SEITA USARIA FIÉIS COMO ESCRAVOS!
Samantha Silva
Seis líderes de seita religiosa são presos em operação
da Polícia Federal
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Delegados da Polícia Federal durante coletiva de imprensa em Varginha, MG (Foto: Samantha Silva/G1) |
Seis
líderes de uma seita religiosa foram presos durante uma operação realizada pela
Polícia Federal (PF), na manhã desta segunda-feira (17 de agosto), em Minas
Gerais, Bahia e São Paulo. A seita conhecida como "Comunidade Evangélica Jesus, a verdade que marca", é
suspeita de manter fiéis em situação
análoga à escravidão em propriedades rurais e empresas em Minas Gerais e Bahia,
e ainda se apoderar de todos os bens das vítimas.
Segundo
a PF, o pastor que é um dos principais líderes da organização foi preso em
Pouso Alegre (MG), e outras cinco pessoas, que formariam a cúpula da seita
religiosa, foram detidas em Minas Gerais e Bahia.
Além
disso, foram bloqueados bens que pertencem aos líderes da seita, entre eles 39 imóveis rurais em Minas Gerais e Bahia,
além das contas físicas e jurídicas dos envolvidos. Também foram apreendidos
documentos e computadores.
A
polícia pediu ainda o bloqueio pelo
Detran de mais de 100 veículos que pertenciam à seita, incluindo carros de
luxo.
Os
suspeitos estão presos temporariamente por cinco dias, podendo ter a prisão
prorrogada por mais cinco dias. Eles serão levados para presídios em Três
Corações (MG), São Paulo e Bahia.
Os envolvidos podem
responder pelos crimes de redução de pessoas à condição análoga à de escravo,
tráfico de pessoas, estelionato, organização criminosa, falsidade ideológica e
lavagem de dinheiro. A pena pode chegar a 30 anos de prisão.
SEITA
RELIGIOSA
De acordo
com o delegado da Polícia Federal em Varginha (MG), João Carlos Girotto, os fiéis frequentavam uma igreja com sede na
capital de São Paulo e, em seguida, eram convencidos a ir para o interior do
estado, com uma mudança completa de vida.
"[Eles
eram levados para o interior] sob a promessa de que viveriam em comunidades
onde vigeria o princípio da igualdade absoluta. Todos os bens seriam de todos.
Ao adentrarem na seita, as pessoas são convencidas a entregarem todos os seus
bens, móveis e imóveis, e na sequência são transferidas para fazendas, onde
trabalham sem remuneração. Lá eles também têm a liberdade cerceada e, ao irem
para as cidades, são escoltadas por membros da seita", afirma Girotto.
Ao entrarem para a seita, os
fiéis assinavam um termo de doação de todos os seus bens. Nas fazendas da
organização, trabalhavam executando atividades agrícolas e também em postos de
combustíveis e restaurantes. Os
funcionários assinavam recibos de pagamento pelos serviços, mas não recebiam os
salários, que ficavam com a seita.
"[Os
líderes conseguiam] um lucro exorbitante com o trabalho deles e doações",
diz o delegado da PF. A estimativa é que
o patrimônio recebido em doações dos fiéis chegue a pouco mais de R$ 100
milhões. Parte do dinheiro teria sido convertida em grandes fazendas, casas
e veículos de luxo.
Ainda
segundo o delegado, a organização teve
início em 2007 nas cidades de Ribeirão Preto (SP) e São José do Rio Preto (SP), e em seguida foi transferida em 2012 para o interior de Minas Gerais.
Após
a operação da Polícia Federal nas fazendas da região, em 2013, a seita começou
a se transferir para a Bahia. "Assim
que a polícia começava a investigar a atuação deles em determinados lugares,
eles se transferiam para outras regiões", afirma o delegado da PF
Thiago Severo de Rezende.
As
propriedades doadas à instituição eram automaticamente vendidas e os valores
transferidos para os líderes da seita. A
organização ainda usava "laranjas", que agiam como sócios das
empresas, para quem os valores eram transferidos. Os contratos sociais
dessas empresas eram alterados constantemente, o que dificultava o trabalho da
polícia.
"Essas
pessoas não tinham renda para justificar esses lucros e, por isso, nós fomos
rastreando aos poucos esses sócios", completa Girotto.
PERFIL
DAS VÍTIMAS
Segundo
o delegado da Polícia Federal que preside a investigações, Thiago Severo de
Rezende, as vítimas estavam em um estado
de fragilidade emocional muito grande, geralmente com problemas familiares.
Entre os membros, há desde
pessoas simples, sem bem nenhum, como também alguns que possuíam propriedades e
dinheiro que eram passados à instituição.
Nas
fazendas da seita onde viviam, os fiéis se dividiam em moradias comunitárias. A partir do momento em que entravam na
seita, elas viviam em isolamento total, sem contato com as famílias, e
acreditavam que estavam fazendo tudo pela comunidade.
"Grande parte das pessoas não entendem que
são exploradas. Elas ainda acham que a polícia está perseguindo a comunidade",
diz Rezende.
Segundo
o delegado Girotto, entre as vítimas, existem dois servidores públicos que
doaram todos os seus bens e algumas pessoas que estavam sem contato com a
família há mais de sete anos.
A polícia acredita que a
seita tenha cerca de 6 mil fiéis que vivem nas comunidades. Em uma próxima etapa da
operação, as propriedades devem ser devolvidas às pessoas e todos os direitos
trabalhistas e salários devem ser pagos às vítimas.
Ainda
segundo os delegados, a igreja em São Paulo continua em funcionamento e não é
investigada pela polícia. A seita religiosa funcionaria de forma desvinculada à
igreja.
Assista vídeo com o relato das ações da Polícia Federal,
clicando sobre a imagem abaixo:
OPERAÇÃO
"DE VOLTA PARA CANAÃ"
Na
operação "De volta para Canaã", estão
sendo cumpridos 129 mandados judiciais, entre eles seis de prisão
temporária, seis de busca e apreensão e 47 de condução coercitiva, além de 70
mandados de sequestro de bens, envolvendo imóveis, veículos e dinheiro.
Na
Bíblia, Canaã se refere à terra prometida por Deus ao seu povo, o que motivou o
longo êxodo dos hebreus para a terra de Israel. Em 2013, a PF já havia
deflagrado a "Operação Canaã" em cidades de Minas Gerais, e nesta
etapa, a operação foi nomeada "De volta para Canaã".
Entre
os delegados da Polícia Federal que participaram da operação estão João Carlos Girotto e Thiago Severo Rezende, da Polícia
Federal em Minas Gerais, e o chefe da Unidade de Repressão ao Tráfico de
Pessoas, do Departamento da Polícia Federal em Brasília (DF), Alexander Taketomi.
As
investigações apontaram que os dirigentes da seita religiosa estariam mantendo
pessoas em regime de escravidão nas fazendas do Sul de Minas, onde desenvolviam
suas atividades e rituais religiosos.
No
Sul de Minas, os mandados expedidos pela 4ª Vara Federal em Belo Horizonte (MG)
estão sendo cumpridos nas cidades de Pouso Alegre, Poços de Caldas,
Andrelândia, Minduri, São Vicente de Minas e Lavras. Além de Minas Gerais,
também há mandados sendo cumpridos em São Paulo e nas cidades baianas de
Carrancas, Remanso, Marporá, Barra, Ibotiram e Cotegipe.
OPERAÇÃO
"CANAÃ" EM 2013
A
seita começou a ser investigada em 2011, e os trabalhos resultaram na
deflagração da "Operação
Canaã" em 2013, quando a Polícia Federal, o Ministério do Trabalho e
Emprego e o Ministério Público do Trabalho fizeram inspeções em propriedades
rurais. As precárias condições de
alojamento e trabalho foram denunciadas aos órgãos.
Na
época, cerca de 800 integrantes da
organização moravam em cinco fazendas em São Vicente de Minas e Minduri.
Conforme as investigações da época, foi identificado um sofisticado esquema de
exploração do trabalho humano e lavagem de dinheiro levado a cabo por
dirigentes e líderes religiosos.
Durante
a operação, dois membros da seita
"Comunidade Evangélica Jesus, a verdade que marca" foram presos por
apropriação indébita de cartões do programa "Bolsa Família" e de
aposentadoria. Com eles, foram encontrados cartões do programa e da
Previdência Social que, segundo o delegado que comandou a operação, João Carlos
Girotto, pertenciam a integrantes da seita.
Para
a polícia, apesar de se organizarem em
associações comunitárias sem fins lucrativos, a seita funcionava como uma
empresa comercial. Apesar da suspeita de que seguidores trabalhavam
ilegalmente em fazendas e comércios da igreja, na época não foi comprovado o
trabalho escravo.
Segundo
a Polícia Federal, a seita teve origem
em Ribeirão Preto (SP) e São José do Rio Preto (SP), mas em 2012, mudou-se
para Minas Gerais. O grupo religioso atua nas cidades mineiras de Minduri,
Andrelândia, Madre de Deus e São Vicente de Minas.
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