos ou contribuições foram inseridos
pontualmente.
Sobre a publicação dos relatórios dos grupos de estudo,
houve uma sentida troca de opiniões, devido ao fato de que, em outros sínodos
do passado, jamais tinham sido publicados, como, ao invés, sempre tinha sido
publicada a Relatio post-disceptationem,
que diversos membros não consideravam oportuno publicar.
Era necessário, então, clarear o que fazer a respeito e foi
decidido tornar públicos também os relatórios dos círculos menores.
A votação dos parágrafos ou números progressivos do
documento ocorreu segundo as normas estatutárias. A novidade está no fato de
que o Santo Padre decidiu fazer publicar tudo e imediatamente, também o
resultado das votações, incluindo os números que não haviam obtido o placet [4] dos
dois terços. A esse respeito, gostaria de recordar que a norma dos dois terços
foi inserida nos estatutos somente há uma dezena de anos e que, em todo caso,
fica intacto o princípio que se deva atingir o consenso, ou pelo menos a mais
ampla e qualificadora adesão.
A família se
mantém
O intento de fundo do processo
sinodal é aquele de apresentar a beleza do projeto de Deus sobre a família. Num
contexto social em que se multiplicam os “modelos familiares” e se registram
críticas radicais à família, a Igreja parece ser uma das poucas instituições em
condições de afirmar seu valor. É uma convicção difusa entre os [padres] sinodais
dos vários continentes?
Cardeal Baldisseri:
O anúncio do evangelho da família é o escopo principal deste sínodo. E é
precisamente a segunda parte da Relatio
Synodi que se ocupa disso.
Parte-se da escuta, do ver as realidades concretas, daquilo
que é vivenciado pelos homens e pelas mulheres na família, para depois analisar
o modo como se apresentam e verificar os passos a dar para vir ao encontro dos
problemas, para traçar linhas pastorais adequadas aos novos fenômenos da
sociedade de hoje.
Há situações que devem ser enfrentadas e não suprimidas,
algumas inéditas, que necessitam de aprofundamento doutrinal e coragem pastoral
para enfrentá-las, à busca de soluções adequadas, no respeito da verdade e na
caridade.
É verdade que se registram ataques e críticas radicais à
família, especialmente no mundo ocidental, e que a Igreja está certamente na
primeira fila para responder e defender o instituto familiar no seu aspecto
constitutivo da sociedade e, para os cristãos, da “igreja doméstica”.
Gostaria, no entanto, de dizer com clareza que os padres
sinodais, todos, mas especialmente aqueles de outros continentes, constataram
que a família tem e constitui o fundamento e a forte tradição do povo. Existem
certamente problemas de cultura e de tradições atávicas [5] que devem ser considerados e avaliados no seu contexto e à luz
do evangelho, mas, os assim ditos modelos familiares propugnados por agências
ou por fortes lobbies internacionais
não são a experiência do povo daqueles continentes.
Doutrina e
pastoral
Percebe-se, nas comunidades cristãs,
certo temor da possível rachadura da Assembleia, entre quem sustenta as razões
da doutrina e quem destaca aquelas da pastoral. Em seu ponto de vista, esse é
um perigo real?
Cardeal Baldisseri:
O Papa Francisco, no seu discurso conclusivo da Assembleia, foi claro dizendo
que se teria entristecido se não tivesse havido tentações, discussões, um
movimento dos espíritos, citando santo Inácio, se todos tivessem estado de
acordo numa falsa paz quietista. Assegurou depois que tudo isto se desenvolve cum Petro et sub Petro [6].
Podemos, pois, estar tranquilos que não há nenhum perigo de
possíveis rupturas ou rachaduras. O sínodo não é um parlamento, como o Papa
disse em outra ocasião; não é um lugar de confronto pelo poder ou para alcançar
objetivos mundanos; é o lugar do encontro, da escuta, do discernimento e das
decisões cum et sub Petro, com a
assistência do Espírito Santo que guia a Igreja.
Os escritos sobre o tema da família, as mesas redondas, os
simpósios são bem-vindos, e até são necessários para que se aprofundem os temas
concernentes à família, também aqueles mais espinhosos.
A intenção geral da Relatio Synodi e das questões nos Lineamenta para o próximo sínodo (4-25
de outubro de 2015) parece mais ser aquela de coletar aliados que de identificar
inimigos. É isso mesmo?
Cardeal Baldisseri:
Os termos aliados e inimigos extrapolam completamente do vocabulário sinodal. A
intenção do sínodo e daquilo que resulta desta experiência é fazer sinodalidade
no sentido amplo do termo que quer dizer participação na vida da Igreja segundo
as funções e os carismas de cada um e de suas instituições e trabalhar
conjuntamente, caminhar conjuntamente em tudo aquilo que concerne à
evangelização. A Relatio Synodi é o
resultado da reflexão dos padres sinodais que participaram da Assembleia de
outubro passado e se tornou os Lineamenta
para o sínodo de outubro próximo, a segunda etapa. A intenção de enviar o
documento com algumas perguntas foi a de envolver agora a base, as instâncias
interessadas, conhecer as reações, as recepções do mesmo e solicitar um
aprofundamento das temáticas, especialmente aquelas mais sensíveis, difíceis e
delicadas.
Participação
A intenção é aquela de recolher o
mais amplamente possível os pareceres e a experiência das comunidades cristãs.
O que aconselharia a um pároco para ele envolver a sua comunidade?
Cardeal Baldisseri:
Não se trata de recolher novamente as experiências e o vivenciado pelo povo,
contribuição que já foi recebida com o questionário do ano passado para a
preparação do sínodo de 2014.
Pretende-se envolver as pessoas, as dioceses, os párocos, as
instituições de todos os níveis, especialmente as acadêmicas, para obter
reflexões profundas e indicações pastorais sobre os temas mais importantes
assinalados no documento; ou temas a acrescentar porque ainda não incluídos ou
esquecidos.
Aos párocos direi que façam estudar, meditar a Relatio Synodi na própria paróquia e
responder às perguntas que são pertinentes à comunidade e à vida das pessoas,
não por certo àquelas que se referem à pesquisa científica, seja no campo
teológico, canônico e das ciências em geral.
Enviando o texto às Conferências episcopais e aos outros
organismos e pessoas de direito, esta Secretaria geral recomendou que os temas
recolhidos nos Lineamenta sejam
tratados a 360º [em todos os seus
aspectos] nas diferentes instâncias.
Já emergiram algumas indicações para
uma pastoral da família que não seja somente uma parte da pastoral, mas uma
atenção totalizante? Há alguma experiência que o impressionou particularmente?
Cardeal Baldisseri:
Foi muito focalizada a necessidade de um maior conhecimento do ensinamento da
Igreja sobre o matrimônio e a família e, ao mesmo tempo, a exigência de
preparar adequadamente os jovens ao matrimônio.
Não basta o curso dos noivos; é preciso estudar um percurso
de preparação, que alguns padres sinodais compararam a um catecumenato, o qual
começa muito antes do namoro, até da infância ou da adolescência, quando os
garotos começam a discernir e pensar em seu futuro e a qual vocação responder.
Outro tema que teve uma atenção de todos foi aquele da
aceleração dos procedimentos de nulidade matrimonial e aquele da educação
cristã nas famílias, sublinhando que a família é “Igreja doméstica”. Ali inicia
a fé cristã e ali se deve encontrar o ponto de referência primário e
determinante da educação cristã. A Igreja administra os sacramentos, ajuda e
supre, insere a pessoa na família de Deus, mas são os genitores, a família como
tal, que tem a tarefa nativa de educar na fé os seus membros.
Olhar amplo
O papel do Papa Francisco tem sido
central. A sinodalidade na Igreja parece ser uma de suas maiores preocupações.
Como a explicaria e como procura pô-la em execução?
Cardeal Baldisseri:
A importância da sinodalidade para o Papa Francisco aparece em toda a evidência
desde o início de seu pontificado, e sobre este ponto ele retorna com
frequência não só porque está em ato o sínodo sobre a família com uma dinâmica
nova, mas a ele retorna também em relação ao exercício do primado petrino, à
missão da Igreja, à evangelização em geral.
A sinodalidade ele a vê no interior da Igreja e em todos os
níveis; indica-a para as dioceses, as paróquias, as associações, os movimentos;
mas aquilo que chama atenção é sua intenção de estendê-la às confissões
cristãs, especialmente às Igrejas orientais e ortodoxas, que praticam há tempo
a sinodalidade, em vista de um efetivo ecumenismo, cujos desenvolvimentos podem
acelerar a unidade tão desejada dos cristãos e desejada por Cristo. O discurso
vai ainda mais além; a sinodalidade considera também o diálogo inter-religioso,
a relação com as religiões do mundo, com as quais é preciso confrontar-se e
trocar métodos e experiências, saberes e estratégias, como patrimônio
espiritual da humanidade.
O período em que agora vivemos, aquele intersinodal, é o
tempo oportuno, o momento importante deste percurso sinodal. O Papa Francisco
quer o envolvimento dos padres sinodais, dos bispos de todo o mundo e dos
fiéis. No seu discurso na conclusão do Sínodo disse que temos diante de nós um
ano para fazer amadurecer com verdadeiro discernimento as ideias propostas e
encontrar as soluções. O Papa é claro com estas palavras. Não devem existir
reticências, arrière pensée [trad.: dissimulação] ou medos na continuação do
trabalho de aprofundamento. A Igreja é guiada pelo Espírito Santo.
N
O T A S
[1] – Relatio
Synodi é o nome latino que se dá ao relatório final que foi produzido
pela Assembleia Sinodal Extraordinária de outubro passado, contendo suas
conclusões.
[2] – Lineamenta
é o texto-base sobre o qual se deverá refletir em preparação à 14ª Assembleia
Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos de outubro deste ano. Os Lineamenta é o relatório final do sínodo de outubro de 2014 (Relatio Synodi) acrescentado com as
perguntas para motivar a reflexão e participação de toda a Igreja. Para ter
acesso a esse importante documento, clique aqui.
[3] – Parresia
é um termo da língua grega que significa falar com franqueza, com sinceridade,
sem esconder o que se pensa.
[4] – Placet
é uma expressão do latim que significa “aprovação”.
[5] – Tradições
atávicas significa tradições herdadas/hereditárias que fazem parte de
uma cultura determinada.
[6] – cum Petro et sub Petro é uma expressão do latim que significa,
literalmente, “com Pedro e sob Pedro”, ou seja, em comunhão com Pedro, o qual
tendo sido o primeiro líder da Igreja cristã é figura de todos os papas.
Traduzido do italiano por Benno Dischinger com pequenas
alterações feitas por Telmo José Amaral de
Figueiredo. Para acessar a versão original italiana, clique aqui.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Espaço aberto – Sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015 – Pg. A2 –
Internet: clique aqui.
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