ENEM: qual realidade emerge sobre a EDUCAÇÃO no Brasil?
Presença de escolas públicas entre as melhores
do Enem cresce novamente
André Monteiro
(São Paulo) e Flávia Foreque (Brasília)
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Renato Janine Ribeiro - Ministro da Educação - divulga dados do ENEM 2014 |
A
presença de escolas públicas entre aquelas com as melhores médias do Brasil na
prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)
avançou novamente no ano passado, mas ainda é minoritária.
A elite das escolas públicas é formada
por uma maioria de colégios federais,
que geralmente têm cursos técnicos ou são ligados a universidades e fazem
seleção de alunos.
O
desempenho das escolas no Enem 2014 foi divulgado nesta quarta-feira (5 de agosto) pelo
Ministério da Educação [MEC].
Confira a nota de cada escola no Enem 2014 e
veja a lista das melhores e piores, clicando aqui.
Para
calcular a média dos colégios, a Folha de
S. Paulo considerou as quatro provas objetivas do Enem – linguagem,
matemática, ciências humanas e da natureza.
Os
dados mostram que, entre os 10% dos
colégios mais bem colocados no exame do ano passado, 9,4% deles eram públicos.
Em
números absolutos, foram 147 instituições que ficaram entre as 1.564 na elite
do país. Desse grupo de escolas públicas que ficou no topo, 67% são escolas
federais e 31% são estaduais.
A
maior parte das escolas estaduais
também é formada por escolas técnicas
– dentre os cem colégios públicos de São Paulo com as médias mais altas, por
exemplo, todos têm curso técnico.
No
último Enem, eram 7,3% escolas públicas entre as melhores no exame – o primeiro
avanço em quatro anos.
Essa
participação passou a cair em 2009, quando o Enem foi ampliado e passou a
funcionar na prática como vestibular para selecionar calouros das universidades
federais.
Apesar do novo avanço, a
escola pública com melhor média aparece só na 22ª posição do ranking: o Instituto Federal do Espírito Santo, em Vitória, colégio técnico
que seleciona seus alunos.
No último Enem, o público
com maior nota
– colégio de aplicação da UFV (Universidade Federal de Viçosa-MG) – aparecia na 12ª posição. Nos resultados
de 2012, a mesma escola figurava em 7º, mas em 2014 ela aparece em 32º.
O
ranking nacional é liderado pelo Objetivo
Integrado, colégio particular da capital paulista no topo da avaliação nacional pelo sexto ano consecutivo.
Ao todo, 15.640 escolas
compõem o ranking. Só foram divulgadas as notas de instituições com mais de dez alunos
no 3º ano do ensino médio e onde mais da metade deles fez a prova.
Especialistas
veem com cautela o desempenho de escolas no Enem. Dizem que avanços no ranking
não significam melhora das redes de ensino, o que só é obtido com provas que apuram a qualidade da educação,
como a Prova Brasil.
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Ranking das 100 melhores escolas classificadas pelo ENEM 2014 |
PERMANÊNCIA
Neste
ano o governo ampliou mais uma vez a quantidade de indicadores incluídos na
divulgação das médias das escolas.
No
ano passado, o Inep (órgão do MEC
responsável pelo Enem) já havia divulgado o nível socioeconômico dos colégios,
um índice sobre a formação dos professores, e a média dos 30 melhores alunos
das instituições.
Agora,
também passou a divulgar um "indicador
de permanência", que mostra a porcentagem
de participantes do Enem, em cada escola, que cursou todo o ensino médio no
mesmo estabelecimento.
O
presidente do Inep, Chico Soares,
diz que o objetivo é destacar "as escolas que realmente ajudam seus alunos
a melhorarem, que oferecem educação de qualidade durante todo o ensino médio, e
quais são aquelas que, simplesmente, selecionam alguns para cursarem apenas o
terceiro ano".
Diretores
reclamavam que, nos últimos anos, algumas redes de escolas criaram unidades
específicas para abrigar os melhores alunos e, assim, inflar seu desempenho no
Enem.
Para
o Inep, a divulgação de indicadores junto com as médias do exame ajudam a
contextualizar o desempenho de escolas com realidades muito diferentes.
"As
escolas são heterogêneas e sendo
assim, não podem ser colocadas numa
métrica única. É essa a imagem que estamos tentando passar. Estamos
dizendo: existem muitos rankings. O que
define o desempenho no Enem é um conjunto muito grande de fatores",
diz Soares.
PIOR
NOTA
A
escola com pior desempenho no Enem do ano passado foi a Doutor Augusto Monteiro, colégio estadual que fica na zona rural de Rio Branco, no Acre. Com
apenas 15 alunos no último ano do ensino médio –12 fizeram a prova–, a escola
tem poucos professores com formação específica na disciplina que lecionam – 17%
do total.
Segundo
o Inep, a formação do corpo docente
"está diretamente relacionada ao desempenho escolar". Nos
colégios entre os 10% mais bem colocados no exame, a média de formação adequada
dos professores é de 69%.
Em
São Paulo, a Escola Estadual Professor
Sergio Murillo Raduan, no Jardim
Varginha, extremo sul da capital paulista, foi a que apresentou o pior
desempenho. A escola obteve 466,3 pontos no exame do ano passado. Em 2013, a
escola não teve os dados divulgados pelo Inep por não ter atingido os critérios
para a divulgação.
Fonte: Folha de S. Paulo –
Educação –
05/08/2015 – 11h37 – Internet: clique aqui.
A N Á L I S E S
Enem: Pare, olhe, escute
Fábio
Takahashi
São Paulo
A divulgação dos resultados do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2014 pode assustar e até confundir quem quer apenas dar uma passada de olho pelos resultados. São 18 índices de qualidade, para cada escola de ensino médio. Mas para quem quer conhecer melhor um colégio, vale a pena gastar um tempo nas tabelas.
Hoje
é possível saber, além das notas dos alunos em cada área, a taxa de
participação dos estudantes no exame. Se ela for baixa, o resultado da escola é
menos robusto. Será que houve seleção
dos melhores?
Também
é possível ver quantos alunos do colégio cursaram todo o ensino médio ali,
índice apresentado pela primeira vez neste ano. Se forem poucos, será que a escola criou um 3º ano de elite para bombar
a nota?
Também
é possível ver o nível socioeconômico dos estudantes da escola. É mais justo comparar colégios semelhantes.
Também é possível ver o percentual de professores que lecionam em sua área de
formação; quantos estudantes reprovam; quantos abandonam.
Para
quem procura um colégio para o filho ou quer avaliar se a matrícula está
valendo a pena, são informações preciosas. Sem
perder de vista que o Enem é um exame, não o diagnóstico completo. Conversa
com a direção, pais e alunos das escolas são tão importantes para entender um
colégio quanto as tabelas do Enem.
Para
quem quer encarar esse turbilhão de dados, eles estão no site do Inep [clique aqui].
Fonte: Folha de S. Paulo – Educação – 05/08/2015 – 11h37 – Internet:
clique aqui.
Enem mostra que desigualdade persiste
Antônio
Augusto Batista e Paula Reis Kasmirski*
Escolas mais “bem-sucedidas” são as de maior nível
socioeconômico e cujos alunos não estudaram todo o ensino médio na instituição
A origem social, entre
outros fatores, é o principal para o sucesso escolar. Até 2013, a simples
apresentação dos resultados do Enem tendia a ocultar o efeito das desigualdades
sociais e econômicas, transformando-as em um mero ranqueamento de melhores e piores
escolas.
Desde 2014, com as mudanças
realizadas no tratamento e divulgação dos dados do Enem, o Inep demonstra como
seus resultados não podem traduzir a qualidade do ensino sem considerar outros
fatores associados. Agora, temos elementos para interpretar esses indicadores. A
conclusão é desalentadora.
As
escolas mais “bem-sucedidas” são as de maior nível socioeconômico e também
aquelas cujos alunos não estudaram todo o ensino médio na mesma instituição.
Isso evidencia uma perversa prática de
seleção de estudantes.
Outro
ponto importante: no 3º ano do ensino
médio, 23,8% dos alunos estão dois ou mais anos acima da idade adequada. Na
rede privada, essa distorção é de 5,5%; na pública, alcança 26,8%. Na Região
Norte é de 44,7% e na Sudeste, de 16,9%. Os dados mostram o efeito negativo da
retenção: escolas com maiores médias são
as que têm menor porcentual de alunos com distorção idade-série.
Mas
há dados que o Enem não mostra. Ainda
temos 1,6 milhão de jovens de 15 a 17 anos fora da escola de nível médio. O
problema é maior. E não é com cortes no orçamento do MEC e campanhas
anacrônicas, como “Brasil, Pátria
Educadora”, que o País reverterá este quadro.
*
Antônio Augusto Batista é coordenador de pesquisas do Centro
de Estudos e Pesquisas em Educação e Ação Comunitária (CENPEC) e Paula Reis Kasmirski é pesquisadora neste
mesmo centro.
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