Água e democracia - mais um alerta!
Silvio Caccia
Bava
Diretor e editor-chefe
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Os nossos políticos "dinossauros" comentando a crise de água: "Apoiando a campanha de economizar água, brindemos com whisky sem gelo, rindo daqueles que nos consideram em extinção" |
Estamos às vésperas de uma crise sem precedentes que tem seu
foco no abastecimento de água para várias regiões metropolitanas. São Paulo,
Campinas, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte já passam por situações de
escassez, mas nada parecido com o que se anuncia para o segundo semestre deste
ano.
As consequências são
graves:
·
indústrias, bares, restaurantes e outros
negócios fechando;
·
desemprego;
·
escolas sem aulas;
·
hospitais e equipamentos de saúde necessitando
de suprimento regular de água;
·
alimentos encarecendo; e, mais do que tudo,
·
nem uma gota de água nas torneiras de muitas
residências por mais de cinco dias.
·
A saúde pública, pelas precárias condições de
higiene, fica ameaçada.
·
Grandes mobilizações sociais, violência e
repressão vão estar presentes no cotidiano dessas regiões.
·
A instabilidade política se instala.
É um pesadelo que vai
se tornar realidade. E, por incrível que pareça, nenhum governante de qualquer dessas regiões apresentou para a
população da sua cidade um plano de contingência, agora um plano de emergência,
a fim de buscar a solidariedade da sociedade para enfrentar essa crise.
Tampouco o fizeram os governos de estados com a responsabilidade pela gestão
das políticas de abastecimento de água.
A urgência de
encontrar formas de enfrentar a falta de água é inquestionável. Todos os
esforços precisam ser feitos, especialmente para atender aos setores mais
empobrecidos, que não têm alternativas. Para
enfrentar a crise é preciso contar com o engajamento e a mobilização de toda a
sociedade. É como numa guerra, todos precisam se unir para enfrentar o
inimigo.
Para contar com a
mobilização de toda sociedade, porém, é preciso:
·
transferir a ela informações, responsabilidades
e poderes,
·
democratizar a gestão e abri-la para a
participação cidadã,
·
permitir o controle social das políticas
públicas.
·
No caso concreto, submeter à cidadania o plano
de emergência para enfrentar a escassez de água.
E não há ninguém fazendo isso.
Esse distanciamento
dos governos com o povo, no período crítico da falta de água, vai levar a
enfrentamentos. A água é vital, e quem tem sede fará qualquer coisa para
sobreviver. É para evitar essa situação de barbárie que precisamos afirmar o
interesse público acima de qualquer interesse privado e convocar a população a
se engajar em novos espaços de gestão criados para compartilhar o enfrentamento
da crise.
A falta de água não é
só responsabilidade de São Pedro. Ela é resultado:
·
do desmatamento da Amazônia;
·
do uso irrestrito da água pelo agronegócio e
pela mineração;
·
do desperdício, contaminação e falta de
reaproveitamento por parte da indústria;
·
da ocupação das áreas de mananciais;
·
da poluição dos rios e represas;
·
da falta de esgotos em nossas cidades.
O que acaba com a nossa água é o modelo de desenvolvimento que submete a sociedade aos interesses dos
distintos grupos empresariais, de banqueiros a exportadores de commodities.
Enfrentar a crise significa também olhar para o futuro.
Nossos governos, em sucessivas gestões, falharam no planejamento, execução e
controle das políticas de recursos hídricos e saneamento básico. Deveriam ter
defendido o interesse público, mas se submeteram à lógica do setor privado. Uma
lógica que, assumida pelos governantes, demonstra a captura da esfera da
política pelos grandes grupos empresariais e sua doutrina neoliberal. Não foi
um erro de gestão trazer a crise para os dias de hoje, foi uma opção.
Assim, é preciso também considerar o modelo de gestão dessa
política, recuperar seu sentido de
política em defesa do interesse público e criar novos modelos de gestão em que
o Estado e a cidadania tenham maior peso nas decisões que o setor privado.
A água não pode ser
tratada como mercadoria, ela é essencial para a vida, ela é um direito
humano, um bem público. Todos têm direito à água para beber, para cozinhar,
para higiene pessoal. No entanto, afirmar esse direito é uma tarefa difícil e
complexa. Para superar as causas da
crise hídrica é preciso enfrentar grupos poderosos, com bancadas parlamentares
para defender seus interesses no Congresso, com muito dinheiro para influir na
política.
Com o bloqueio, ou captura, dos canais de negociação
propiciados pela democracia, o caminho das ruas é o leito natural da expressão
do desespero social, da indignação, da revolta. Aí se abre o imponderável. E os
governos, neste momento, só têm a repressão como resposta às mobilizações sociais.
A pressão dos movimentos sociais e das manifestações de rua
pode abrir espaço para a proposta de
reforma política com Constituinte independente – a única maneira de oxigenar a democracia brasileira. Para
isso, contudo, é preciso criar uma ampla
coalizão na sociedade civil, como no tempo das Diretas Já!, a fim de garantir o sentido democrático dessas
mudanças.
Fonte: Le Monde
Diplomatique Brasil – Editorial – Ano 8 – Número 91 – Fevereiro 2015 – Pg.
3 – Internet: clique aqui.
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