Jovem brasileira: longe da escola e grávida!
Jairo Bouer
Psiquiatra
Se a distância da escola aumenta as chances da gravidez
na adolescência, a gestação nessa fase da vida
também afasta essas meninas ainda mais da escola.
Nova
rodada da Pesquisa Nacional de Saúde
(PNS), divulgada pelo IBGE na sexta-feira, reforça que a associação entre a gestação na adolescência e baixa escolaridade
segue forte no Brasil. A PNS fez extensiva investigação em mais de 80 mil lares
em 2013. A idade da primeira gestação no
País aconteceu, em média, aos 21 anos. Entre
as garotas com menos tempo na escola, essa idade foi de 19 anos.
O
uso de métodos contraceptivos também foi mais baixo entre as menos instruídas. Naquelas com ensino fundamental incompleto,
menos da metade já havia usado alguma forma de prevenção da gestação. Esse
número salta para quase 70% entre aquelas com ensino superior completo.
Em
julho, relatório da Unicef
(Plataforma dos Centros Urbanos), já comentado nessa coluna, com dados de oito
capitais, revelou que em algumas áreas
do País 1 em cada 4 partos acontece em mães entre 10 e 19 anos.
Os
dados da Unicef já mostravam a ligação
da gravidez na adolescência com a exclusão social. As garotas jovens eram
mães de 8 em cada 100 bebês que nasceram nos territórios com baixa incidência
de gravidez na adolescência, ou seja, regiões em que as condições de vida são
melhores. Essa proporção subia para 26 em cada 100 bebês (aumento de 2 vezes)
nos territórios onde as condições são mais precárias.
Em
São Paulo, por exemplo, dados do Datasus,
de 2012, mostram que em bairros da
região central, com bom acesso da população à educação e proteção social, a
taxa de gravidez na adolescência é de menos de 1%. Já na periferia, com menos equipamentos de
educação, lazer e cultura, esse número
ultrapassa 18%.
Embora
nas últimas décadas o País tenha conseguido diminuir, de forma importante, as taxas de gravidez na adolescência, ela
ainda é uma questão preocupante em
determinadas regiões (como Norte e Nordeste), em determinados territórios (áreas mais pobres dos centros urbanos)
e nas populações com menor acesso à educação.
Diferenças
seguem na vida
Outros
dados da PNS sugerem que essas diferenças continuam ao longo da vida das
mulheres: entre as adultas, na faixa dos
18 aos 49 anos, quase 70% já tinham engravidado pelo menos uma vez na vida. Já
entre as que não completaram o fundamental, esse número é mais elevado: 87%.
O número de abortos espontâneos e provocados também é mais alto nas mulheres
com menor instrução. Ainda de acordo com o IBGE, essas taxas também são mais
elevadas na população negra, quando comparadas à população branca.
A distância da escola é apenas um dos
indicadores das dificuldades enfrentadas por essas garotas.
- A ausência de um projeto de vida,
- a precariedade da estrutura familiar,
- a falta de poder de decisão frente ao parceiro,
- as falhas de informação sobre contracepção,
- a maternidade como um “papel” no mundo,
- a ilusão de que vão estabilizar a relação com o pai da criança, entre outras situações, só reforçam essa exclusão social.
Se
a distância da escola aumenta as chances da gravidez na adolescência, a
gestação nessa fase da vida também afasta essas meninas ainda mais da escola. A maternidade precoce é a principal causa
de evasão escolar. É uma espécie de círculo vicioso, que só aumenta os
percalços que boa parte dessas garotas segue enfrentando no seu dia a dia.
Comentários
Postar um comentário