COMEÇOU O "DESEMBARQUE" DO GOVERNO DILMA!
Falta fio terra
Dora Kramer
Dilma não deve desculpas, e sim explicações
e soluções realistas para a crise
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Presidente Dilma Rousseff discursa em Catanduva (SP) ao entregar casas do Programa "Minha Casa, Minha Vida" Terça-feira, 25 de agosto de 2015 |
Na
campanha pela reeleição a presidente Dilma Rousseff dizia-se “estarrecida”
diante de qualquer fato ou ato para o qual não tivesse resposta. Na entrevista
dada na segunda-feira [24 de agosto] aos jornais de circulação nacional, Dilma
trocou o estarrecimento pelo susto para se justificar sem, no entanto, se
explicar.
Disse
que foi surpreendida tanto pelo tamanho da crise econômica quanto pela dimensão
do esquema de corrupção na Petrobrás e, assim, considerou-se em dia com
explicações devidas sobre fatos ocorridos e atos cometidos em seu governo.
Muito
mais que pedidos de desculpas – penitência objetivamente inútil, pois o caso
não é de absolvição de pecados, mas de correção efetiva – a presidente continua devendo ao País esclarecimentos consistentes para
a origem, e soluções realistas para a saída da crise.
Até
agora não fez uma coisa nem outra e as respostas dadas aos jornalistas indicam
que não o fará enquanto a corda, embora bamba, ainda se sustenta. À crise
econômica, Dilma segue atribuindo os motivos a fatores externos e
imprevisíveis, assim como reconhece que continua sem horizonte de
previsibilidade.
Em
bom português, isso significa que o
governo não tem planejamento. Atua
ao sabor dos ventos, adota o voluntarismo como critério para tomada de decisões
e age quando já é tarde. Foi o que disse a chefe da Nação que preferiu
adotar a pregação do otimismo à deriva quando ouvia de todos os lados alertas
sobre a gravidade da situação do País, moral, política, econômica e
administrativamente falando.
Os
realistas, a cuja análise do cenário o Planalto foi obrigado a se render, eram,
na concepção palaciana, pessimistas a serviço da tese do “quanto pior, melhor”.
Mesmo quando integrantes do governo. Em 2013, o então presidente da Câmara de Políticas de Gestão ligada à
Presidência, Jorge Gerdau, alertou para
a impossibilidade de o País ser administrado numa estrutura assentada em 39
ministérios.
“Quando a burrice, a loucura
ou a irresponsabilidade vão muito longe, de repente sai um saneamento.
Provavelmente estamos no limite desse período.” Vaticínio certeiro.
Desprezado, contudo. Gerdau não foi ouvido. Deixou a função na Câmara de Gestão
– da qual, aliás, não se viu a produção de um alfinete – e tornou-se um adepto
da candidatura presidencial de oposição em 2014.
Agora,
dois anos depois, premida pelas circunstâncias, a presidente anuncia a redução
do número de ministérios. Não diz, no entanto, como será feita a dita “reforma
administrativa”, não explicita quais serão as pastas atingidas e, sobretudo, não explica as razões pelas quais o governo
Lula criou oito ministérios ao tomar posse em 2003, acrescidas de outras cinco
na gestão atual.
A
motivação, sabemos: necessidade de
acomodar afilhados (petistas ou não) na
máquina pública, uma vez que a opção do governo foi atuar a partir do
manejo orçamentário no lugar do convencimento programático.
O
caminho supostamente mais fácil acabou se revelando mais “custoso”. Custou a
autoridade moral do PT e levou junto a boa imagem do partido junto à sociedade.
Quando o governo se dispõe a reduzir ministérios e a quantidade de gente
nomeada em cargos de comissão, emerge como inevitável a dúvida: o que vai prevalecer, o conceito político
ou os ditames administrativos de eficiência?
A
presidente não disse. Mais uma vez infringindo a regra política da eficácia,
segundo a qual a decisão só é anunciada depois de a combinação acertada. A
inversão da norma – anunciar e combinar depois – pode criar mais problemas e
atritos em campo onde se pretendiam construir consensos e soluções. Em resumo,
falta ao governo fio terra.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Quarta-feira, 26 de agosto de 2015 – Pg. A6 – Internet: clique aqui.
Falta combinar com os russos
Marcelo de
Moraes
Em
Brasília, não há quem critique em público o corte de ministérios e cargos de
confiança anunciado pela presidente Dilma Rousseff para tentar dar mais
racionalidade à máquina federal. A medida, que agita a bandeira da austeridade,
tem ótima acolhida na opinião pública. Afinal, significa redução de despesas,
algo extremamente bem-vindo em período de crise econômica e depois de anos e
anos de inchaço da administração.
A
questão é que, se não falam publicamente, adversários da proposta já operam
freneticamente para saber de que tipo de reforma o governo está falando. Ao
anunciar a decisão de cortar 10 das 39 pastas existentes e mil cargos de
confiança, o governo não especificou quais seriam rifadas e deixou em polvorosa
os titulares de ministérios e auxiliares.
Sem
essa definição, o governo viu reduzir o impacto que a reforma poderia ter. Passou também a impressão de que o Planalto
tem hoje mais um plano de intenções do que uma proposta concreta.
É
aí que está o nó da reforma. Faltou ao
governo "combinar com os russos". Ou seja, será preciso negociar
politicamente a retirada de cargos dos partidos aliados.
E,
exatamente quando vive a maior crise de relacionamento com o PMDB, o corte
sinaliza que o partido poderá ser o mais afetado. A legenda ocupa, hoje, a
maior parte do chamado "grupo de risco" - ministros ameaçados de
despejo. O partido é titular do Ministério da Pesca (uma barbada para acabar) e
comanda o do Turismo, que foi desmembrado em 2003 do Esporte. Tem ainda
secretarias recém-contempladas com status de ministério, como Aviação Civil e
Portos.
Ora, com quatro pastas
peemedebistas como alvo preferencial, é impossível imaginar que o PMDB saia
feliz do redesenho. Ainda mais após o vice-presidente Michel Temer se afastar da função
de principal negociador do governo com o Congresso.
Sem
Temer, caberá à própria Dilma colocar o guizo no gato, além de incluir no corte
pastas do PT. E correr o risco de ver
sua frágil base aliada desmanchar-se de vez.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política / Análise – Quarta-feira, 26 de agosto de 2015 – Pg. A6 – Internet: clique aqui.
Rompimento à vista
Editorial
Bem
a seu estilo, cauteloso e elegante, depois de encontro com Dilma Rousseff na
segunda-feira, o vice-presidente Michel
Temer anunciou o que já havia antecipado em conversas com correligionários:
deixou a “articulação política do
governo”, como se convencionou designar a missão de que fora incumbido pela
presidente da República. Ou seja, de negociar com os partidos aliados o toma lá
dá cá indispensável à recomposição da base de apoio ao Planalto no Congresso.
Para conter a repercussão de sua decisão nos limites do movimento tático que
ela significa no conjunto de seu relacionamento político com o governo, Temer
foi categórico: “Não vou desembarcar do governo, até porque sou o
vice-presidente”. Mas sua atitude
sinaliza, sim, um primeiro passo em direção ao rompimento da aliança de seu
partido com o governo do PT, a ser formalizada se e quando ocorrerem, num
futuro provavelmente não muito distante, as condições políticas apropriadas.
Vice-presidente da República Michel Temer (PMDB-SP) anuncia renúncia à coordenação política do Governo Dilma |
O
distanciamento de Michel Temer e de seu partido do Palácio do Planalto era
claramente previsível desde que o governo Dilma começou a soçobrar no oceano de
suas próprias contradições e incompetência. Ou seja, logo depois da posse do
segundo mandato. A vocação do PMDB pós-democratização sempre foi governista,
como demonstra o retrospecto dos últimos trinta e tantos anos. E o acurado
pragmatismo político de suas principais lideranças é particularmente atento às
ameaças ao conforto do poder.
Do ponto de vista do apego
ao poder como um fim em si mesmo não há nenhuma diferença relevante entre PMDB
e PT. Pois
o partido de Lula, por assim dizer, “peemedebezou-se”, converteu-se ao mais
despudorado pragmatismo político quando decidiu que esse era o caminho para
chegar ao poder e, principalmente, lá se manter. O que distingue as duas legendas é que os peemedebistas são geralmente
mais hábeis e tolerantes, até porque não têm a cínica pretensão de serem
salvadores da pátria.
Foi
exatamente por seus atributos políticos que Michel Temer foi contemplado por
Dilma com a terceirização – mais aparente do que real – da articulação do
varejo político de seu governo. Mas era esperar demais que os petistas
aceitassem essa novidade de bom grado. Principalmente porque, para o PT, aliança boa é aquela em que ele
manda e os aliados obedecem. Mas também não ajudou em nada a Temer a
austeridade que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem tentado impor, ainda
que canhestramente, às finanças públicas. Ficou,
assim, muito difícil articular o Tesouro com a compreensível ambição dos
parlamentares de canalizar recursos para suas bases eleitorais. E, por sua
vez, a Casa Civil do ministro Aloizio Mercadante nunca foi exatamente ágil no
trabalho de encaminhar as nomeações resultantes dos acordos selados por Temer e
seu braço direito, o ministro Eliseu Padilha.
Em
bom português, Temer tentou remontar,
sem dispor dos recursos financeiros e políticos para tal, o esquema fisiológico
de apoio que Dilma, contando com tudo o que faltava ao vice, organizou
formalmente, mas nunca conseguiu fazer funcionar. E isso porque os sacripantas
que venderam seu apoio tiveram a esperteza de nunca entregá-lo.
Além
disso, quando cometeu o sincericídio
de proclamar que “alguém” deveria assumir a responsabilidade de unir os
brasileiros, Temer forneceu farta munição para os petistas encherem o ouvido de
Dilma com alertas sobre as “verdadeiras intenções” do vice-presidente. A partir
de então, Dilma colocou um assessor de sua confiança para “ajudar” na
articulação política.
Se,
por um lado, Michel Temer teve todos os motivos para se sentir desprestigiado
no papel de “articulador político”, por outro passou a ser pressionado por seus
correligionários, especialmente o deputado
Eduardo Cunha, a afastar-se do governo e logo com ele romper. Este, porém,
não é o estilo de Temer, mesmo que ele esteja, no íntimo, convencido daquilo
que a esmagadora maioria dos brasileiros já se deu conta: esse governo não tem salvação.
De
qualquer maneira, Michel Temer entrou como um cavalheiro nesse lance de
articulação política, num gesto de boa vontade e, quem sabe, de sincera homenagem
à chefe do governo. A presidente Dilma
Rousseff não espere atitude lhana [amabilidade] como esta da tigrada que a cerca.
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