CATEQUESE DO PAPA: o trabalho é sagrado e traz dignidade à família
Jéssica Marçal
Após refletir sobre a dimensão da festa na família,
Francisco fala sobre o trabalho, atividade sagrada que
dignifica a família
Na
catequese desta quarta-feira, 19 de agosto, o Papa Francisco dedicou-se à relação da família com o trabalho. Sendo uma atividade que traz dignidade ao
homem, também o trabalho, assim como a festa (que foi tema da catequese da
semana passada), é sagrado, faz
parte do projeto criador de Deus e não deve faltar a família alguma, ponderou o
Papa.
Francisco
lembrou que o trabalho é necessário para
manter a família e garantir a seus membros uma vida digna. E esse estilo de
vida trabalhador é algo que se aprende, antes de tudo, na família. “A
família educa ao trabalho com o exemplo dos pais: o pai e a mãe que trabalham
pelo bem da família e da sociedade”.
O
Papa citou ainda a harmonia que deve
existir entre trabalho e oração. A falta de trabalho é ruim para o
espírito, assim como a falta de oração prejudica também a atividade prática. O trabalho é sagrado, destacou
Francisco, e por isso sua gestão é uma
grande responsabilidade humana e social que não pode ser deixada nas mãos de
poucos.
“Causar uma perda de postos de trabalho
significa causar um grande dano social. Eu me entristeço quando vejo que há
gente sem trabalho, que não encontra trabalho e não tem a dignidade de levar o
pão para casa”.
O
Santo Padre explicou que também o
trabalho faz parte do projeto criador de Deus, mas quando se separa dessa aliança, tornando-se refém da lógica do
lucro; e desprezando os afetos da vida, a degradação da alma contamina
tudo.
“A vida civil se corrompe e o habitat se
arruína. As consequências atingem, sobretudo, os mais pobres, as famílias mais
pobres. A organização moderna do trabalho mostra, às vezes, uma perigosa
tendência a considerar a família como um obstáculo, um peso, uma passividade
para a produtividade do trabalho. Contudo, perguntemo-nos: qual produtividade?
E para quem?”, questionou.
Diante
desse cenário, Francisco disse que as famílias cristãs têm um grande desafio e
uma grande missão: carregar os
fundamentos da criação de Deus. A tarefa não é fácil, admitiu, requer fé e
perspicácia.
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Papa Francisco prossegue suas Catequeses sobre a família Quarta-feira, 19 de agosto de 2015 Sala Paulo VI - Vaticano |
Leia
a íntegra da catequese papal, logo abaixo:
CATEQUESE
Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Depois de ter refletido sobre o valor da
festa na vida da família, hoje nos concentramos sobre o elemento complementar,
que é aquele do trabalho. Ambos fazem parte do desígnio criador de Deus, a
festa e o trabalho.
O trabalho, diz-se comumente, é necessário
para manter a família, para crescerem os filhos, para assegurar aos próprios
entes queridos uma vida digna. De uma pessoa séria, honesta, a coisa mais bela
que se pode dizer é: “É um trabalhador”, é justamente uma pessoa que trabalha,
é uma pessoa que, na comunidade, não vive à custa dos outros. Há tantos
argentinos hoje, eu vi, e direi como dizemos nós: “Não vivem com a barriga pra
cima”.
E, de fato, o trabalho, em suas mil formas,
a partir daquela caseira, cuida também do bem comum. E onde se aprende esse estilo de vida trabalhador? Antes de tudo se
aprende em família. A família educa
ao trabalho com o exemplo dos pais: o pai e a mãe que trabalham pelo bem da
família e da sociedade.
No Evangelho, a Sagrada Família de Nazaré aparece como uma família de trabalhadores,
e o próprio Jesus é chamado de “filho do carpinteiro” (Mt 13,55), ou até mesmo
de “o carpinteiro” (Mc 6,3). E São Paulo não deixa de avisar aos cristãos:
“Quem não quer trabalhar, não coma” (2Ts 3,10). É uma boa receita para
emagrecer, não trabalha, não come! O apóstolo se refere explicitamente ao falso
espiritualismo de alguns que, de fato, vivem à custa dos seus irmãos e irmãs
“sem fazer nada” (2Ts 3,11). O empenho do trabalho e a vida do espírito, na
concepção cristã, não estão em contraste entre si. É importante entender bem
isso! Oração e trabalho podem e devem estar juntos em harmonia, como ensina São
Bento. A falta de trabalho danifica também o espírito, como a falta de oração
danifica também a atividade prática.
Trabalhar – repito, em mil formas – é próprio
da pessoa humana. Exprime a sua dignidade de ser criada à imagem de Deus. Por
isso, se diz que o trabalho é sagrado. E por isso a gestão da ocupação é uma grande responsabilidade humana e social, que
não pode ser deixada nas mãos de poucos ou descarregada sobre um mercado
divinizado. Causar uma perda de postos de trabalho significa causar um
grave dano social. Eu me entristeço
quando vejo que há gente sem trabalho, que não encontra trabalho e não tem
a dignidade de levar o pão para casa. E
me alegro tanto quando vejo que os governantes fazem tantos esforços para
encontrar postos de trabalho e para buscar fazer com que todos tenham um
trabalho. O trabalho é sagrado, o trabalho dá dignidade a uma família.
Devemos rezar para que não falte o trabalho em uma família.
Portanto, também o trabalho, como a festa,
faz parte do desígnio de Deus Criador. No livro do Gênesis, o tema da terra como casa-jardim, confiada ao cuidado e ao
trabalho do homem (2,8.15) é antecipado com uma passagem muito tocante: “No
tempo em que o Senhor Deus fez a terra e os céus, não existia ainda sobre a
terra nenhum arbusto nos campos e nenhuma erva havia ainda brotado nos campos,
porque o Senhor Deus não tinha feito chover sobre a terra” (2,4b-6a). Não é
romanticismo, é revelação de Deus; e nós temos a responsabilidade de
compreendê-la e assimilá-la até o fim. A Encíclica Laudato si’, que propõe
uma ecologia integral, contém também esta mensagem: a beleza da terra e a dignidade do trabalho são feitas para estarem
juntas. Vão juntas todas as duas: a terra se torna bela quando é trabalhada
pelo homem. Quando o trabalho se
distancia da aliança de Deus com o homem e a mulher, quando se separa das suas
qualidades espirituais, quando é refém da lógica só do lucro e despreza os
afetos da vida, a degradação da alma contamina tudo: também o ar, a água, a
erva, o alimento… A vida civil se corrompe e o habitat se destrói. E as
consequências atingem, sobretudo, os mais pobres e as famílias mais pobres. A
organização moderna do trabalho mostra, às vezes, uma perigosa tendência a
considerar a família como um obstáculo, um peso, uma passividade para a
produtividade do trabalho. Mas nos perguntemos: qual produtividade? A
considerada “cidade inteligente” é sem dúvida rica de serviços e de
organização; porém, por exemplo, é muitas vezes hostil às crianças e aos
idosos.
Às
vezes, quem projeta está interessado na gestão da força-trabalho individual,
para montar e utilizar ou descartar segundo a conveniência econômica.
A família é um grande teste. Quando a organização do trabalho a tem como refém,
ou até mesmo obstrui o seu caminho, então estamos certos de que a sociedade
humana começou a trabalhar contra si mesma!
As famílias cristãs recebem diante dessa
conjuntura um grande desafio e uma grande missão. Essas trazem os fundamentos
da criação de Deus: a identidade e a ligação do homem e da mulher, a geração
dos filhos, o trabalho que torna doméstica a terra e habitável o mundo. A perda
desses fundamentos é algo muito sério, e na casa comum existem já muitas frestas!
A tarefa não é fácil. Às vezes pode parecer às associações das famílias ser
como Davi diante de Golias… mas sabemos como terminou aquele desafio! É preciso
fé e perspicácia. Deus nos conceda acolher com alegria e esperança o seu
chamado, neste momento difícil da nossa história, o chamado ao trabalho para
dar dignidade a si mesmo e à própria família.
Traduzido por Jéssica Marçal.
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