O Evangelho dos empresários
José María
Castillo
Religión
Digital
20-08-2015
“Eu sei que a solução não é realista. É uma autêntica
utopia.
Mas também é verdade que, em situações limítrofes,
só quem tem coragem e audácia para empreender
seriamente
caminhos de utopia, está em condições de nos
oferecer uma palavra de esperança com futuro.”
O
conhecido empresário multimilionário Warren
Buffet disse, seguro de si mesmo: “Durante
os últimos 20 anos houve uma guerra de classes e minha classe venceu”. Este
milionário apregoava o triunfo dos empresários desde a sua sólida instalação
naquilo que o Nobel de Economia, Paul
Krugman, qualificou como “o moderno
conservadorismo (que) se entrega à ideia de que as chaves da prosperidade são
os mercados sem restrições e a busca irrefreada do benefício econômico e
pessoal”.
É
isto o que importa. E é isto o que manda, atualmente, mesmo na economia e na
política mundiais. Senão, perguntem aos milhões de desempregados, de
deslocados, de imigrantes e de pessoas que diariamente morrem de fome e de
desespero, como vemos e escutamos nos noticiários que nos dizem o que realmente
está acontecendo neste momento.
Por
isso, esta manhã, lendo o Evangelho, encontrei um texto genial que me fez
pensar. Refiro-me à parábola do
proprietário que buscava trabalhadores para a sua vinha (Mt 20,1-16). Não
entro nas questões discutidas e analisadas pelos especialistas no estudo do
Novo Testamento. Independente disso, eu encontro
na parábola três coisas que – segundo creio – estão muito claras:
1) O empresário da vinha
passou o dia procurando desempregados para dar-lhes trabalho.
2) O empresário da vinha
apostou na igualdade de todos na hora de pagar a diária.
3) O empresário da vinha começou pelos últimos (Mt 20,8) e privilegiou os
últimos (Mt 20,16), aqueles que, tendo trabalhado menos, ganharam o mesmo que
aqueles que trabalharam mais. É evidente, portanto, que o importante, para este estranho empresário, não era o lucro, mas
remediar o desemprego, acabar com as desigualdades e, caso queiramos
privilegiar alguém, os primeiros que
temos que privilegiar são aqueles que estão mais abaixo, os últimos deste mundo.
Isto
realmente é possível? Um empresário do nosso tempo e que tenha os pés no chão,
pode realmente assumir, com todas as suas consequências, o projeto de
empresário que esta parábola nos apresenta? E, sobretudo, pode-se aplicar aos empresários uma parábola que, na realidade, falava
de Deus e não de nenhum empresário deste mundo?
Evidentemente,
a interpretação tradicional da parábola
nos fala do comportamento que Deus tem com os mortais, não das relações dos
empresários com seus trabalhadores. Mas, quem somos nós para colocar limites ao
Evangelho, em sua força e em suas possibilidades, para nos dizer, a nós hoje,
uma palavra eloquente e exigente para a situação que estamos vivendo?
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Ulrich Luz (nasceu em 1938) Teólogo suíço - Professor de Novo Testamento, especialista no evangelho de Mateus |
Eu
compreendo que é mais cômodo colocar o “empresário” [Deus] no céu e nós, dessa
maneira, ficarmos com as mãos livres aqui na terra, para organizar as coisas
como nos interessa ou nos convém. Mas,
por favor!, sejamos honestos e não coloquemos limites ao Evangelho. Já nos
chamou a atenção o grande exegeta, que é Ulrich
Luz, que, desde Orígenes até os nossos dias, as tentativas de aplicar esta
parábola a situações atuais indicam as “novas
potencialidades de sentido que o velho texto tem”. E assim costumam fazê-lo
não poucos professores e pregadores quando explicam as parábolas.
Em
todo o caso, o mais sério e urgente que temos que enfrentar neste momento é que
a economia e a política atuais, do jeito
como vêm funcionando, até este momento conseguiram criar uma brecha tão grande
entre ricos e pobres, que já é (e será) insuperável por décadas e quem sabe
séculos.
Isso
tem solução? Está visto que nem a economia nem a política, assim como funcionam
atualmente, são capazes de resolver, nem sequer deter, o assombroso desastre.
Isto terá solução apenas na medida em que surjam pessoas que, com um espírito
grande e à margem de quanto nos dizem os economistas e políticos, sejam capazes
de empreender com firmeza um novo caminho. O caminho que marcado pelo Evangelho
dos empresários.
Eu
sei que a solução não é realista. É uma autêntica utopia. Mas também é verdade
que, em situações limítrofes, só quem tem coragem e audácia para empreender
seriamente caminhos de utopia, está em condições de nos oferecer uma palavra de
esperança com futuro.
Traduzido do espanhol por André Langer. Para acessar a versão
original deste artigo, clique aqui.
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