Quem são os "Psicopatas do Cotidiano?"
Entrevista
com Katia Mecler
Carolina Melo
A psiquiatra carioca Katia Mecler explica, em livro
recém-lançado,
quem são essas pessoas. Eles podem estar no ambiente de
trabalho,
no apartamento da frente e até mesmo na família
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Katia Mecler - psiquiatra |
O
ser humano é fascinado por histórias de psicopatas.
Os vilões manipuladores que aparecem em manchetes de jornais e protagonizam
filmes de terror prendem a atenção com suas atitudes perversas. O que muitos
não sabem, contudo, é que além dos casos mais graves, existe um tipo de psicopata que pode até não cometer crimes absurdos,
mas que diariamente afeta a vida de quem está ao seu redor. A psiquiatra
carioca Katia Mecler, de 50 anos, discorre sobre esse tipo de personalidade em
seu recém-lançado livro Psicopatas do Cotidiano: como reconhecer,
como conviver, como se proteger, da editora Leya Brasil. A obra trata
de pessoas que impingem um sofrimento diário a quem está próximo. Elas podem
estar no ambiente de trabalho, no trânsito, no condomínio e dentro da própria
família. Disse Katia ao site de VEJA, em entrevista exclusiva sobre o livro: "Todos nós podemos ser em algum
momento da vida perversos, mentirosos e frios. O problema é quando isso se
torna frequente - deflagra-se uma patologia".
Como
a senhora define os "psicopatas do cotidiano", termo que dá nome ao
seu livro?
Katia Mecler: São pessoas que desde a
adolescência ou início da vida adulta desenvolveram um transtorno de
personalidade e comportamento . Tais problemas têm como característica o
excesso de alguns traços comportamentais como, por exemplo: mentira,
manipulação, egocentrismo, frieza, desconfiança e insegurança. Ao todo, são 25
traços estabelecidos pelo Manual de
Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5), elaborado pela
Associação Americana de Psiquiatria. A maneira como pensamos, nos comportamos e
sentimos naturalmente não é estática. Sempre incluímos em cada ato o que há de
bom e de ruim em nós. Qualquer um pode, em algum momento, ser malvado,
agressivo, egoísta, arrogante, hostil, manipulador, descontrolado, explosivo...
O problema é quando essas características se tornam repetitivas e inflexíveis
em vários momentos da vida, chegando ao ponto de causar sofrimento ou
perturbação a si mesmo e, sobretudo, aos outros. É aí que surge a patologia.
A
senhora poderia dar alguns exemplos de psicopatas do cotidiano?
Katia Mecler: Eles não são como os
psicopatas que vemos em filmes com serial
killers e não necessariamente aparecem em manchetes de jornais porque
cometeram um crime. Essas pessoas fazem parte da nossa rotina e nem sabemos que
elas têm um transtorno. É o chefe que desqualifica o funcionário publicamente,
o namorado excessivamente grudento, o parente "esquisitão" que vive
enfurnado em casa e evita contato com outros, o vizinho que está sempre buscando
motivos pra criar confusão no condomínio, os pais que frequentemente fazem
chantagem emocional com os filhos para que eles tomem atitudes contrárias às
suas vontades, os motoristas que perdem a cabeça no trânsito constantemente...
Eles
têm consciência de que sofrem de um transtorno?
Katia Mecler: Em geral, não. Eles podem
se sentir diferentes, mas apenas porque acreditam que são superiores. E eles
não perdem o juízo da realidade, tampouco seus sintomas aparecem na forma de
surtos, com delírios e alucinações, como em casos de esquizofrenia e transtorno
bipolar. A pessoa é daquele jeito e age sempre da mesma maneira em determinadas
situações.
O
que esses psicopatas têm em comum com aqueles que cometem crimes?
Katia Mecler: Os psicopatas que cometem
crimes também têm um transtorno de personalidade, que pertence ao grupo dos
antissociais. Mas em um grau ainda mais severo. Eles são frios, oportunistas,
impiedosos, manipuladores e mentirosos. É comum utilizarem o outro como
trampolim para satisfazer os desejos. Eles carecem de culpa e empatia e não se
importam com as regras, convenções nem com o restante da humanidade. Muito se
fala sobre esses "vilões", mas poucos lembram que podemos conviver
diariamente com o que chamo de "psicopatas do cotidiano".
Já
se nasce psicopata?
Katia Mecler: Não, ninguém nasce com
personalidade definida. Ela é uma combinação entre temperamento e caráter. O
temperamento é herdado geneticamente e regulado biologicamente. Já o caráter
está ligado à relação que existe entre o temperamento e tudo o que vivenciamos
e aprendemos com o mundo exterior, o ambiente. Nascemos com as sementes do bem
e do mal, mas como elas vão germinar, crescer e dar frutos depende de uma série
de fatores que irrigarão a nossa vida, como a educação que recebemos,
frustrações que vivenciamos e traumas severos. É possível notar o temperamento
de uma criança, mas somente depois que ele for combinado ao caráter que será
formado. É isso que, no futuro, forma um psicopata.
Quem
sofre mais? O próprio psicopata do cotidiano ou as pessoas que eles fazem
sofrer?
Katia Mecler: A maioria dos psicopatas do
cotidiano não percebe o constrangimento, o mal-estar e o sofrimento que
espalham ao seu redor. Então, em tese, pode-se dizer que as pessoas ao redor do
psicopata do cotidiano sofrem mais do que ele. Porém, é preciso destacar que
alguns traços patológicos de personalidade também acarretam muito sofrimento ao
indivíduo.
Eles
conseguem amar?
Katia Mecler: Se houver amor, será por si
próprio. Os psicopatas tendem a ser narcisistas, eles só reconhecem qualidades
em si mesmos e acreditam que são pessoas muito especiais. É claro que não há
nada errado em ter autoconfiança e boa autoestima, dois elementos que, quando
equilibrados, trazem sociabilidade e segurança. O problema é que pessoas com
traços de egocentrismo e grandiosidade levam essas características ao extremo e
acreditem que suas contribuições são muito mais valiosas do que na realidade.
Há
algum tratamento recomendado?
Katia Mecler: Em geral, os psicopatas do
cotidiano não se responsabilizam pelos próprios atos. Eles estão sempre
culpando os outros e costumam injetar sentimentos de culpa no outro. Acham que
o problema está fora, que o mundo os atrapalha. Para eles, quando algo não vai
bem em suas vidas, o problema é dos que os cercam. Em relação ao tratamento, o
mais utilizado é a psicoterapia cognitiva,
técnica que leva o indivíduo a reconhecer o que ele faz e como suas atitudes
inflexíveis causam prejuízos aos outros.
L I V R O :
Título: Psicopatas
do cotidiano: como reconhecer, como conviver, como se proteger
Autor: Katia
Mecler
Editora: Leya
Brasil
Páginas: 160
Ano de edição: 2015
Edição: 1ª
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