Parar o trem ou passar sobre o corpo? O que o caso da SuperVia revela sobre nossas decisões morais
Letícia Duarte
Zero Hora (Porto Alegre – RS)
09-08-2015
“Se isso tivesse acontecido com a Angélica ou com o
Luciano Huck, alguém teria deixado passar por cima?”, questiona filósofo ao
analisar episódio que dividiu a população entre manifestações de revolta e
apoio.
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Adílio Cabral dos Santos - morto aos 33 anos |
A SuperVia [Rio de Janeiro, RJ] concluiu
que sim, e a decisão provocou fortes reações, sendo classificada como "atrocidade aos direitos humanos"
pelo procurador da Justiça Márcio
Mothé, coordenador de Direitos Humanos do Ministério Público do Rio, que
determinou investigação. Mas também ganhou um apoio surpreendente: enquete
feita pelo jornal O Dia constatou que
60% dos 14.942 participantes concordavam
com a medida, pois a interrupção "atrapalharia a circulação".
Ainda que a empresa tenha afirmado que só tomou a medida porque o veículo tinha
altura suficiente para não atingir o corpo do vendedor de balas Adílio Cabral dos Santos, 33 anos,
nenhum médico o tinha examinado para confirmar se ele estava realmente morto —
o corpo só foi retirado do local mais de duas horas depois. E, ainda que
tivesse sido atestado, o óbito não seria suficiente para parar o trem?
—
Se isso tivesse acontecido com a Angélica e com o Luciano Huck, alguém teria
deixado passar por cima? — questiona o filósofo
Marco Casanova, presidente da Sociedade Brasileira de Fenomenologia e
professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), autor do livro Eternidade Frágil (Via Veritá, 2013).
Mais
do que um ato isolado, Casanova
considera a decisão reveladora de modos de agir e pensar no Brasil, sedimentados
historicamente. Por isso, o fato de
o protagonista ignorado ser um ambulante e ex-presidiário não tem nada de
aleatório nesta história. Diante de uma "estratificação social
absurda", que se preocupa com quem está acima, quem está abaixo vira um
"joão-ninguém". E quem se importa com ninguém? Mais um anônimo que
morreu na contramão atrapalhando o tráfego, como canta Chico Buarque em Construção. Para o filósofo, o episódio seria mais um sintoma de
"tolerância com o intolerável", que agora atravessa a última
fronteira, a morte. Casanova lembra que, mesmo nas culturas mais primitivas, o
respeito ao morto historicamente sempre foi tradição. Tanto que, na mitologia
grega, os deuses condenam Aquiles por vilipendiar o corpo do inimigo Heitor, ao
arrastá-lo pelo campo de batalha por nove dias.
— O Brasil é um país doente. A gente se
acostumou a achar compreensíveis uma série de coisas incríveis. E quando a
gente escuta algo assim isso não gera uma reflexão mais ampla. O que precisa
ocorrer realmente para que a gente pare? Isso
tudo é de uma violência simbólica enorme — ressalta Casanova.
Para
o psicanalista Christian Dunker,
professor titular do Instituto de Psicologia da USP e autor do livro Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma
(Boitempo, 2015), o Brasil vive uma
"guerra civil local", travada especialmente em bolsões de
miséria.
A
pergunta que ele se faz é: por que esse caso despertou a ideia de que um limite
foi ultrapassado, já que, como atestam o pouco espanto que causam chacinas e
linchamentos cotidianos — o desrespeito à morte é sistemático no Brasil? Sua
hipótese é que o episódio encarna a
tensão crescente em torno da circulação nas grandes metrópoles. Não seria
por acaso que as grandes manifestações de 2013 tiveram como mote inicial a
reivindicação pelo passe livre, ou que as disputas de carro contra a moto ou
contra a bicicleta tenham virado motor dos conflitos urbanos. O episódio do trem seria, assim, a
materialização daquela velha frase: "Tá com pressa? Passa por cima".
—
Uma situação que a gente vive psiquicamente no trânsito é a sensação de atraso coletivo, de que está todo mundo devendo. Todo mundo
está um pouquinho atrás da hora que deveria estar e, portanto, buzinando sobre
o da frente, transportando essa dívida para o seguinte, como que dizendo: "Não sou que eu estou atrasado, é que
ele está me impedindo de passar". Em tudo isso tem uma mensagem sendo
passada — analisa Dunker.
No
caso específico do trem, o psicanalista enxerga ainda um outro agravante: a decisão de passar o trem por cima do
corpo não foi tomada por alguém que não sabia o que fazer: foi uma deliberação
institucional.
—
Isso agrava a coisa, porque não é só a violência errática, anômica, fruto da
desordem. É uma violência em nome da
ordem, uma violência que passou pelo sistema, da gestão de tráfego de trem —
salienta.
Gravadas
por passageiros, as imagens do maquinista avançando sobre o corpo ganharam os
noticiários. A mãe da vítima viu tudo
pela TV e só depois soube que aquele borrão na tela era o seu filho [ver foto abaixo]. A violação repetida
provocou indignação tardia, mas, se os sentimentos fossem retirados da
discussão, restaria alguma racionalidade na decisão? A questão é um dos embates
da filosofia moral. De acordo com o médico e filósofo Marco Antonio Azevedo, professor do Programa de Pós-Graduação em
Filosofia da Unisinos, existem duas
formas de decidir diante de dilemas morais:
- o viés consequencialista, que mede apenas as consequências da decisão, e
- a visão deontológica, que analisa os princípios, independentemente das consequências.
— A
minha intuição é de que existem valores categóricos e que não se pode
desrespeitar alguém, mas um consequencialista poderia dizer que só os vivos
merecem respeito, ou que pensando no interesse da multidão se admitiria passar
por cima para preservar o interesse da maioria em chegar no horário —
raciocina.
O
embate alimenta diferentes interpretações, estando longe de consenso. Para Cinara Nahra, professora de Ética do
Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(UFRN), nem mesmo pela ótica consequencialista
o desrespeito diante da morte seria justificável para cumprir a escala de
horários.
— O utilitarismo sustenta que devemos
promover a maior felicidade do maior número de pessoas e tentar diminuir ao
máximo o sofrimento humano. Ainda que houvesse atrasos no fluxo normal de
trens em função da morte acontecida nos trilhos, os transtornos causados por
este atraso, mesmo que sejam transtornos para várias pessoas, causam um
sofrimento mínimo para cada uma delas, de modo que, mesmo que seja somado o
inconveniente causado a todos pelo atraso, ele não pode ser comparado à dor
imensa dos familiares da vítima, que além de já sofrer a dor da perda de um
ente querido, viram esta dor se multiplicar, pelo desrespeito desumano —
argumenta.
E
pensar que tudo isso poderia ter sido evitado se o corpo tivesse sido retirado
previamente dos trilhos — ou, quem sabe até, se a vítima pudesse ter sido
socorrida rapidamente. Como a lei
brasileira não permite que se mexa no cenário da morte antes da realização da
perícia e tradicionalmente atendimentos demoram, o impensável virou
jeitinho.
— O crime maior é o poder público não prestar
um atendimento rápido e permitir expor um cadáver horas a fio. Esse é o
maior desrespeito, e é um fato crônico. Não gostaria de estar na pele dos
operadores de transporte — diz o engenheiro e mestre em transportes pela Escola
Politécnica da USP Sergio Ejzenberg,
perito em acidentes.
A lentidão no atendimento a
vítimas contrasta com a velocidade de uma sociedade refém de sua pressa. Os dilemas se sucedem sem
que sejam resolvidos, as arbitrariedades se repetem antes que sejam julgadas,
os atropelos já não param o trem. A vida segue sobre os trilhos e os
passageiros chegam a seu destino, mas não impunemente.
—
Para onde este trem supersônico que não tem tempo para parar mesmo diante do
sofrimento mais derradeiro e definitivo nos leva? Quando deixamos de respeitar nossos mortos é porque já há muito tempo
não mais respeitamos nossos vivos — alerta a filósofa Cinara Nahra.
COMO DECIDIR
A
filosofia moral se divide em duas vertentes para justificar escolhas:
Pelos
princípios
Aqueles
que acreditam que são os princípios morais que devem determinar as decisões,
independentemente das consequências, se alinham na ética deontológica. O alemão Immanuel
Kant (1724-1804) é um de seus teóricos, seguido por nomes como Judith Thompson e Ronald Dworkin.
Pelas consequências
Quem
defende que as decisões devem ser tomadas a partir dos resultados que provocam
se alinha na corrente consequencialista
ou utilitarista. Um dos expoentes é o filósofo Jeremy Bentham (1748-1832), tendo entre seus seguidores nomes como Peter Singer e Joshua Green.
O PROBLEMA DO BONDE:
Um
dos mais célebres experimentos lógicos no campo da ética é o dilema do bonde,
no qual uma situação hipotética é oferecida para solicitar uma escolha moral. A
criação é atribuída à filósofa Philippa
Foot (1920 – 2010) em 1967, com diversas variantes propostas por outros
filósofos que analisaram o tema desde então:
(Arte
de Gilmar Fraga, Zero Hora)
Fonte: Instituto Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 10 de agosto de 2015 – Internet: clique aqui.
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