Presidente da CNBB fala sobre o momento atual e o seu ministério em Brasília
Entrevista
com Dom Sergio da Rocha
Arcebispo
de Brasília – DF e
Presidente
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
Ana Dubeux,
Dad Squarisi e Carlos Alexandre
Presidente
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil [CNBB] e arcebispo de Brasília, dom Sergio da Rocha considera missão da
Igreja participar da política. Mas a atuação segue os propósitos católicos,
baseados na ética e no bem comum, diferentemente dos interesses partidários e
corporativos que ditam governos e campanhas eleitorais.
Atento
observador da sociedade, o arcebispo afirma que, em tempos de crise, a Igreja tem de exercer o papel do profeta:
questionar, transformar, sem receio de desagradar ao senso comum. Esse
posicionamento explica a decepção com a
atabalhoada reforma política conduzida no Congresso — “a gente esperava muito mais” — e a ressalva ao pacto pela
governabilidade — “Um pacto não vai
deixar de lado, por exemplo, a luta contra a corrupção”.
A
postura cristã também fundamenta a posição
da CNBB contra a redução da maioridade penal, apesar da imensa vontade
popular. Paulista da cidade de Dobrada, dom
Sergio diz “ter cabeça de cidade, mas coração rural”. Aos 55 anos, está
encantado com a receptividade do brasiliense, em particular nas regiões mais
simples. Mas chama a atenção para os problemas sociais. Cita em particular o drama dos imigrantes, que vêm de
regiões conflituosas da Ásia e da África e vivem em condições precárias nas
cidades do Distrito Federal [DF].
A
CNBB se posicionou firmemente em favor da reforma política. Houve avanço?
Dom Sergio da Rocha: A gente esperava muito
mais. O assunto merecia ser muito mais discutido pela sociedade civil
organizada. É claro que se trata de um tema complexo, permite diferentes
posturas, mas não quer dizer que não era importante. Ou que a Igreja não tinha
nada a ver com isso. É claro que a Igreja tem a ver com isso! Ninguém é cristão
apenas dentro da Igreja, só dentro do templo. Nós somos cristãos fora dele, no
dia a dia. A Igreja não pode ficar só na sacristia. Tem de sair, ir ao encontro
das pessoas. Precisa ter a palavra dela. Não sei se o projeto da reforma
política ainda consegue avançar, mas pelo nível da tramitação, é difícil
esperar muito mais. E não é porque um assunto está há muito tempo no Congresso
que ele deva ser resolvido logo. Por mais urgente que seja, se não há uma
participação maior da sociedade, fica difícil ter esperança de que um projeto
vai realmente atender à necessidade da população. É preciso escutar mais para
tomar decisões sábias.
A
corrupção é outro grave problema?
Dom Sergio da Rocha: A corrupção também poderia
ser superada com a ajuda de uma reforma política. Poder-se-ia ao menos prever
melhores medidas que ao menos ajudariam a superar o problema da corrupção, que
é uma praga. O próprio papa Francisco diz que a corrupção é uma praga que clama
aos céus. É algo que destrói a vida das pessoas. O processo ainda não está
concluído no Congresso; portanto, ainda não se pode perder a esperança.
O
que fazer para melhorar?
Dom Sergio da Rocha: Esse campo é muito
delicado, qualquer coisa que se afirme é motivo de controvérsia. Por isso, a
CNBB não dogmatizou a questão. Alguns entenderam de uma forma que não era
adequada. A igreja não se manifestou ameaçando ninguém. Na verdade, era uma
ocasião para se refletir, para se informar mais, para participar mais da vida
política. Política no Brasil está muito restrita a partidos. Não se pode ficar
refém de partidos. O povo, as comunidades têm de participar. No caso da Igreja,
é claro que não temos postura político-partidária. Insistimos na importância da
participação. Por exemplo, a questão do financiamento de campanha: esse é ponto
que precisa ser mais bem considerado. Converse com as pessoas — não precisa ser
um especialista — e diga que uma determinada empresa ofereceu milhões para um
determinado candidato. Nunca ouvi ninguém dizer que acreditava que isso era por
patriotismo.
O
poder econômico interfere?
Dom Sergio da Rocha: Não estou dizendo que está
tudo errado. Estou dizendo que, no mínimo, é de se questionar as intenções. Com
tantas necessidades no país, com tantas obras assistenciais precisando de
dinheiro, como é que alguém vai entender que uma empresa ofereça tanto? A gente
tem visto que, no fundo, essa questão tem, sim, relação com a corrupção.
A
empresa deve doar?
Dom Sergio da Rocha: A CNBB foi uma das mais de
cem entidades que participaram dessa coalizão em favor da reforma política. Ali
a postura é contrária ao financiamento por parte de empresas. Se não se criar
uma nova forma de fazer política no Brasil, é muito complicado a gente
continuar com esse esquema baseado em interesse mais particular, de grupos, de
bancada. Precisamos criar mecanismos legais para que a política, os políticos,
as autoridades coloquem o bem comum acima de tudo. Muitas vezes vemos brigas
tremendas, mas nem sempre esses conflitos são por causa do bem do povo. São por
interesses de grupos. Seria bom que brigassem por interesse público.
O
movimento do Ministério Público e da Polícia Federal, com a Operação Lava-Jato,
é uma tentativa de mudança para que a corrupção não continue sendo uma praga?
Dom Sergio da Rocha: Creio que essas entidades
têm dado um contribuição muito importante. Permitem uma nova maneira de pensar a
política, de fazer política, de resgatar a ética. Esperamos que possa surgir um
novo modo de fazer política desse processo doloroso que estamos vivendo. O povo
já não aguenta mais tanta corrupção.
As
mídias sociais ajudam na politização da população?
Dom Sergio da Rocha: Elas têm um alcance imenso,
mas há uma ambiguidade presente. Insistimos para que essa crise política e
econômica não descambe em uma crise institucional, pondo em risco a ordem
democrática. É importante, em momentos de crise, que haja diálogo, respeito
entre as instituições. E o que acontece nas redes sociais? Delas sai de tudo.
As redes sociais não são território imune, sob o ponto de vista moral. Ao
contrário, ali também podem se expressar posturas, atitudes, propostas que não
são convenientes.
Alguns
grupos falam em um grande pacto para manter a governabilidade. A CNBB está
pronta a integrar algum desses grupos?
Dom Sergio da Rocha: Depende do que se entende
por pacto, que é uma palavra de múltiplos significados. Hoje nós estamos em um
momento de polarização política muito forte e com uma diversidade muito grande
de partidos. Temos contato com diversas autoridades, inclusive a presidente da
República. Tivemos esse momento inicial de diálogo e continuamos dispostos a
dialogar para buscar o melhor ao nosso povo. Mas creio que qualquer pacto
jamais vai sacrificar a verdade ou a justiça. Ao contrário, um pacto não vai
deixar de lado, por exemplo, a luta contra a corrupção. O que significa, então,
esse pacto? É colocar o bem do povo acima de qualquer interesse particular, partidário
etc. Preocupa muito esse jeito corporativista de fazer política.
Está
cada vez mais arraigado?
Dom Sergio da Rocha: Sim, e com isso fica muito
difícil superar aquilo que está na raiz da corrupção, que é esse toma lá dá cá. A coisa pública fica em
um segundo plano, e os interesses partidários, pessoais ou de grupos
prevalecem. Sempre haverá a necessidade de vigilância, com a Justiça Eleitoral
e a Polícia Federal, por exemplo. Mas eu diria que o primeiro juiz deveria ser
o eleitor. Se o povo tivesse um pouco mais de discernimento na época da
eleição, daria menos trabalho para a Justiça Eleitoral. Se o primeiro tribunal
fosse a consciência do eleitor, restaria menos trabalho para os tribunais que
cuidam de tudo isso. É lógico que nunca haverá eleitores perfeitos, com discernimento
pleno. Mas nada exclui de ter uma reflexão mais séria.
A
Igreja pode ajudar nisso. Na verdade, sempre ajudou.
Dom Sergio da Rocha: A Igreja ajuda, e alguns
até acham que a CNBB ajuda demais, que ela interfere além da conta. A CNBB não
tem postura político-partidária. Se um ponto ou outro de seu ensinamento e de
suas práticas coincidir com a de algum partido, não é por opção nossa. A CNBB,
desde os seus inícios, foi objeto de questionamento, de discordância. Em outros
períodos da nossa história, a CNBB também era questionada, e sempre será. Mas,
se ela for questionada por fidelidade a Cristo, a valores éticos, é até melhor.
Essa
postura mais crítica, de maior conscientização, será uma característica de seu
mandato?
Dom Sergio da Rocha: Acredito que estamos dando
continuidade ao que já se fazia anteriormente. O que acontece é que o momento
que temos vivido tem levado a CNBB a pronunciamentos. O que estamos fazendo
agora é ter presente essa missão da Igreja nas atuais circunstâncias, de crise.
Crise exige mais profetismo. Só que é preciso cuidado: se pegarmos a palavra
crise nas suas origens, ela tem o sentido de purificar para surgir algo novo.
Nós estamos esperando que desse processo todo, que é doloroso, possa surgir um
novo jeito de fazer política, um novo jeito de servir o povo.
A sociedade assiste a dois
movimentos muito fortes. Ao mesmo tempo em que o STF legitima a união
homossexual, existem setores que defendem de forma veemente a família
tradicional. Qual é a posição da CNBB e da Arquidiocese nesse debate?
Dom Sergio da Rocha: A posição da Igreja tem
sido muito clara porque, até o momento, não houve alteração doutrinária. A
mudança não tem sido doutrinal, tem sido pastoral. Quando se fala de
matrimônio, tem-se presente o homem e a mulher que se unem dentro das condições
da Igreja. O que tem-se discutido é a questão de direitos civis. A Igreja tem
insistido que não se pode equiparar o conceito de matrimônio como base da
família e que dá base para o sacramento. A Igreja é contra qualquer forma de
discriminação injusta, mas é preciso que se reafirme o valor do matrimônio
fundamentando a vida familiar.
Essa
visão da Igreja, a seu ver, é um avanço?
Dom Sergio da Rocha: Há grupos que aceitam e até
vão além, mas há grupos, dentro da Igreja inclusive, que têm dificuldade com
essa postura defendida pelo papa.
Daí
a necessidade de se fazer uma coisa mais lenta?
Dom Sergio da Rocha: Olha, a Igreja tem uma
tradição milenar. Nas diferentes épocas, mas a Igreja às vezes enfatiza um
aspecto. O que existe são mudanças pastorais. É claro que é preciso uma
fundamentação teológica. Sem um alicerce, uma casa não fica em pé. Para ter
novas posturas, é preciso trabalhar e aprofundar os fundamentos, que são
bíblicos, teológicos, filosóficos, antropológicos. Por quê? Por trás dessa e de
outras discussões, existem diferentes concepções de pessoa humana. O critério
pastoral da Igreja não é agradar ao mercado. Isso é perigoso. Para agradar ao
mercado, nós nos transformaríamos em uma religião de mercado. Seríamos uma
empresa que oferece um produto que o mercado quer. Se amanhã os “consumidores
de religião” quiserem algo diferente, nós não podemos simplesmente ir a reboque
do mercado. Lógico que a Igreja tem de considerar as situações concretas, as
aspirações, os problemas, as mudanças efetivas na sociedade e na cultura. Mas a
Igreja não pode mudar simplesmente porque há um gosto para lá ou para cá, senão
nós entraríamos no âmbito da moda.
Isso
explicaria, então, a CNBB se posicionar contra a redução da maioridade penal,
diferentemente da maioria da população brasileira?
Dom Sergio da Rocha: Sim. Se nosso critério
fosse seguir aquilo que a maioria pensa, então é claro que não teríamos
posturas proféticas. O profetismo é sempre uma palavra que questiona. A palavra
profética é questionadora, é transformadora. Quando você quer agradar pura e
simplesmente, você diz: “Bom, já que todo mundo está assim, vamos por aí”.
Sobre a maioridade penal, lamentavelmente têm faltado dados mais efetivos a
respeito da realidade. Estão ocorrendo discussões acaloradas no Congresso, mas
faltam dados. E aí entra um fator que pesa. Há, de fato, situações, crimes, que
comovem as pessoas. Então a tendência de muita gente é responder
emocionalmente. Nós somos solidários com quem sofre, com as vítimas da
violência. Sabemos que há famílias que vivem dramas terríveis, sejam praticados
por maior ou menor. Nós nos compadecemos, não quer dizer que não temos coração.
Acontece que se deixar levar pela comoção diante de certos fatos não é
suficiente para mudar a legislação brasileira.
Há
uma falsa impressão de que encarcerar jovens vai resolver o problema da criminalidade.
Dom Sergio da Rocha: A nota da CNBB usa a
palavra “equívoco”, de forma respeitosa, porque pode haver no meio da discussão
gente muito bem-intencionada. Não estamos dizendo que as pessoas que defendem a
redução são maldosas. Mas temos insistido que se coloquem em prática as medidas
socioeducativas já previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente [ECA]. O
ECA não tem sido devidamente aplicado. As autoridades têm o seu papel nisso. São
necessárias políticas públicas para a criança e o adolescente. Nós precisamos
investir em escola, pelo amor de Deus! Na mesma nota da CNBB, nós da Igreja nos
dispusemos, como comunidade, a ser um espaço para ações socioeducativas,
esportivas, culturais. A juventude precisa disso. Acho muito triste se
responsabilizar. É como se o problema da criminalidade e da violência tivesse a
ver com os menores: uma vez reduzindo a maioridade, o problema estaria
resolvido. É aí que está o equívoco. E ainda tem o nosso sistema carcerário.
Ele está em situação tal que não dá para dizer que vai educar e formar um
adolescente.
Houve
muitas críticas à nota e até a utilização indevida por parte de parlamentares.
No momento em que a democratização da informação possibilita o surgimento de
críticas mais pesadas, a Igreja tem trabalhado de uma forma diferente para
fazer esses comunicados?
Dom Sergio da Rocha: Procuramos comunicar nossa
postura, respeitando a pluralidade que possa existir. No caso da maioridade
penal, a Igreja reflete seriamente, a partir de valores éticos, a dignidade do
adolescente, o valor da criança. As pessoas podem dizer: “Ah, mas ele é menor
infrator, ele está em conflito com a lei”. Sim, mas não perde a dignidade. Aí
está o problema. Muitos entendem que dignidade depende de condições. Então um
morador de rua não tem dignidade nenhuma? Não tem direito nenhum, pode-se fazer
dele o que se quiser? No caso do adolescente infrator, vá ouvir a mãe dele. De
um modo geral, eles são vítimas de violência da sociedade.
Durante
muito tempo a Igreja se afastou, mas agora há uma reaproximação com os fiéis.
Qual é a importância desse reencontro no Distrito Federal?
Dom Sergio da Rocha: A vida em comunidade tem
crescido cada vez mais. Isso é muito importante não só para a sociedade, mas
também para a Igreja. Aquele estilo tradicional de grande paróquia,
centralizada na matriz, não costuma dar resultado pastoral, não favorece a vida
comunitária. Na medida em que nós vamos valorizando comunidades — com capela ou
sem capela —, nós estamos tendo um fenômeno no DF que faz recordar os inícios
do Cristianismo. Durante 300 anos, a Igreja existiu nas casas. Nós não tínhamos
templos. Tínhamos a Igreja acontecendo em residências, sobretudo naquele
período em que era proibido se manifestar publicamente. Hoje, também pela nova
maneira de se organizar a cidade — existem condomínios que não permitem a
construção de igreja —, precisamos cultivar ainda mais a Igreja como comunidade
pequena. É preciso oferecer a experiência de Deus por meio da oração, mas é
também preciso um espaço de vida fraterna. As pessoas vivem muito sofridas. Às
vezes nas suas casas, nas suas famílias, não têm essa experiência.
O
senhor tem encontrado muitas famílias fragmentadas?
Dom Sergio da Rocha: Temos encontrado, e a
Igreja está muito preocupada. Tanto que teremos em outubro, em Roma, o Sínodo sobre a Família. Devo ser um dos
quatro bispos que representarão o Brasil. Passaremos um período longo com o Papa
e outros bispos do mundo. Estamos preocupados porque vemos isso na prática.
Encontramos famílias muito fragilizadas, não só nos laços internos. As pessoas
são muito sofridas também em consequência de problemas sociais — tem muita
violência, o que leva as pessoas a um estilo de vida muito triste.
Há
problemas no lar também?
Dom Sergio da Rocha: O problema da família
fragilizada tem a ver com o dia a dia dos membros. As pessoas não se encontram
mais. É lamentável. Antes, ao menos havia uma refeição dominical... Então a
família vai se enfraquecendo e as pessoas perdem uma referência fundamental. A
Igreja fica preocupada, mas não queremos ficar apenas no sentimento. Estamos
buscando entender melhor a situação do matrimônio da família e, a partir daí,
oferecer a nossa contribuição. Um dos aspectos importantes é a Igreja se
apresentar como família. E não como uma instituição burocrática.
O
papa Francisco é muito aberto em relação à família, não?
Dom Sergio da Rocha: Na verdade, o Papa e a
Igreja em seus documentos têm reafirmado a importância da família. Respeita-se
essa pluralidade de situações na sociedade, mas não se perdeu e não se quer
perder de modo algum o referencial bíblico. A primeira fonte para o trabalho
pastoral e para a reflexão teológica é a fonte bíblica. Embora haja muita
mudança cultural, a família não deixa de ter o seu papel. O papa quer é que a
Igreja esteja atenta a essas diversas situações.
Como
as pessoas em segunda união?
Dom Sergio da Rocha: Exatamente. A Igreja está
procurando servir cada vez melhor essas pessoas, de forma que elas se sintam
amadas por Deus e acolhidas pela igreja. Porém, a igreja não deixa de propor o
valor da fidelidade conjugal, da perenidade do matrimônio. Para aqueles que não
têm conseguido alcançar esses valores ou a vivência desses valores, o papa tem
insistido na misericórdia — tanto que ele instituiu o Ano da Misericórdia — na
atenção e na acolhida a essas pessoas. A Igreja procura oferecer acolhimento,
mas sem deixar de ser fiel aos valores que recebemos da Sagrada Escritura e da
tradição da Igreja Católica.
Essa
mesma compreensão se estende aos homossexuais?
Dom Sergio da Rocha: A questão da
homossexualidade precisa ser considerada como tal. Não é de agora que a Igreja
começou a tratar desse assunto ou a ter uma postura pastoral de atenção maior,
de acolhida, de misericórdia. Em 1986, um documento muito interessante e pouco
conhecido foi publicado pela Congregação pela Doutrina da Fé, então presidida
pelo cardeal Ratzinger, depois papa Bento. O título era O cuidado pastoral das pessoas homossexuais. Já se procurava dar
mais atenção, compreender, acolher essas pessoas de tal modo que elas também se
sentissem amadas por Deus e pela Igreja. Hoje o papa Francisco, naturalmente,
tem enfatizado a misericórdia nos vários relacionamentos humanos.
Por
quê?
Dom Sergio da Rocha: É importante considerar que
uma pessoa tem o seu valor, sua dignidade inerente à natureza dela. A Igreja
defende que a dignidade de uma pessoa é incondicional. Não pode depender de
condições sociais, por exemplo, ou de sexualidade. Por isso uma pessoa
homossexual, enquanto ser humano, deve ser respeitada, valorizada, acolhida.
Agora é claro que a Igreja sempre propôs para as pessoas das mais diferentes
condições, inclusive homossexuais, o Evangelho, a palavra de Deus, uma vida
moralmente reta, a ética nos relacionamentos humanos, a ética na sexualidade.
Não quer dizer que pelo fato de a Igreja ou do papa atual estar compreendendo
cada vez melhor essas pessoas que a Igreja vá dizer “cada um faz o que quer,
vive como quer”.
Enxerga
uma política diferente aqui no governo do DF?
Dom Sergio da Rocha: Uma política diferente, em
primeiro lugar, precisa se pautar pela honestidade. Sobretudo no uso dos
recursos públicos. Segundo, tem de se considerar a justiça social, até que
ponto as medidas tomadas efetivamente ajudam os mais pobres. Isso exige políticas
públicas concretas, não apenas desejo. E o terceiro ponto: o diálogo com a
sociedade precisa acontecer. Eu me alegro aqui no DF porque o governador tem
mostrado abertura para o diálogo e para parcerias. Como a Igreja tem uma
atuação ampla no campo social, no serviço da caridade, nós esperamos que esse
novo jeito de fazer política implique o uso de recursos públicos que priorize
essas áreas.
Dom Sergio da Rocha: Um dos pontos fortes é o
serviço prestado à população de rua. É um projeto que já vem vindo, mas que
recebeu um novo apoio. A Igreja, por meio da Casa Santo André, no Gama, tem atuado bastante nesse campo. Mas nós
temos creches, escolas, asilos... a Igreja tem um número imenso de obras
sociais que necessitam também do apoio público. Necessitam de parcerias, não de
privilégios.
A
situação dos imigrantes o preocupa?
Dom Sergio da Rocha: Esse é outro ponto que
gostaria de destacar. É preciso dar muito mais atenção a esse fenômeno, que
está crescendo no DF. São pessoas que vêm de regiões pobres, sofridas ou em conflito
— Ásia, África, Oriente Médio. Estamos recebendo um número muito grande de
imigrantes, e eles se concentram em algumas áreas, uma delas é Samambaia. A Comissão de Justiça e Paz da
arquidiocese tem acompanhado muito de perto essa realidade, e estamos
procurando oferecer a nossa ajuda. Aí está um campo inteiramente novo, e
desejamos mais parcerias. É claro que é um problema em nível nacional. Mas em
nível local, independentemente disso, essas pessoas estão aí. Chegam de uma
forma que às vezes não é muito clara e vivem de uma forma muito limitada, com
direitos muito restritos. Muitas vêm de situações de conflito político
religioso ou de guerras, então é difícil para elas encontrar ajuda até nas suas
representações diplomáticas. Quem é que cuida dessa gente? Elas ficam como se
fossem pessoas que não olham por elas.
Brasília
é uma cidade diversa e plural?
Dom Sergio da Rocha: Sem dúvida. Nós estamos em
uma época em que, no mundo — veja a Europa, parte dos Estados Unidos —, um dos
grandes desafios é a convivência pacífica entre pessoas de origens e culturas
diversas. Eu acho tão bonito! Quando encontramos isso na nossa cidade,
precisamos valorizar. Mas não vejo essa característica de Brasília ressaltada
fora daqui. Você sai de Brasília e não é muito comum as pessoas falarem desse
aspecto. É como se aqui não tivesse coisa boa. Se uma capital federal tem essa
virtude, temos de valorizar. Então eu me sinto já brasiliense nesse sentido.
O
senhor gosta de fazer caminhada, sair pela cidade?
Dom Sergio da Rocha: Eu insisto no seguinte — e
isso não é apenas postura pessoal. É postura pastoral. Não se conhece a
realidade do povo, da Igreja, das famílias ficando dentro da casa paroquial ou
dentro do carro. Há uma diferença imensa. Percorrer a rua, entrar nas casas,
conversar com as pessoas, ouvi-las, é muito diferente. Eu valorizo
estatísticas, mas números não substituem pessoas. Mesmo com pesquisas para
conhecer a realidade, você só a conhece caminhando no meio das pessoas, estando
com elas. E isso seria muito bom, por exemplo, da parte dos políticos ou de quem
exerce o poder público. Geralmente, essa proximidade do povo se dá em época de
eleição. Como é que alguém vai defender interesses efetivos da população se não
estiver próximo?
Depois
da eleição, todos somem.
Dom Sergio da Rocha: É uma pena. Na Igreja, o
papa Francisco tem estimulado os bispos, os padres, a terem a atitude de estar
com o povo. Amar uma pessoa de longe pode ter algum valor. Mas é pouco.
O
que o encanta em Brasília?
Dom Sergio da Rocha: Essa mistura de gente de
toda parte do país. A convivência respeitosa que, de modo geral, podemos
observar. Tem gente do Brasil inteiro, tem gente de fora do Brasil, e a
convivência é muito boa. É uma das virtudes de Brasília. Quando vou para fora e
se fala de Brasília, o pessoal sempre pensa em problemas, em mazelas, em coisas
políticas. Mas há uma coisa em Brasília muito bonita: aqui parece uma grande
família. Veja, por exemplo, Ceilândia. É claro que há bastante gente do
Nordeste, mas vem gente de toda parte. Cada grupinho que você encontra, você
pergunta, cada um é de um lugar.
Qual
é sua avaliação após quatro anos à frente da arquidiocese?
Dom Sergio da Rocha: Destaco dois aspectos. O
primeiro é esse, da presença da Igreja na sociedade. O que nós fizemos até agora
vale, traz esperança, mas ainda temos muito pela frente. O segundo aspecto é o
de missão.
A igreja missionária não fica fechada sobre si. Olha para além dos muros. Olha
para os mais feridos, os mais sofridos. E, por último, há alguns campos que
ainda não conseguimos trabalhar direito, e que estamos insistindo. Por exemplo:
o campo das artes, da cultura, do esporte. A evangelização de quem está no
mundo artístico e esportivo é necessária pelo seguinte: quem está ali precisa
de Deus. Se é gente, precisa de Deus.
Alguma
atividade a mais?
Dom Sergio da Rocha: Temos tido aqui na
arquidiocese as conversas de Justiça e Paz. Elas acontecem aqui no auditório da
Cúria, que tem o nome do nosso caríssimo cardeal Dom Falcão. Elas acontecem na
primeira segunda-feira do mês. Por que isso é muito bom? Primeiro porque nós
não precisamos apenas de diálogo, precisamos instituir mecanismos de diálogo. E
não é um diálogo igrejeiro. Pelo contrário, tem sido sempre situação social,
política, cultural. Na última vez foi sobre tolerância. O governador já esteve
nessas conversas, ministros já vieram, assim como secretários de estado,
especialistas e estudiosos. É um espaço modesto porque não atinge todo mundo,
mas é fermento na massa, uma luzinha para iluminar o caminho. E temos também as
pastorais sociais, que têm se fortalecido. Temos a Pastoral do Menor (nem todo
mundo aceita o nome, mas tem sido esse), a Pastoral Carcerária, da Saúde, da
Criança. Tem crescido essa presença da Igreja na sociedade, mas ainda estamos
muito longe do ideal.
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