CATEQUESE DO PAPA: a importância da festa na família
Vaticano
A festa é uma das dimensões marcam o
ritmo da vida familiar. É uma “invenção”
de Deus: o relato da criação, no Gênesis, fala que Deus repousou no sétimo dia. Assim, aprendemos que é preciso
dedicar um tempo para contemplar e regozijar-se com o trabalho bem feito.
A festa, portanto, não é sinônimo de preguiça, mas tempo de dirigir um olhar amoroso e agradecido a tantas realidades que
nos circundam:
- os filhos,
- os netos,
- a nossa casa,
- os amigos,
- a nossa comunidade.
A festa também possui uma
dimensão sagrada. É um Mandamento que tem
por fim lembrar o homem que ele foi criado à imagem de Deus e que ele é senhor
do trabalho, não seu escravo. Por isso, a
obsessão pelo lucro que torna tantas pessoas escravas do trabalho é algo
contrário à dignidade humana, bem como a ganância que leva querer transformar o descanso num negócio, para
ganhar dinheiro.
Acima
de tudo, a festa é o tempo do encontro
com Deus. Na Eucaristia dominical,
Jesus nos dá a sua presença, o seu amor, o seu sacrifício, transfigurando todas
as realidades, a começar pela própria vida familiar.
Leia abaixo, na íntegra, a
catequese papal:
CATEQUESE
Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje abrimos um pequeno percurso de
reflexão sobre três dimensões que articulam, por assim dizer, o ritmo da vida
familiar: a festa, o trabalho, a oração.
Comecemos pela festa. Hoje falaremos da
festa. E logo dizemos que a festa é uma invenção de Deus. Recordemos a
conclusão do relato da criação, no Livro do Gênesis, que ouvimos: “Tendo Deus
terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. Ele
abençoou o sétimo dia e o consagrou, porque nesse dia repousara de toda a obra
da Criação” (2, 2-3). O próprio Deus nos ensina a importância de dedicar um tempo
para contemplar e desfrutar daquilo que no trabalho foi bem feito. Falo de
trabalho, naturalmente, não só no sentido do ofício e da profissão, mas no
sentido mais amplo: toda ação com que nós homens e mulheres podemos colaborar
para a obra criadora de Deus.
Portanto, a festa não é a preguiça de
sentar em uma poltrona, ou a sensação de uma vã evasão, não, a festa é, antes
de tudo, um olhar amoroso e grato sobre o trabalho bem feito; festejamos um
trabalho. Também vocês, recém-casados, festejam o trabalho de um belo tempo de
noivado: e isso é belo! É o tempo de olhar os filhos, os netos, que estão
crescendo, e pensar: que belo! É o tempo de olhar para a nossa casa, os amigos
que hospedamos, a comunidade que nos cerca, e pensar: que coisa boa! Deus fez assim
quando criou o mundo. E continuamente faz assim, porque Deus cria sempre,
também neste momento!
Pode acontecer que uma festa chegue em
circunstâncias difíceis ou dolorosas, e se celebra talvez com “nó na garganta”.
No entanto, mesmo nestes casos, pedimos a Deus a força de não esvaziá-la
completamente. Vocês mães e pais sabem bem disso: quantas vezes, por amor aos
filhos, são capazes de sugar o sofrimento para deixar que eles vivam bem a
festa, saboreiem o sentido bom da vida! Há tanto amor nisso!
Também no ambiente de trabalho, às vezes –
sem omitir os deveres! – nós sabemos “infiltrar” qualquer faísca de festa: um
aniversário, um matrimônio, um novo nascimento, bem como uma despedida ou uma
chegada…é importante. É importante fazer festa. São momentos de familiaridade
na engrenagem da máquina produtiva: nos faz bem!
Mas o verdadeiro tempo da festa suspende o
trabalho profissional e é sagrado, porque recorda ao homem e à mulher que foram
feitos à imagem e semelhança de Deus, que não é escravo do trabalho, mas
Senhor, e portanto também nós nunca devemos ser escravos do trabalho, mas
“senhor”. Há um mandamento para isso, um mandamento que diz respeito a todos,
ninguém excluído! E em vez disso sabemos que há milhões de homens e mulheres e
até mesmo crianças escravos do trabalho! Neste tempo há escravos, são
explorados, escravos do trabalho e isso é contra Deus e contra a dignidade da
pessoa humana! A obsessão do lucro econômico e a eficiência da técnica colocam
em risco os ritmos humanos da vida, porque a vida tem os seus ritmos humanos. O
tempo do repouso, sobretudo aquele dominical, é destinado a nós para que
possamos desfrutar daquilo que não se produz e não se consome, não se compra e
não se vende. E em vez disso vemos que a ideologia do lucro e do consumo quer
“abocanhar” também a festa: também essa às vezes é reduzida a um “negócio”, a
um modo de fazer dinheiro e de gastá-lo. Mas é para isso que trabalhamos? A
ganância de consumir, que comporta o desperdício, é um vírus ruim que, entre
outros, nos faz reencontrar-nos, ao final, mais cansados que antes. Prejudica o
trabalho verdadeiro e consome a vida. Os ritmos indisciplinados da festa fazem
vítimas, muitas vezes os jovens.
Enfim, o tempo da festa é sagrado, porque
Deus o habita de modo especial. A Eucaristia dominical leva à festa toda a
graça de Jesus Cristo: a sua presença, o seu amor, o seu sacrifício, o seu
fazer-se comunidade, o seu estar conosco… E assim cada realidade recebe o seu
sentido pleno: o trabalho, a família, as alegrias e os cansaços de cada dia,
também o sofrimento e a morte; tudo é transfigurado pela graça de Cristo.
A família é dotada de uma competência
extraordinária para entender, orientar e apoiar o autêntico valor do tempo da
festa. Mas que belas são as festas em família, são belíssimas! E em particular
de domingo. Não é por acaso que as festas em que há lugar para toda a família
são as que têm mais sucesso!
A própria vida familiar, olhada com os olhos
da fé, nos parece melhor que os cansaços que nos custa. Aparece-nos como uma
obra de arte de simplicidade, bela justamente porque não é artificial, não é
fingida, mas capaz de incorporar em si todos os aspectos da vida verdadeira.
Aparece-nos como uma coisa “muito boa”, como Deus disse ao término da criação
do homem e da mulher (cf. Gn 1, 31). Portanto, a festa é um precioso presente
de Deus; um precioso presente que Deus deu à família humana: não a estraguemos!
Tradução de Jéssica Marçal.
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