E agora, Dilma? Tudo ou nada leva à solidão política
Ricardo Kotscho*
Três pragas já rondavam o Palácio do Planalto antes de
domingo para tirar o sono da presidente Dilma Rousseff: Petrolão [o escândalo de corrupção na Petrobrás],
recessão e apagão.
Agora, com a humilhante derrota sofrida contra o PMDB de Eduardo Cunha na eleição para o comando
da Câmara [dos Deputados, Brasília],
apareceu mais uma: a solidão política.
A cada dia, aumenta o número de opositores ao governo e diminui o de aliados.
É só fazer as contas: após as eleições de outubro, a
presidente Dilma contava com uma ampla maioria da base aliada formada por 329
deputados eleitos, contra 181 da oposição.
Anunciado o resultado da votação para a presidência da
Câmara, na noite de domingo, o placar simplesmente se inverteu: somando os 267 votos de Cunha, deputado
federal do PMDB fluminense, um desafeto declarado do governo, aos 100 da oposição de Júlio Delgado
(PSB, apoiado pelo PSDB), temos 367
deputados, contra apenas 136 de Arlindo Chinaglia, o candidato oficial do
governo.
Foi o que restou de deputados fiéis ao governo com a
estratégia do "tudo ou nada" adotada pelo novo comando político do
Palácio do Planalto para derrotar Eduardo Cunha.
Pior do que isso: na sucessão de lambanças em torno da
candidatura de Chinaglia, o trio formado pelos ministros planaltinos Aloizio Mercadante, Pepe Vargas e Miguel Rossetto, a tropa de choque de Dilma, o PT ficou sem nenhuma das 11 cadeiras da direção da Câmara dos
Deputados. Ou seja, ficou com nada.
Mercadante já era o homem forte de Dilma ao final do
primeiro governo, contestado no próprio partido e pelo ex-presidente Lula;
Rossetto e Vargas foram recrutados por Dilma na Democracia Socialista gaúcha,
uma tendência minoritária do PT.
Pela primeira vez na era PT [Partido dos Trabalhadores], Lula
sumiu de cena nas negociações para a formação do ministério e das novas
Mesas que comandarão o Congresso Nacional nos próximos dois anos e acabaram
jogando os descontentes do PMDB no colo da oposição.
A maior derrota política sofrida por um governo do PT, desde
2003, começou, na verdade, a ser plantada na formação do novo ministério, este verdadeiro saco de gatos que junta nulidades notórias com políticos de passado
pouco recomendável.
De onde os sábios do Planalto tiraram esta ideia de jerico
para diminuir a força do PMDB na Esplanada, em favor dos novos partidos de Cid Gomes (PROS) e Gilberto Kassab (PSD), dois políticos de expressão apenas regional,
além de abrigar uma penca de nanicos? Deu no que deu.
No próprio domingo, antes mesmo do vexame anunciado do
candidato do governo, Dilma convocou os ministros da (des)articulação política
para uma reunião de emergência nesta segunda-feira. O governo quer propor um
"acordo pela governabilidade" com o PMDB do agora todo-poderoso Eduardo Cunha, que vai comandar a
agenda política daqui para a frente.
Agora??? Com sangue nos olhos, Cunha estaria interessado em
qualquer tipo de acordo, a esta altura do campeonato, depois da blitzkrieg desfechada contra ele nas
últimas duas semanas, com a utilização de todos os recursos oficiais
imagináveis e não imagináveis, para evitar a traição dos aliados?
Conseguiram apenas aumentar a bronca dos parlamentares com o
PT e o governo, jogar água no moinho do suprapartidário desafeto e atiçar a
oposição formal, que perdeu as eleições de outubro, mas está toda fagueira
chegando ao poder de fato, agora aliada ao PMDB de Cunha e da dissidência
governista no Senado, engordada por partidos que eram da base aliada e foram desgarrando
a cada movimento da tropa de choque dos trapalhões.
Fizeram strike**.
Posso imaginar o clima na abertura desta reunião de emergência.
_ E agora, presidente Dilma?
Se algum ministro tiver coragem de perguntar o que todo
mundo tem vontade de saber, a presidente poderá retrucar aos seus companheiros
de naufrágio:
_ E agora??? E agora???, pergunto eu!!!, meus queridos.
Lamento muito ter que dizer isso, mas este segundo governo Dilma começa em ritmo de Quarta-Feira de Cinzas
antes mesmo do Carnaval. E corre o
risco de acabar antes de começar.
Vida que segue.
*
Ricardo Kotscho é jornalista desde 1964, já trabalhou
em praticamente todos os principais veículos da imprensa brasileira (jornais,
revistas e redes de TV), nas funções de repórter, editor, chefe de reportagem e
diretor de redação. Foi correspondente na Europa nos anos 1970 e exerceu o
cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República no
governo Luiz Inácio Lula da Silva, no período 2003-2004. Ganhou os premios
Esso, Herzog, Carlito Maia e Cláudio Abramo, entre outros. Em 2008, foi um dos
cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Imprensa da
ONU. Tem 19 livros publicados entre eles, “Do Golpe ao Planalto: Uma vida de
Repórter” (Companhia das Letras) e “A Prática da Reportagem” (Ática).
**
Strike
é uma palavra inglesa que significa, entre outras coisas, greve, golpear,
acertar, atacar, enfiar etc. Em boxe significa um soco, um forte golpe no
adversário; no basquete significa uma “enfiada” de bola no cesto, lance de
ousadia e força. Aqui, neste artigo, a palavra tem este último sentido.
Fonte: Balaio do
Kotscho – blog – Publicado em 02/02/2015 às 11h19 – Internet: clique aqui.
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