COMO EDUCAR OS FILHOS HOJE ? ? ?
Sob rédea curtíssima
Tania Zagury*
Pais hesitantes, que preferem exigir que a escola mude
a impor eles mesmos limites aos filhos, são uma das causas da proliferação de
colégios públicos militarizados, acredita filósofa
![]() |
SIM, É VERDADE! Colégio Jardim Guanabara, em Goiás, é uma das escolas estaduais que serão militarizadas |
Muitas
pessoas ficam perplexas, outras revoltadas e algumas reagem a favor da decisão
de entregar à Polícia Militar a gestão
de algumas escolas públicas brasileiras. Tudo começou a partir da ideia do
governador Marconi Perillo, que implantou a primeira há poucos anos, em Goiás.
Hoje são mais de 90 no País. Em foco:
diminuir a indisciplina e os danos ao patrimônio público e melhorar os índices
de aprendizagem dos alunos.
Dentro
do mesmo enfoque se pode situar a matéria que o Fantástico, da TV Globo,
reportou sobre a proliferação de
acampamentos nos Estados Unidos onde crianças e adolescentes insubordinados são
internados pelos pais diante do crescente desrespeito dos filhos. Exauridos
pelo fracasso de suas tentativas de retomar as rédeas de uma situação em que a
autoridade paternal fracassou, optam pela medida como derradeiro recurso contra
a marginalização - direção na qual parecem caminhar seus perdidos rebentos.
Situação bem próxima à que se encontravam as escolas militarizadas.
Nos
dois casos, trata-se de encarar um momento em que família e escola se percebem
frente a jovens com quem o diálogo se mostrou inútil e o desrespeito se tornou
a regra. A duração da estada nos acampamentos varia de um fim de semana a até
um ano, dependendo da decisão dos coordenadores, quase sempre ex-militares
inspirados na própria vivência de obediência sob pressão. Sem qualquer
preocupação psicológica, encarregam-se de mostrar aos mimados clientes que ali
o regime não é questionável. Mantêm os jovens em tarefas sucessivas,
alternando-as com exercícios físicos pesados, até que caiam na cama e durmam de
exaustão. O dia seguinte - e todos os demais - são exatamente assim.
Os
coordenadores agem na crença de que os internos precisam de um choque de
realidade para compreenderem o que é a vida. No caso brasileiro, trata-se, a meu juízo, das consequências práticas
da adoção de uma ideia que começou a circular em torno dos anos 1970, segundo a
qual dar limites ao educar levaria a criança a se tornar reprimida, frustrada e
até traumatizada! “A escola é castradora” foi jargão que ouvi à exaustão na
minha juventude. Muitos o repetiam, sem nem sequer supor que poderia trazer
consequências negativas no futuro. Era expressão simpática aos jovens de então,
contemporâneos de um momento em que o
conceito de liberdade, interpretado como o “direito de fazer só o que se deseja
e quer”, era cantado em prosa e verso - influência das teses
existencialistas, da revolução estudantil de 1968, da filosofia hippie, da oposição à Guerra do Vietnã.
No
Brasil, o problema começou a partir do momento em que as mídias fizeram chegar
a todos os cidadãos os conceitos referidos. Por várias razões, esses conceitos acabaram sendo distorcidos
ao serem simplificados e descontextualizados, o que levou boa parte dos
pais, assustados e temendo provocar danos emocionais nos filhos, a abandonar o
fundamental papel que sempre desempenharam: de socializadores primários e
geradores da ética. Afinal, qual o pai saudável mentalmente que, por vontade
própria, quer traumatizar o filho?
Assim, acreditando que o
diálogo seria instrumento suficiente para que sua prole trilhasse o caminho da
cidadania, jogaram pela janela a hierarquia familiar. Em consequência, seus
filhos, com muita liberdade e poucos limites, passaram a compreender o mundo
como espaço criado para satisfazê-los em seus quereres. E foi assim também que
interpretaram os esforços dialógicos de seus hesitantes pais: como licença para
fazerem apenas o que lhes aprouvesse. Muitos
pais só perceberam quão inadequada foi a forma de educar os filhos quando já
era tarde demais. A geração nem-nem que o diga! Dados do IBGE (PNAD 2012)
revelaram que o número de jovens de 15 a 29 anos que não estudam nem trabalham
chegava à época a 9,6 milhões, ou seja, uma em cada cinco pessoas nessa faixa
etária - e nem todos por falta de emprego ou oportunidade de estudo - eis aí o
grande problema -, mas por falta de limites e projeto de vida.
A insegurança dos pais ao
educar ainda persiste, mas cresce o número dos que depreendem que a falta de
limites e a superproteção comprometem a formação dos filhos, com grande
prejuízo para suas vidas. Infelizmente, porém, o problema tem se agravado porque, também na
escola, essa visão equivocada encontrou espaço. Teorias psicologizantes,
aliadas a medidas educacionais equivocadas e outras de caráter meramente
político e não comprometidas com o saber, têm dominado o cenário nas últimas
décadas. E, assim, jovens indisciplinados e não socializados adentram um
ambiente escolar de conveniente impunidade, encontrando, também aí, um lugar
para chamar de seu. Se ocorre
resistência a seus desmandos, remetem-se a seus dominados papais, que, acuados
pelos filhos tiranos já crescidos, são pressionados a questionar quaisquer
medidas que a escola, mesmo timidamente, tente implantar para discipliná-los.
Para
pais inseguros é mais fácil exigir que a instituição mude que fazê-lo com
filhos sem limites. E assim chegamos ao momento atual, em que os professores estão a cada dia com mais
dificuldade para exercer o seu papel precípuo: ensinar. Em alguns casos,
têm dificuldades até para preservar a integridade física. E mental. Felizmente
não é em todas as escolas, mas a situação é crítica em grande parte da rede
pública - e em parte da rede privada. Nesse contexto fica difícil alcançar o
que, em educação, chamamos de situação de aprendizagem: um conjunto de
condições que precisam existir para que a pessoa - criança, adolescente ou
adulto - possa aprender. Segundo estudo
da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o país em que o professor
mais perde tempo de aula acalmando os alunos para poder ensinar (em média 20%
de cada aula). Em situação de agressões, chacota, cutucadas e ameaças, não
se consegue aprender - nem ensinar. Significa que, na sala de aula regida pelo
desmando, o aluno não alcança o nível mínimo de concentração exigido para, por
exemplo, ativar a memória de longa duração, essencial para que a aprendizagem
não só ocorra, mas permaneça. Sem falar em atenção e motivação, condições que
permitem à pessoa se concentrar, pensar e agir a favor da aprendizagem. Não existe milagre em educação. Professor
acuado e agredido é professor inibido e atormentado. Aluno que demonstrou
desejo de estudar e, por essa razão, é perseguido e maltratado pelos que
aprenderam a amar a desordem e a impunidade se encolhe e não aprende.
Se
a sociedade não acordar para a realidade dos fatos que aqui tento resumir; se
não aprendermos com os erros recentes; se
não abolirmos do sistema educacional as medidas inócuas e as deletérias que se
tem tomado em educação nas últimas décadas (como a Progressão Continuada e o Sistema
de Ciclos, que parece estar acabando, afinal); se, além disso, continuarmos a fingir que liberdade e licenciosidade
são a mesma coisa, quando não o são de forma alguma; se não agirmos com
presteza, diante do absurdo em que estão imersas as escolas da rede pública, em
breve não teremos mais como reverter o quadro. Surgirão assim, a cada dia,
mais e mais pessoas que, ainda que bem-intencionadas, acabarão atraídas para o
outro extremo da linha que separa autoridade de autoritarismo.
E,
assim como vemos nos protestos legítimos das ruas pessoas que se misturam aos
que se manifestam contra a desonestidade e a corrupção para clamar pela volta
da ditadura, assim também veremos crescer o quantitativo dos que defenderão a
militarização primeiro nas escolas, depois na sociedade. Não, não precisamos de
escolas militarizadas nem de acampamentos para rebeldes. Precisamos apenas
compreender que só há aprendizagem em condições propícias ao aprender; que só
teremos docentes de qualidade se lhes dermos condições para atenderem aos seus
legítimos anseios de ensinar, porque - ganhem bem ou mal - não os teremos
enquanto continuarem apanhando em sala de aula. Nem teremos democracia e igualdade de oportunidades se os jovens
crescerem achando que têm todos os direitos, mas se esquivando aos deveres que
lhes correspondem. Não existe cidadania quando só se tem direitos.
Devolver a autoridade aos
docentes, volto a insistir, nada tem a ver com autoritarismo, e sim com o
direito que a pessoa que ocupa um cargo precisa ter para alcançar o objetivo a
que a instituição se propõe - sem ser confrontada a cada instante, e no mesmo
patamar, por quem deseja e promove o impedimento ao direito que o outro e cada
um têm de ter. Afinal, igualdade de oportunidades e democracia começam por aí.
*
TANIA ZAGURY é filósofa, professora adjunta da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora, entre outros, de O professor refém, por que fracassa o ensino
no Brasil (Editora Record).
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Suplemento Aliás – Domingo, 23 de agosto de 2015 – Pg. E2 – Internet: clique aqui.
Nota de corte
José de Souza
Martins*
É difícil imaginar que a pátria e o patriotismo subsistirão
numa cultura
que vitima professores, vitima a educação e, no limite,
lesa o País
![]() |
LUCIANA FERNANDES: professora da Escola Municipal "Padre Afonso Kist", em Parobé (RS) agredida por aluna |
Uma
das dificuldades para a compreensão crítica da educação brasileira é a de que
seus problemas são acobertados por slogans publicitários como o de “Pátria educadora”. Slogan não educa. É até estranho que se
fale em pátria quando esse conceito vem sendo, há quase meio século, submetido
a todo tipo de mistificação e de corrosão. As últimas gerações foram privadas
da velha e boa concepção de pátria amada, submergida no reducionismo da pátria
injusta, mas lucrativa, e da pátria permissiva, mas deformadora, a pátria sem o
compromisso com o destino de todos e com o bem comum. A questão da educação malconduzida não pode ser compreendida senão como
componente de uma generalizada depreciação de valores que foram historicamente
essenciais na constituição do Brasil como nação. O que inclui o grave desapreço pela infância e pela
adolescência, na valorização meramente nominal dos imaturos. Já não sabemos
a diferença entre reprimir e educar.
É possível pensar a crise da
educação brasileira a partir de indicadores não convencionais, como o da
violência sofrida por professores, vitimados por agressões de alunos. Cito um caso desta semana.
Luciana Fernandes, de 23 anos,
professora concursada de Biologia na Escola
Municipal Padre Afonso Kist, na cidade de Parobé, no Rio Grande do Sul, que viaja 50 quilômetros para dar
suas aulas, foi violentamente agredida por uma aluna de 15 anos, auxiliada por
duas irmãs. Como tantíssimos professores deste Brasil afora, é ainda jovem e,
como tantos outros jovens, optou pelo magistério pensando muito mais na pátria
do que no salário, no magistério como missão civilizadora. É difícil imaginar
que a pátria e o patriotismo subsistirão nessa cultura de valores inversos, que
vitima professores, vitima a escola e vitima a educação. E, no limite, lesa o
País. Não sendo profissão para lucrar,
pois seus parâmetros são os da civilização contra a barbárie e não os do lucro,
os professores deste País têm sido tratados, cada vez mais, como seres
adjetivos da pátria lucrativa.
Num
outro extremo, podemos examinar a educação
brasileira pelo índice de classificação de nossas universidades nos rankings
internacionais. O número de instituições de ensino superior e de alunos tem
crescido entre nós. O que é bom.
Não
cresce, porém, o número das nossas universidades que ingressam nesses rankings,
ainda reduzidas à mesma meia dúzia, nem mesmo nas posições mais inferiores da
classificação. O que indica que
crescemos na quantidade, mas não na competência. Crescemos apenas na
perspectiva pobre da economia dos números. A USP e a Unicamp têm estado,
aproximadamente, entre as 100 melhores universidades do mundo e a Unesp está
entre 400 melhores. Não deixa de espantar, porém, que não raro veículos da
mídia se regozijem com a queda eventual de um ponto comparativo de nossas
melhores universidades nessas avaliações e não se regozijem nem um pouco com os
frequentes e amplos índices de desempenho dessas mesmas universidades, os
mesmos que as alinham com as melhores do mundo.
Debochamos dos nossos êxitos
e não lamentamos nossos fracassos. O Brasil é,
provavelmente, o único país do mundo que se destacou por ter um governante que
reiteradamente desdenhava de quem tinha diploma universitário. Deseducava.
E isso é do século atual.
O
desapreço pela educação superior vem se materializando numa iniquidade
incompreensível, que no Estado de São Paulo se concretiza pelo confisco do
salário dos professores das três universidades estaduais paulistas porque
supostamente ultrapassa o teto representado pelos vencimentos do governador do
Estado. Teto que está um terço abaixo do que regula o que ganham os docentes
das universidades federais, mesmo não sendo salário o ganho do governador.
Direitos, adquiridos com base na lei e no desempenho pessoal, são anulados com
base no equívoco da Assembleia Legislativa de estabelecer e generalizar na
Constituição estadual essa referência descabida, quebrando o princípio da
isonomia. Com isso, os salários das
universidades paulistas estão muito aquém do das universidades federais, cujo
parâmetro salarial é o dos vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal
Federal (STF). É difícil negar que, por ação ou omissão, está em andamento um difuso plano de
minimização de nossas universidades de exemplar desempenho, como as três
universidades paulistas. A competência está sendo punida.
Num
outro extremo, o Brasil é o único país
dos Brics, organização de países emergentes à qual se vinculou [Brasil,
Rússia, Índia, China e África do Sul], que
ainda não recebeu nenhum Prêmio Nobel, geralmente o melhor indicador da
excelência do sistema educacional de um país. A Rússia tem 27 Prêmios
Nobel, a Índia tem 9, a China tem 9 e a África do Sul tem 10. Mesmo a
Argentina, nossa rival em tanta coisa, tem 5. Para não dizer que não temos
nenhum, Fernando Henrique Cardoso,
sociólogo de reputação internacional, ganhou em 2012 da Biblioteca do Congresso,
dos Estados Unidos, o Prêmio John W.
Kluge de Ciências Humanas, equivalente ao Prêmio Nobel.
*
JOSÉ DE SOUZA MARTINS é sociólogo, membro da Academia
Paulista de Letras e autor, entre outros, de Uma sociologia da vida cotidiana (Editora Contexto).
Comentários
Postar um comentário