REFORMA É PARA MELHORAR, NÃO PARA PIORAR!
Editorial
Em julho de 2013,
no calor das manifestações que tomaram conta do País, a presidência da Câmara
dos Deputados criou um grupo de trabalho, sob a coordenação do então deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), para
estudar e apresentar propostas referentes à reforma política. Desse grupo, saiu
a Proposta de Emenda à Constituição
(PEC) 352/13. Na terça-feira passada, em um dos primeiros atos como
presidente da Câmara, o deputado Eduardo
Cunha (PMDB-RJ) deu andamento à tramitação da proposta, pondo em votação
diretamente no plenário a admissibilidade da PEC, como lhe permite o Regimento
Interno da Casa, para acelerar o processo. O próximo passo é a criação de uma
comissão especial para analisar a proposta.
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Eduardo Cunha - Deputado Federal (PMDB - RJ) e Presidente da Câmara dos Deputados |
Não há o que objetar à decisão do presidente da Câmara de
dar prioridade à reforma política. Mas, tendo em vista o teor da atual proposta
e as recentes declarações do deputado Eduardo Cunha - que disse ser perigosa a
tentativa de criminalizar o financiamento privado de campanha -, essa pressa em pôr em andamento a
tramitação da PEC 352/13 não parece estar muito sintonizada com os apelos da
sociedade por uma nova política.
·
Além de prever
o voto facultativo,
·
o fim da
reeleição (para presidente, governador e prefeito),
·
a cláusula
de barreira para partidos pequenos e
·
a coincidência
das datas das eleições a cada quatro anos,
·
a PEC 352/13 mantém o atual sistema de financiamento das campanhas eleitorais, com a
possibilidade de que pessoas jurídicas façam doações aos partidos políticos.
E é aí que reside o perigo.
Se há uma mudança que
pode significar uma efetiva melhora do sistema político brasileiro, essa
mudança é a proibição do financiamento das campanhas eleitorais por parte das
empresas. O motivo é simples: as empresas não têm direito a voto. E, no
momento em que financiam campanhas eleitorais, as empresas assumem um
protagonismo eleitoral que não lhes corresponde, ao influenciar o voto de quem
detém o direito a ele - o cidadão.
Os direitos políticos correspondem ao cidadão. E daí provém
a legitimidade do financiamento privado de campanhas eleitorais por parte das
pessoas físicas. Excluir as pessoas físicas da possibilidade de patrocinarem as
suas causas políticas seria limitar a sua participação política, participação
esta que não se resume a votar, mas inclui - entre tantos outros aspectos - a
promoção e divulgação das suas ideias políticas.
O motivo que leva a
permitir o financiamento de campanhas eleitorais por parte de pessoas físicas é
o mesmo que leva a concluir pela proibição do financiamento de campanhas
eleitorais por parte de pessoas jurídicas. O critério está em ter ou não
ter direitos políticos, já que fazer doações a partidos políticos é uma forma
de participar do processo político.
Além do mais, o fim
do financiamento das campanhas eleitorais por parte das pessoas jurídicas
possibilitaria uma relação mais saudável entre empresas e governo.
Atualmente, as grandes doadoras de campanha são as empresas com forte atuação
em projetos públicos, e essa proximidade de interesses - mesmo que não seja
ilegal - não contribui para a lisura do processo democrático.
Por tudo isso, é
perigosa a atual redação da PEC 352/13. A proposta de emenda à Constituição
implica mais do que uma mera manutenção do atual sistema de financiamento
eleitoral. Significaria dar respaldo
constitucional ao atual modelo.
E aqui pode estar o motivo da pressa de Eduardo Cunha -
querer se adiantar ao julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) a respeito
da constitucionalidade das doações de pessoas jurídicas aos partidos políticos.
O processo no STF, no qual seis ministros já votaram a favor da proibição desse
tipo de doação, está suspenso desde abril do ano passado, em razão de um pedido
de vista do ministro Gilmar Mendes.
A PEC 352/13 seria uma reforma que deixaria o sistema ainda
pior do que está, ao conferir status constitucional a um tipo de financiamento
que contraria os princípios democráticos. E parece que não era bem isso o que a
sociedade queria ao pedir por uma reforma política. Reforma é para melhorar, não
para piorar.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Notas e Informações – Domingo, 8 de fevereiro de 2015 – Pg. A3 –
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