UM SONHO DE 500 ANOS
SÉRGIO AUGUSTO
Em um mundo que, por vezes, se revela um tanto quanto
distópico,
ainda há lugar para utopias?
Faz
sentido, neste ambiente de descrença e desilusões em que vivemos, acreditar em
utopias? [1] Ou, justamente por isso,
tornaram-se elas bem mais necessárias? De que utopias falamos? Políticas?
Biológicas? Tecnológicas? Quais quimeras (ainda) alimentamos?
Por
acreditar que a crença no fim das utopias é uma canoa tão furada quanto a do
fim da história, o professor Adauto
Novaes abriu espaço em seu ciclo anual de conferências em torno do tema das
Mutações para fazer cessar o “triste
silêncio” imposto ao pensamento da utopia e buscar respostas às perguntas do parágrafo
anterior - e a outras mais. Sempre à frente do núcleo de reflexão Artepensamento, de uns tempos para cá de
parceria com o Sesc-São Paulo,
Novaes inaugura “O Novo Espírito Utópico” no próximo dia 11, na Maison de
France do Rio, com uma palestra do professor
Francis Wolff, um dos 22 conferencistas do ciclo, que a partir do dia 12 se
estenderá a São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.
Como
estamos às vésperas de celebrar os 500
anos da palavra utopia e do romance
filosófico de Thomas Morus que a
consagrou, o momento é mais do que oportuno para examinar que novas feições ela
adquiriu após tantos sonhos desfeitos e outros tantos pervertidos e que update [atualização] lhe deram as
expectativas geradas pela informática, pelas biotecnologias, pelas
nanociências, pelas ciências cognitivas e as perspectivas de clonagem,
ectogênese (fecundação de útero artificial), artificialização dos órgãos do
corpo e prolongamento da vida, abertas por elas.
Seu
étimo grego, significando não-lugar,
lugar nenhum ou, trocadilhescamente,
lugar da felicidade (eutropia),
designou primeiro uma ilha dos mares do Novo Mundo, em que foi bater um
navegante português ligado a Américo Vespúcio. Terra prodigiosa, em tudo
diferente da Europa do século 16, a perfeição imperava em suas cinquenta e
poucas cidades. Morus imaginou-a empolgado pela descoberta da América e do “novo
homem” que a habitava. Se bem que a República platônica já configurasse uma
utopia, foi na ilha “descoberta” por Rafael Hitlodeu que surgiu o conceito de
utopia como representação imaginária de
uma sociedade que tenha encontrado soluções exemplares para todos os seus
problemas.
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"A ILHA" - na obra de Thomas Morus, sonho era resultado de idealização; hoje, é reação às forças conservadoras, segundo Adauto Novaes |
Outras
sociedades ideais, fundamentadas em leis justas e instituições
político-econômicas comprometidas com o bem-estar da coletividade, nasceram da
imaginação de romancistas e pensadores, nos séculos seguintes, com particular insistência
no século 19, auge do utopismo socialista de Charles Fourier, Étienne
Cabet, Edward Bellamy e William Morris. A esses devaneios
igualitários a dupla Marx-Engels
combateu e contrapôs outro, supostamente científico, cuja caracterização como
utopia pode livrar a cara do comunismo, mas não das sociedades que às suas
ideias básicas deram concretude, a partir da revolução bolchevique, uma utopia que virou distopia [2].
A distopia é uma distorção
ou uma mutação da utopia, um sonho que se transforma em pesadelo. A ficção científica e a
literatura de antecipação são pródigas em fantasias do gênero. De Jules Verne (Capitão Nemo [3] era um utopista) ao
Aldous Huxley de Admirável Mundo Novo [4], ao Orwell
de 1984 [5] e
ao Ray Bradbury de Fahrenheit 451 [6].
Serão todos lembrados ao longo do ciclo. De todo modo, as referências mais
citadas e aludidas serão os pensadores que inspiraram ou, direta ou
enviesadamente, se ocuparam da questão da utopia, como Kant, Hegel, Campanella, Saint-Simon, Walter Benjamin,
Valéry, Camus, Bachelard, Foucault, Deleuze, Agamben e até Ivan Illich, grande crítico da
sociedade industrial muito em voga nos anos 1970, que será lembrado por Jean-Pierre Dupuy em sua abordagem da
metamorfose do sonho em pesadelo, não em termos psicanalíticos, mas socioeconômicos.
Eis
alguns dos pesadelos (ou desdobramentos distópicos) arrolados por Dupuy:
- a medicina que corrompe a saúde,
- a escola que embrutece,
- o transporte que imobiliza,
- as comunicações que não comunicam,
- os fluxos de informação que destroem o sentido,
- a alimentação industrial que se transforma em veneno,
- o recurso à energia fóssil que ameaça destruir o meio ambiente.
“Vivemos, hoje, um momento
especialmente distópico”, dirá, de cara, o historiador e cientista político Marcelo Jasmin. Não será o único a realçar
a descrença geral em relação:
- a modelos redentores,
- o aumento da violência cotidiana,
- a crescente dependência dos seres humanos à tecnologia e sua incrível parafernália e
- as enganosas promessas dos pós-humanistas, como a robotização das tarefas enfadonhas e pesadas, a cura de todas as doenças, a vida humana prolongada ao infinito, a imortalidade, enfim.
Na
palestra de abertura, Francis Wolff
começará afirmando nossa necessidade de
utopias. “Elas são para as
comunidades o que os sonhos são para os indivíduos. Uma utopia é um refúgio num
ideal irrealizável quando o real parece insuportável, é a aspiração ao
impossível.” E, sobretudo, uma “severa
e lúcida crítica da realidade e do presente”, acrescentará, citando um
trecho do ensaio de Novaes que abre o catálogo das conferências. O novo espírito utópico não se define
por uma ação idealista, romântica ou autoritária (o Reich nazista nasceu como
um utopia para durar mil anos), mas pela
crítica e a reação ao conformismo e às forças conservadoras.
O
ciclo será abrangente o bastante para falar de arte, arquitetura, do corpo, da
ética da responsabilidade, da psicanálise e, se algum dos palestrantes ou
alguém da plateia levantar a bola, do PT, nossa última grande utopia que foi
(ou está indo) pro vinagre.
N
O T A S :
[ 1 ] –
Utopia,
segundo o Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa significa: a) lugar
ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos; b) qualquer descrição imaginativa de
uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas
verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade; c) Derivação por extensão de sentido: projeto
de natureza irrealizável; quimera, fantasia.
[ 2 ] –
Distopia,
ainda segundo o Dicionário Houaiss da
Língua Portuguesa significa: a) lugar
ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero
ou privação; antiutopia; b) qualquer representação ou descrição de uma
organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis,
com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual, ou parodiar utopias,
alertando para os seus perigos; antiutopia [Famosas distopias foram concebidas
por romancistas como George Orwell (1903-1950) e Aldous Huxley (1894-1963).]
[ 3 ] – Capitão Nemo é um personagem fictício
que aparece em duas aventuras de ficção escritas por Júlio Verne: Vinte Mil Léguas
Submarinas (1870, edição brasileira: Zahar, 2011) e A Ilha Misteriosa (1874,
edição brasileira: Zahar, 2015). Nemo era o comandante do navio submersível Náutilus. Descontente com a destruição
que a sociedade do século XIX provoca no mundo com suas guerras e opressão, ele
utiliza seu vasto conhecimento científico para construir um submarino elétrico
e passa a viver no fundo do mar com alguns homens de sua confiança, como sendo
um pirata (Fonte: Wikipédia).
[ 4 ] –
Admirável
Mundo Novo de Aldous Huxley
tem edição brasileira pela “Biblioteca Azul”, selo da Editora Globo, ano de
2014.
[ 5 ] –
1984
de George Orwell tem edição brasileira pela Companhia das Letras, ano 2009.
[ 6 ] –
Fahrenheit
451 de Ray Bradbury tem edição
brasileira pela “Biblioteca Azul”, selo da Editora Globo, ano de 2012, 2ª
edição.
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