ESTÁ CHEGANDO PERTO...
O domínio dos fatos
Dora Kramer
José Dirceu só fez o que dizem que fez porque atuava
como
“capitão do time” de Lula
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Luiz Inácio Lula da Silva (à esquerda) - Presidente da República à época em que José Dirceu (à direita) foi o poderoso e influente Ministro da Casa Civil |
Vamos
ao ponto: José Dirceu só fez o que os investigadores da Operação Lava Jato
dizem que ele fez na Petrobrás e cercanias da máquina pública porque a
instância superior a ele deixou que fizesse.
Trata-se
de uma conclusão lógica baseada numa série de evidências que agora ganham
consistência com a justificativa para decretação da prisão preventiva
apresentada em conjunto pelo juiz Sérgio Moro, o Ministério Público e a Polícia
Federal. Foram contundentes quanto ao marco inicial da corrupção sistêmica na
Petrobrás e ao papel de José Dirceu no esquema.
Segundo
eles, na condição de ministro-chefe da
Casa Civil, Dirceu instituiu a
prática de maneira organizada, dela se beneficiou e a partir daquela
sistemática foi “um dos líderes” de uma engrenagem de corrupção posta em
funcionamento para beneficiar políticos, partidos, funcionários e empresas
contratadas pelo governo.
Este
é o fato relatado a partir da coleta de
provas testemunhais e documentais. Resta saber – e comprovar – se a
instância superior a José Dirceu, a Presidência da República à época ocupada
por Luiz Inácio Lula da Silva,
detinha o domínio daqueles fatos.
Os
investigadores já deram várias demonstrações de que não lhes falta rumo. Sabem
aonde querem chegar, mas percorrem o caminho passo a passo, a fim de evitar
movimentos em falso que já puseram a perder outras operações em função de
nulidades judiciais.
Obviamente
as investigações se direcionam na busca de evidências que permitam desvendar a cadeia de comando até o topo.
Acima dele só havia o então presidente que lhe conferiu delegação para transitar
no governo na posição de “capitão do time”. Não será surpresa que venham a se interessar pelos sinais exteriores de
riqueza de Lula.
Caso
venha a se pronunciar, contrariando seu feitio silente ante a adversidade, o
ex-presidente certamente continuará negando que tivesse conhecimento sobre as
atividades extracurriculares de seu braço direito. É o que vem fazendo desde
quando disse ao País que havia sido “traído” sem, contudo, apontar traidores
nem tomar providências contra os malfeitores.
Olhando
em retrospectiva, suas atitudes de lá para cá não ajudam a aferição de
credibilidade às negativas e às alegações de desconhecimento. Inclusive porque Lula pareceu muito seguro em diversas
ocasiões em que assegurou ao Brasil a inocência de seu partido e subordinados.
O mensalão era, em seu dizer, “uma
farsa”. Tal assertividade faz supor que tenha procurado se inteirar dos
acontecimentos. Portanto, não pode alegar desconhecê-los.
Nesse
caso, ou foi feito de tonto não só
por José Dirceu, mas por toda gama de envolvidos, incluindo personagens que
levava nas viagens oficiais e dirigentes de empresas que lhe patrocinaram
viagens e palestras, ou se
deliberadamente omitiu.
Um
dos problemas para quem constrói narrativas mutantes é o efeito cumulativo do
tempo. Hoje, à luz das acusações que pesam sobre José Dirceu, uma frase que se perdeu no emaranhado do processo do
mensalão ganha conotação especial. “Nunca
fiz nada que o Lula não soubesse”, disse ele, em meio à eclosão daquele
escândalo.
Nessa
certeza obviamente se basearam os interessados em participar das triangulações
contratuais no âmbito do aparelho de Estado, dado que Dirceu só poderia ser reconhecido como interlocutor abalizado se os
interessados o reconhecessem como tal.
Sem
o pressuposto de que os alicerces eram firmes o suficiente para não sofrerem
abalos em decorrência de eventual decisão saneadora por parte do presidente da
República, o esquema não poderia ter se mantido em pé.
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