MITOS E ILUSÕES A RESPEITO DA ALIMENTAÇÃO!
O orgânico nosso de cada dia
Entrevista
com Alan Levinovitz
Nathalia
Watkins
O filósofo americano traça paralelos entre as religiões
e
os modismos alimentares, como o vegetarianismo,
e alerta para o fato de que os seres humanos não são o
que comem
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ALAN LEVINOVITZ |
Professor de religião e
filosofia na Universidade James Madison, em Harrisonburg, Virgínia, o americano
Alan Levinovitz identificou um componente de fé nos modismos alimentares, como
o vegetarianismo,
o crudivorismo
[aquele que aprecia ou prefere alimentos crus] e outras dietas restritivas.
Por dois anos, ele revisou
centenas de pesquisas científicas e entrevistou médicos e cientistas. O
resultado está no livro A Mentira do Glúten, com lançamento
previsto para setembro no Brasil.
Levinovitz concluiu que, da
mesma forma que os dogmas religiosos, o radicalismo nos hábitos alimentares se
utiliza de padrões de comportamento para dar às pessoas a segurança de se
sentir parte de um grupo e de estar fazendo algo que as tornará seres humanos
melhores. Ele falou à VEJA por telefone.
O ser humano é o
que come?
Alan Levinovitz: Em muitas culturas ancestrais, acreditou-se que coisas ou fenômenos
parecidos teriam efeitos parecidos. Por exemplo, se um grupo de pessoas queria
que chovesse, derramava um copo de água no chão. A água despejada,
acreditava-se, poderia interferir no clima. Essa lógica se transferiu para o
mundo da alimentação. Criou-se a crença de que a ingestão de gordura deixa a
pessoa gorda. Isso faz sentido na teoria, mas não é verdade. A ciência já
superou a máxima “você é o que você come”, porém ainda existe a necessidade
humana de encontrar paralelos mágicos entre fenômenos distintos. Essa é uma
solução fácil, que simplifica as escolhas alimentares. O problema é a
perpetuação da ideia de que alguém pode ser melhor ou pior dependendo do que
come. Por essa lógica, se alguém ingere algo considerado “puro” e “limpo”,
também se tornará “puro” e “limpo”. Infelizmente, isso é acreditar em mágica.
Os seres humanos querem regras simples para a vida e para dar um significado à
própria existência. Por outro lado, há os que se sentem culpados por não comer
bem. Isso é ridículo. Relaxar é tão importante quanto comer bem.
Por que o
sentimento de culpa é pior do que alimentar-se mal?
Alan Levinovitz: Um estudo comparativo feito no Japão, na França e nos Estados Unidos
mostrou que os americanos são os que se sentem mais culpados pelo que escolhem
como alimentos e são os mais conscientes no que diz respeito à nutrição. Ao
mesmo tempo, são os que mais sofrem com obesidade e são menos saudáveis.
O glúten é o vilão
da vez da alimentação. Isso tem embasamento científico?
Alan Levinovitz: Há pessoas que realmente precisam cortar o glúten da dieta. São os
celíacos. A estimativa é que eles representem cerca de 1% da população. Além
deles, uma parcela que não é celíaca pode desenvolver reações ao glúten. Esse
grupo representa entre 3% e 5% do total. Para todo o resto, não há nenhuma
necessidade de evitar a ingestão dessa substância. Contudo, um terço dos
americanos consome produtos sem glúten. A constatação é que dezenas de milhões de
pessoas, para ficar só com as estatísticas americanas, estão cometendo um erro
ao decidir o que devem ou não ingerir. Em vez de usarem informações com base
científica ao tomar suas decisões à mesa, agem como fiéis religiosos.
As religiões também
ajudam a estabelecer crenças alimentares?
Alan Levinovitz: Existe algo de divino na comida, que vem de muito tempo atrás. A
história religiosa mais famosa do Ocidente, a de Adão e Eva, é um exemplo
disso. A narrativa conta que eles eram pessoas boas e inocentes que viviam no
paraíso até que uma serpente disse a Eva: “Coma essa fruta que você não deveria
comer”. Depois, os dois tornaram-se mortais, experimentaram a dor, o sofrimento
e passaram a ter de cultivar a terra. A lição é que comer algo indevido pode
ser ruim e causar dor física.
No passado, regras
alimentares religiosas, como halal [alimentos aprovados pela religião
islâmica] e kasher [alimentos
aprovados pela religião judaica], não
teriam sido úteis como políticas de saúde pública, ao evitarem doenças?
Alan Levinovitz: Sempre achei que judeus não podiam comer carne de porco e crustáceos
porque são alimentos que se deterioram facilmente. O objetivo seria manter o
povo saudável. Mas pesquisas mais recentes indicam que a razão não é essa. O
Levítico [livro do Antigo Testamento] prescreve que não se podem comer anfíbios
ou sapos. Mas o critério nada tinha a ver com a saúde. Os textos religiosos
exigem que os animais sejam classificados. O animal voa ou anda? Ele nada?
Então, o critério para declarar impura a carne de um bicho derivou da
impossibilidade de classificá-lo. Ao seguirem certas normas, os grupos humanos
se diferenciaram uns dos outros. As normas alimentares tiveram o mesmo papel,
estabelecendo uma identidade de grupo. Esse comportamento prevalece até hoje.
Existe o grupo de pessoas que não come fast-food
ou o grupo dos que evitam o consumo de açúcar. Essas escolhas são fatores
definidores da identidade de cada um.
Mas açúcar em
excesso faz mal, não?
Alan Levinovitz: Sim, e a principal razão disso é que essa substância é uma fonte barata
e saborosa de calorias nutricionalmente vazias. Muito do excesso de calorias
consumido no mundo inteiro vem de bebidas adoçadas e de outros alimentos
açucarados. É um problema sério, mas não há nenhuma razão comprovada pela
ciência para que se elimine completamente o açúcar da dieta.
A forma com que um
alimento é produzido também ganhou contornos religiosos?
Alan Levinovitz: O mito de que se algo é feito de uma maneira imoral deve ter
consequências ruins para o corpo é muito forte. Os argumentos usados por
vegetarianos vão nessa linha. Alguns eliminam carnes de sua dieta porque se
dizem contra a violência e o abate de animais. Mas o fato de os animais serem
mortos para se tornarem alimento não quer dizer que eles farão mal ao
organismo. Maldade moral não se converte em prejuízo à saúde.
O Instituto
Nacional do Câncer do Brasil diz que “modos de cultivo livres do uso de
agrotóxicos produzem frutas, legumes, verduras e leguminosas, como os feijões,
com maior potencial anticancerígeno”. O que o senhor acha disso?
Alan Levinovitz: Isso é ridículo, francamente. O tabaco definitivamente causa câncer.
Salvamos muitas vidas informando sobre os danos provocados pelo cigarro. O
mesmo vale para o álcool. Beber em quantidades elevadas pode provocar
malefícios. Mas é difícil encontrar evidências científicas consistentes de
propriedades anticancerígenas em alimentos orgânicos ou mesmo em frutas e
vegetais específicos. Quando os cientistas encontram esses benefícios, como no
caso dos brócolis, o efeito é apenas marginal. A separação entre alimentos
“orgânicos” e “não orgânicos” não é uma distinção científica. Essa palavra,
assim como o termo “natural”, não existe na ciência. Se alimentos são cozidos e
levados à mesa, eles não são naturais? Com os orgânicos, é a mesma coisa. Dizer
que alimentos orgânicos ajudam a prevenir câncer é um mantra religioso. Essa
afirmação remonta à ideia de que, em um passado distante, quando tudo era
natural, todo mundo era mais saudável. Mas isso não é verdade. Não sabia da
existência dessa orientação no Brasil, e estou chocado...
Por que a adaptação
da comida à vida moderna é vista como algo ruim?
Alan Levinovitz: Ao fazermos esta entrevista, estamos realizando algo incrível. Eu estou
na minha casa, em uma sala com ar condicionado, falando com você ao telefone,
apesar de estarmos em continentes diferentes. É ótimo, certo? Embora tal
situação não seja uma coisa natural, não nos sentimos em perigo por isso. Por
que, quando se trata de comida, a tendência das pessoas é achar que há algo
negativo na modernidade? Com moderação, dá para se servir de tudo. Para
aproveitar a vida, o importante é ser flexível e não ficar o tempo todo impondo
regras a si próprio. Conheço gente que deixa de ir a reuniões familiares por
não saber a origem do que será servido. Ou deixa de mandar o filho a festas
infantis por medo do açúcar colorido artificialmente. Viver com medo de ser
impuro é viver com medo de estar doente. Isso é estressante, e pode levar a
distúrbios alimentares. Não podemos viver como monges modernos. Comer não é
somente um hábito para ser saudável e manter o peso. É também divertir-se com
amigos, desfrutar cultura e história. Não podemos transformar os alimentos em
remédios.
Há relação entre
proselitismo religioso e proselitismo alimentar?
Alan Levinovitz: Certamente. Pessoas que realmente são sensíveis ao glúten não tentam
convencer as demais a abandonar o glúten. Para elas, cortar o glúten é uma
necessidade médica. Quem faz proselitismo, seja da dieta paleolítica, seja da
vegetariana ou de outros modismos, acha que vive de uma maneira superior e, por
isso, quer atrair o maior número de adeptos para sua religião. Fazer
proselitismo de comida e de exercícios físicos é um modo de definir a própria
identidade como superior à dos outros.
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Livro de Alan Levinovitz que será publicado em breve no Brasil. Título (tradução livre): "A Mentira do Glúten e outros Mitos sobre o que Você Come" |
As duas formas de
proselitismo são igualmente ruins?
Alan Levinovitz: Se uma pessoa acredita que sua fé faz bem e proporciona uma vida
melhor, é positivo convencer os outros a se juntarem a ela. Mas é triste ver o
mesmo entusiasmo religioso aplicado à comida e aos exercícios. Os seres humanos
amam dominar os outros, dizer o que devem fazer. Os governos, particularmente,
adoram fazer isso.
Assim como na
religião, há entre as dietas uma competição para ser a mais pura e radical?
Alan Levinovitz: Sim, essa é a regra. Nos Estados Unidos, a dieta paleolítica é muito
popular. Nela, tenta-se imitar a alimentação dos nossos ancestrais. Isso nada
mais é que uma versão da busca pelo paraíso perdido. Mas há muitas variações
dessa dieta e há diferentes grupos que divergem como praticá-la. Alguns dizem
que não é permitido nem comer tomates porque são ervas-mouras e não existiam
antigamente. Outros pregam que, para ser paleolítico de verdade, não se podem
fazer exercícios em uma academia. É preciso fazê-los ao ar livre. Por isso,
muitos são adeptos do crossfit, que
se tornou muito popular. Contudo, assim como na religião, não se pode ser muito
fundamentalista, ou não haverá novos adeptos. Os que só comem alimentos crus ou
plantas que só existiam há 10.000 anos vão se dar conta uma hora de que, se
quiserem que façamos parte do grupo deles, será preciso afrouxar as regras. As
religiões também tendem a ser muito puras no início, e depois ficam mais
flexíveis.
Que influência as
celebridades exercem sobre os hábitos alimentares das pessoas?
Alan Levinovitz: Em uma era em que as mídias digitais se tornaram muito populares e
acessíveis, as estrelas de cinema e os atletas assumiram o papel dos santos do
passado. Em vez de olharem para os textos religiosos, os indivíduos leem o que
as celebridades dizem porque querem alguém para guiá-los. Eles também acreditam
que, se fizerem o mesmo que os famosos, terão um resultado igual ao deles.
Santidade, atualmente, é um conceito distorcido.
Por que as
religiões alimentares quase sempre apontam o capitalismo como o maior dos
males?
Alan Levinovitz: Movimentos religiosos originam-se muitas vezes do sentimento de perda
de poder e do desejo de culpar alguém. A verdade é que humanos morrem, ficam
doentes. É muito frustrante. Então, procuramos culpados, e geralmente fazemos
isso apontando o dedo para quem tem poder. Atualmente, a maior fonte de poder
são os governos democráticos e a indústria capitalista, mas são eles, sem sobra
de dúvida, os responsáveis pela melhora na nossa qualidade de vida. Podemos ir
a um supermercado e encontrar frutas de qualquer parte do mundo. Apesar disso,
é fácil acreditar que no passado, sim, era tudo um paraíso. Então, para muitos,
o capitalismo e a democracia representam a modernidade que nos afasta do mito
do paraíso.
A indústria
alimentícia está em perigo?
Alan Levinovitz: Claro que não. Os empresários estão muito felizes em vender bebidas sem
adição de açúcar e alimentos sem sal. No mundo dos alimentos, os donos das
empresas que vendem alimentos orgânicos são os mesmos das que vendem os não
orgânicos. Eles simplesmente não ligam para isso.
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