Tirar a máscara e sair à luz
PAPA FRANCISCO E CÚRIA FAZEM RETIRO ESPIRITUAL
Salvatore
Cernuzio
Continuam as
meditações do Padre Bruno Secondin nos Exercícios Espirituais.
No centro das
reflexões de ontem à tarde e na manhã de hoje estava o convite a livrar-se de
toda ambiguidade e viver uma vida autenticamente cristã.
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Pe. Bruno Secondin que está orientando os Exercícios Espirituais de Papa Francisco e da Cúria Romana |
"Tirar toda máscara”, “sair à luz” e ter a “coragem” de
uma vida autenticamente cristã. Se na manhã de ontem o padre Secondin convidava
a seguir o mandamento do Senhor a Elias de "ficar de lado" e deixá-lo
agir, na meditação da tarde – a segunda dos exercícios espirituais da Quaresma
em Ariccia [município italiano na região do Lácio] para o Papa e a Cúria -,
convida a uma ação direta para retomar com sinceridade nas mãos a própria
história e redescobrir a "verdade mais profunda de nós mesmos."
O carmelita segue ainda o caminho do profeta, como narrado
pelas Escrituras. Mas o faz por cenas, personagens, sugestões, por referências
e provocações, sem seguir qualquer ordem ou fio lógico das passagens do
Primeiro Livro dos Reis. No entanto, o pregador utiliza o capítulo 18 como base
para sua reflexão, que retrata o povo de Israel e o rei Acab esgotados por uma
longa fome causada pelo culto idólatra de Baal.
Elias, que sob as ordens do Senhor vivia na solidão, agora é
chamado por Deus para quebrar esta "clandestinidade” e apresentar-se a
Acab para trazê-lo de volta ao caminho certo. Um convite, portanto, para “sair
à luz” e livrar-se das “ambiguidades” atrás da qual, muitas vezes, os cristãos
se escondem. Muitas vezes – observou
Secondin – também nós vivemos na
‘clandestinidade’, escondidos por trás de uma religiosidade só exterior, privada
da coragem da verdade.
“Vai apresentar-te a Acab” diz Deus para Elias: ele que
queria desaparecer, agora deve ir ao encontro do perigo de encontrar-se cara a
cara com aquele rei que o considera um inimigo. Isso não é também uma
referência clara à nossa vida? Para
todos aqueles que, na Igreja, sempre fazem seus cálculos, se desculpam
constantemente e "se acovardam”, comentou o Padre Bruno.
Estes são "vítimas das palavras e das diplomacias",
disse; enquanto que, pelo contrário, Deus prepara para os cristãos sempre
"novas aventuras", das quais “ninguém pode escapar com a desculpa das
ameaças de um Acab de plantão”, nem por estar condicionados pelos prejuízos ou
pelas conveniências das “amizades e dos acordos”.
"Sair à luz”, então. Juntamente com Elias, o mesmo
convite é dirigido a Abdias, “mordomo” do rei Acab convidado pelo soberano para
contatar o profeta. Também esse personagem diz algo: Abdias – destacou Secondin
– vive de uma situação contraditória entre a sua pertença “a uma tradição
diferente” e o desejo de não renunciar “às vantagens do poder”. Como tantos,
hoje, ele é movido interiormente a defender a verdade, mas, com medo, a ponto
de não querer ousar para não perder as suas seguranças.
Para ele e para o povo, Elias dirige um forte apelo: “Até
quando pulareis de galho em galho?”. Em outras palavras, observou o Padre
Secondin, o profeta lhes diz: “Parem com essa palhaçada!”. O problema é que o
povo diante das intimidações do profeta nem sequer responde, cala-se, porque “o sistema matou a sua consciência".
Também isso é uma referência à realidade atual: “Quantas
vezes – exclamou o carmelita – ainda atualmente, os regimes, os sistemas
sangram os povos”. E quantas vezes
olhamos como “espectadores medrosos” as guerras travadas ou – no âmbito da vida
religiosa – ficamos maravilhados com “aparatos exagerados, megacatedrais, megacomplexos”,
esquecendo dos pobres e dos últimos.
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Papa Francisco e membros da Cúria Romana no ônibus que os conduzia ao município de Ariccia, local dos Exercícios Espirituais da Quaresma |
Este povo aniquilado precisa, portanto, de uma sacudida. Eis
então que Elias o coloca diante de uma prova de fogo: o confronto entre a
suposta força de Baal e aquela do Senhor de Israel. E o povo permanece
fascinado por esta “religiosidade espetacular”. Um pouco como acontece hoje quando a fé “é medida com as estatísticas” e se
resolve em “manifestações diante das quais não se sabe se estamos diante de um
espetáculo ou de verdadeira fé”.
O aspecto mais importante desta passagem é o gesto do
profeta que “se aproxima do povo para envolvê-lo”, revelou o Padre Secondin. E,
parou nesse ponto para continuar na meditação desta manhã, 24 de fevereiro. O
pregador começou com uma pergunta: “Temos a coragem de envolver o povo, ou perdemos
tempo sem um objetivo claro antes de questioná-lo? Tratamos as coisas
importantes entre poucos íntimos ou sabemos ter uma estratégia de visibilidade
que destrói o sistema?".
A experiência ensina que "certas questões
sensíveis" provocaram somente grandes “sofrimentos”, observou Padre Bruno,
exortando a “não esconder os nossos
escândalos”, porque é importante que “as vítimas da injustiça sejam levadas à
cura com a nossa humildade de reconhecer os erros”. Também isso é um modo
de “tirar a máscara” e “sair à luz”.
O reconhecimento das culpas na Igreja, porém, deve ser
medido. Muitas vezes a Igreja, ao longo dos séculos, cometeu atos violentos:
como Elias que – recordou o pregador – executou terrivelmente os profetas de
Baal, “também nós queimamos pessoas,
matamos”. E continuamos a fazer isso
ainda hoje, “sem a espada”, mas utilizando outras formas como a língua ou “o
teclado” de um computador que “mata mais do que a espada!”.
Continuando o caminho da meditação de ontem, Padre Secondin insistiu
para se ter a coragem de sair à luz e dizer a verdade sobre si mesmo, sem
anestesiar a consciência. A tudo isso acrescenta um outro passo a ser realizado
para aproximar-se sempre mais da conversão: percorrer “caminhos de liberdade”, talvez eliminando todas aquelas
atitudes que nos fazem “balançar de um lado para o outro”.
Um é justamente aquele culto “barulhento e
supersticioso" que até hoje encontramos e que recorda os rituais
violentos, "teatrais” com os quais o povo de Israel invocava Baal, que
Elias zomba porque "não edifica a verdadeira fé". Depois, toda a série de "ídolos": "Orgulho,
ambição, cultura, carreira...”.
Tudo isso torna instável – comentou Padre Bruno -, quando,
pelo contrário “não podemos duvidar da misericórdia de Deus que tudo seca, tudo
transforma". Elias, de fato, reconstrói um altar com as doze pedras que
recordam as doze tribos de Israel justamente porque quer "chamar todos a
uma identidade". E como o profeta, também nós devemos "nos dedicar a
despertar da consciência das pessoas", quem sabe, usando estratégias
inteligentes.
Antes de o fazer, no entanto, melhor parar por um momento e
perguntar a si mesmo. Por exemplo, sugeriu Secondin:
·
“O nosso coração pertence realmente ao Senhor”
ou nos contentamos com atitudes externas?
·
"A nossa oração é ousada e invoca o bem do
povo? É cadenciada por um sentido de Igreja?". Ou ainda:
·
"Sentimos a urgência de viver experiências
fortes, extraordinárias, que deixam uma marca, ou nos acomodamos?".
Traduzido pela equipe de Zenit com correções
realizadas por Telmo José Amaral de
Figueiredo.
Fonte: ZENIT.ORG –
Roma, 24 de fevereiro de 2015 – Internet: clique aqui.
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