AGORA, SIM, É CRISE!
“Nem governo nem oposição têm a saída”
Alexandra
Martins
Para autor de livro sobre Collor, não há coalizão clara
para impeachment
nem estratégia de Dilma para superar crise política
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Brasilio Sallum - professor de sociologia na USP |
O sociólogo Brasilio
Sallum, autor do recém-lançado livro O Impeachment de Fernando Collor, não vê saída para a crise
política atual porque o governo da presidente Dilma Rousseff não tem clareza da
direção a tomar nem a oposição tem "horizonte" a seguir. Para o
professor da USP, os movimentos que defendem o afastamento da petista têm força
para "empurrar" os partidos, mas isso é insuficiente para desencadear
o processo político em si.
É
possível o governo sair da crise política?
Prof. Sallum: Passamos por incertezas que
não têm respostas claras nem do governo nem da oposição. Paulatinamente,
estamos amadurecendo. O fato de o governo tentar hoje ajustar as contas já é um
enorme avanço em relação ao que antes da eleição se dizia, de que não estávamos
em crise econômica, que o mundo era uma maravilha. Nós, pelo menos hoje, temos
absoluta consciência de que devemos fazer alguma coisa. A crise política é
grave por, no mínimo, três razões:
- pelo fato de a presidente ter perdido autoridade,
- pelo enfraquecimento da coalizão e
- pela baixa popularidade de Dilma.
Por
outro lado, as forças que se opõem a ela não têm horizonte claro a perseguir.
Não sabemos a qual direção a presidente quer levar o País.
Quem
se beneficiaria com um processo de impeachment?
Prof. Sallum: Como não estamos vendo uma
coalizão definida e clara, que trabalhe especificamente pelo impeachment, não se
pode dizer que hoje haja beneficiários. Como funciona o processo? Você tem oposições,
que se organizam contra a presidente, mas ao mesmo tempo se organizam em favor
do vice. Na época do ex-presidente Fernando Collor, houve isso: uma coalizão
entre PMDB, PSDB e PT, que se articularam contra o Collor, conseguiram maioria
e atraíram ex-aliados do ex-presidente. É isso que não existe hoje.
As
ruas podem hoje estimular esse movimento?
Prof. Sallum: Os movimentos de rua não
têm a menor condição de fazer isso hoje. As mobilizações da época do Collor
foram articuladas com partidos e por uma rede de mais de 100 organizações. Os
movimentos de hoje, desde os de 2013, não têm condução partidária. As ruas hoje
empurram os partidos, mas não são empurradas pelos partidos. Parece que hoje a
relação é inversa àquela verificada na época de Collor. Em geral, mobilizações
sempre têm um cordel, são puxadas por aqueles que fazem parte do sistema
político, mesmo em posição secundária. A questão é que os partidos não estão
conseguindo dar direção à demanda. Os partidos estão muito desorganizados, têm
alas diferentes com dificuldade de manter uma unidade, têm facções que agem de
formas distintas.
Temos
então só ameaças?
Prof. Sallum: Há tentativas, ameaças, “pautas-bomba”.
Mas os obstáculos são muito grandes para se alcançar o impedimento [da presidente].
Os sinais ainda não são totalmente claros, não é um movimento que será
facilmente bem-sucedido. As dificuldades jurídicas e políticas serão bastante
grandes, não vejo o impeachment visível no horizonte, embora haja movimentos
nessa direção.
E
o peso da Operação Lava Jato nesse
contexto?
Prof. Sallum: O problema é que a Lava
Jato mostra de um lado que as instituições estão funcionando
extraordinariamente bem do ponto de vista institucional, produzindo minibombas
políticas. Isso torna difíceis as associações - as agregações, digamos - entre
os políticos, porque eles são passíveis de processos. Todos os mecanismos de
articulação política estão sujeitos a receberem o impacto da Lava Jato. Depois
que o Eduardo Cunha foi envolvido nas investigações, a Câmara passou a ser uma
fonte potencial de obstáculos.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Sexta-feira, 7 de agosto de 2015 – Pg. A6 – Internet: clique aqui.
“Alguém”
Eliane
Cantanhêde
O pêndulo do PMDB se move para o PSDB,
mas há vários PSDBs e um nó na política
Quem
está acostumado com a elegância fria e contida do vice-presidente Michel Temer estranhou não só o tom, mas também a
forma do pronunciamento, quarta-feira, em que conclamou um pacto nacional
“acima dos partidos, do governo, de toda e qualquer instituição” e, num ato falho, pregou: “É preciso alguém
para reunificar o País!”.
Tenso,
emocionado, até com o cabelo desalinhado, Temer parecia anunciar o fim do mundo
– ou seria o fim do governo Dilma Rousseff? Se é preciso “alguém” para reunificar o País, é porque os governos do
PT dividiram o País e Dilma não tem poder, aptidão e competência para consertar
o estrago. E esse alguém pode muito bem, até pela lógica e pela
Constituição, ser o vice. Enquanto Temer falava em tom de estadista, um
desavisado poderia ironizar: só falta pôr a faixa presidencial...
A
sensação foi potencializada pelas declarações do chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que inverteu
posições com Temer. Enquanto o vice deixou a frieza de lado, o sempre arrogante e beligerante ministro
foi humilde, conciliador e até bem-humorado ao defender um “pacto
suprapartidário” e fazer um afago no arqui-inimigo PSDB.
Num
ambiente político explosivo como o atual, as interpretações pipocaram em
Brasília. Temer e Mercadante tentavam apenas evitar a “pauta-bomba” na Câmara?
Ou refletiam o desespero do governo? Ou, enfim, tinham recebido a sinalização
de que Dilma jogaria a toalha?
Para
piorar, o presidente do Senado, Renan
Calheiros, deixou vazar o jantar entre o seu PMDB e o PSDB de Aécio Neves,
depois encorpado pelo PSDB de José Serra. Desta vez, foi fácil interpretar:
tucanos e peemedebistas já discutem
cenários e inclusive o “day after” de um eventual afastamento de Dilma,
seja por que motivo for, seja de que forma for.
A
crise ganhou contornos mais dramáticos com a derrota acachapante do Planalto na votação do projeto que vincula
salários da AGU e de delegados aos do Supremo – por emenda constitucional!
E explodiu de vez com o Datafolha que
confere a Dilma o amargo troféu de presidente
mais impopular desde a redemocratização, com 8% de aprovação, 71% de reprovação
e 66% pró-impeachment.
Diante
de tudo isso, tem-se que Dilma Rousseff
não tem sustentação nem dentro (o Congresso) nem fora (na população) e é incapaz de conter a crise política e
econômica, enquanto a Lava Jato expõe as entranhas do governo Lula a céu
aberto. Os ratos, ops!, os partidos
aliados já começam a abandonar o barco, caso de PDT e PTB (um ministério cada),
mas o processo depende mesmo é... do PMDB. Maior partido do País, ele se
comporta como um pêndulo, ora vai para o PSDB, ora para o PT. Neste momento,
move-se claramente para o lado do PSDB.
É
aí que tudo empaca, porque o que impede
uma saída negociada é justamente a divisão do PSDB, particularmente
acirrada diante da derrocada da era PT. Ao PMDB e a José Serra encanta a
hipótese da posse de Michel Temer, via decisão do TCU. A Geraldo Alckmin convém
que nada mude e que Dilma vá aos trancos e barrancos até 2018. E a Aécio Neves,
que é quem de fato tem a máquina tucana nas mãos, ou Dilma fica até o fim ou
Dilma e Temer caem juntos pela reprovação das contas de campanha no TSE.
Foi
por isso, e só por isso, que os líderes
Cássio Cunha Lima e Carlos Sampaio, ambos aecistas, correram a declarar
ontem que, se Dilma for afastada, o sucessor tem de ser legitimado pelo voto
popular, com novas eleições 90 dias depois e o presidente da Câmara assumindo o
Planalto até lá. Tradução: nada de apoio à posse de Temer.
Resumo da ópera: o PMDB já pulou fora do
barco do PT, mas ainda não consegue pular no do PSDB, que navega com vários
comandantes, ao sabor de correntes marítimas conflitantes e mirando diferentes
destinos. Sem isso, nem o PMDB nem as oposições chegam a lugar nenhum. Dilma,
com ou sem o Congresso, com ou sem a opinião pública, vai ficando, ficando,
ficando... E a economia vai implodindo, implodindo, implodindo...
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Sexta-feira, 7 de agosto de 2015 – Pg. A6 – Internet: clique aqui.
Programa do PT bate na oposição e
enterra qualquer chance de pacto
Marcelo de
Moraes
Durante
as últimas duas semanas, integrantes do governo federal e líderes petistas
acenaram publicamente com uma tentativa de aproximação política com os partidos
de oposição. O gesto tinha como objetivo a formação de uma espécie de pacto
nacional em nome de uma recuperação rápida na economia. Além disso, essa união
buscaria evitar uma crise institucional num momento turbulento. Em tom de
campanha eleitoral, o programa partidário do PT mostrou nessa quinta-feira que
o movimento era pura balela. Petistas, incluindo o próprio ex-presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, usaram o programa para bater a valer nos adversários a
quem praticamente responsabilizaram pela crise atual.
Foram
exibidas fotos de líderes da oposição, como o senador Aécio Neves (PSDB-MG), candidato derrotado pela presidente Dilma
Rousseff na eleição passada, e os senadores Ronaldo Caiado (DEM-GO) e José
Agripino (DEM-RN), além dos deputados Carlos
Sampaio (PSDB-SP) e Paulinho da
Força (Solidariedade - SP). Todos foram chamados de “oportunistas” pelo
programa e foi dito que pensavam apenas nos próprios interesses.
A
questão contra a oposição foi ainda reforçada no programa petista na fala de
Lula, que disse que a pior crise de qualquer governo petista ainda é melhor do
que a dos governos adversários. Embora o Instituto Lula tenha negado a
aproximação de Lula com a oposição, intermediários do ex-presidente teriam
procurado o também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para justamente
iniciar uma rodada de conversas sobre a crise. Se os assessores de Lula
procuraram desmentir o movimento, ministros como Jaques Wagner, da Defesa, e
Edinho Silva, da Secretaria de Comunicação, afirmaram publicamente que as
conversas com a oposição seriam bem vindas.
Além
disso, em depoimento na Câmara dos Deputados, na quarta-feira, o ministro da
Casa Civil, Aloizio Mercadante, também elogiou a oposição, num aceno político
para os adversários. Depois da exibição do programa petista, governo e oposição
fincam seus pés definitivamente em campos opostos.
Fonte: O Estado de S. Paulo –
Política –
Sexta-feira, 7 de agosto de 2015 – Pg. A7 – Internet: clique aqui.
Timing, poder, abismos. Uns e outros.
Carlos Melo
Cientista político e professor do Insper
A propósito da cena política.
Tenho
evitado escrever (muito) nestes dias de crise. Aprendi cedo que quem fala de
mais dá bom dia a cavalo. Nos tempos atuais, dá bom dia a dromedário também.
Tudo está cheio de si e de seu contrário, o ambiente ferve e pingo vira letra.
Para dizer o óbvio, basta o silêncio. Para trazer novidades, é preciso que elas
de fato existam. Especulações e aflições deixo para as horas de meu charuto.
Mas, quem pode se furtar a exalar esse mal-estar?
De
modo que as notícias são sabidas e reproduzidas aos borbotões pela hipermídia
em que se faz este mundo dos nossos tempos. O processo segue o fio desencapado
que tenho demonstrado já faz algum tempo e creio ser desnecessário dizer “eu
disse”. Certamente, sabemos como
chegamos a esta quadra da história: uma série de esgotamentos – político,
econômico, de lideranças – e um festival de erros vistos assim “nunca antes na
história deste país”. Já disse que Dilma é incorrigível (clique aqui para reler); a presidente de fato foi tão persistente em cavar buracos que se
vê diante de muitos abismos.
Agora,
seus pedidos tardios de arreglos cheiram à capitulação; humilha a quem solicita
e constrange a quem assiste; a tal da vergonha alheia que muitos – a favor ou
contra — temos sentido. Em política, há o “tempo da política”; ter o relógio
ajustado com ele é mesmo uma arte; adiantá-lo, revela o medo; se demorar, já
era, fica tarde. De tal modo que, mesmo
para clamar unidade, há um timing;
cabe, sobretudo, nos discursos de vitória ou de posse. Uma chance perdida, às vezes, está perdida para sempre.
E
assim, o cerco vai se fechando em torno de Dilma e do PT, limitando
alternativas e despertando o desespero de uns e a ansiedade de outros. O fato é
que, num certo estágio, o poder torna-se
o único elemento da política; nada é mais importante do que ele. Note que
irônico:
- Dilma pode ser destronada, sem nenhuma
acusação direta sobre si;
- Renan e Cunha podem ser preservados,
mesmo com toda desconfiança sobre seus ombros.
Qual
a diferença entre eles? O poder. Quem tem, quem não tem. Não é moral, não é justo, não é romântico; nem certo, nem errado. É
política. Difícil admitir, mas é política – a mais humana e a mais cruel
das atividades do Homem.
Dilma está desempoderada, perigosamente (para si) desempoderada. Não expressa mais uma vontade
a ser seguida, sequer uma ordem a ser obedecida, em que pese o Diário Oficial
que assina. Paga o pato de muitos erros,
inclusive os seus – os quais tem dificuldade de admitir. Expressa certa
indiferença, um ar blasé; mas nem sua atitude olímpica esconde que está só.
Ademais, assistir a Aloízio Mercadante baixar a crista é mesmo sinal eloquente
de que o poder se dissipou. Mais ou menos como pedir para a Alemanha parar de
marcar gols.
Qual será o desfecho disso
tudo? Quem
poderá dizer, sem nenhuma sombra de dúvida ou de torcida? Dilma enfraquecida
até 2018, Dilma recuperada? Temer como síndico da catástrofe? Uma nova eleição:
Aécio, Lula, Serra, Alckmin, Marina? Ou o J. Pinto Fernandes [1], que ainda não entrou na história? A história se faz ao mesmo tempo em que a
fazemos, sem percebê-la. É assim.
Uns
e outros
Amigos
queridos, cheios de coração, moral e ressentimento, igualmente se dividem: uns
querem o justiçamento; outros, a condescendência. Ambos julgam – condenando ou
absolvendo – a partir do que avaliam como “as intenções” de Dilma, de Lula, do
PT e de seu grupo. Poucos admitem a força das circunstâncias e a fraqueza do
ser humano. De modo que, para uns, trata-se do mal em raiz; para outros, o bem
em flor mal compreendida. Uns condenam integralmente o PT e sua base – basta
ser petista para ser mau caráter; outros, permitem-se perdoar pelo saldo
positivo resultante da equação que lhes sai do coração e, então, os crápulas
são os outros. A vida é mesmo bem mais
complexa do que os nossos sonhos de amor e juventude. Sobretudo, quando a
juventude já passou.
N
O T A
[ 1 ] -
J. Pinto Fernandes é o
elemento-surpresa, o inaudito, o que não tinha entrado na história. Ele é
personagem de um poema de Carlos Drummond de Andrade: “Quadrilha”. Ele foi
publicado em “Alguma Poesia”, primeiro livro do poeta mineiro.
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