POR QUE ESTAMOS TÃO VIOLENTOS?
As grandes virtudes
Entrevista
com Viviane Mosé
Psicanalista,
poeta e doutora em Filosofia (UFRJ)
André de
Oliveira
Para filósofa, em tempos quentes de intolerância e
violência,
sociedade deve ter a coragem de desejar acordos, não
rupturas
Intolerância. Significa intransigência em relação a opiniões, atitudes, crenças ou modos de ser que reprovamos e julgamos falsos. Mas também quer dizer repressão, por meio de coação e uso da força, das ideias que desaprovamos. A famosa afabilidade pela qual o provo brasileiro é cantado e poetizado já foi bem questionada; afinal, um passado recente de convivência pacífica com escravidão e outras violências praticadas institucionalmente tiram a graça de qualquer rima. No entanto, de uns tempos para cá, parece que uma caixa de novas práticas de intolerância foi aberta na sociedade.
Em
1º de agosto, seis imigrantes haitianos
foram baleados com chumbinho, em São Paulo. O caso é nebuloso e segue
inconcluso. Em uma das versões, os agressores teriam passado em um carro
gritando: “Haitianos! Haitianos!”. Dias antes, um carro havia arremessado uma bomba caseira de pregos e parafusos na
porta do Instituto Lula, também em São Paulo. Ninguém ficou ferido, mas o
artefato abriu um buraco no portão de metal do escritório de trabalho do
ex-presidente. Os autores do atentado ainda não foram identificados. Nos dias 8
e 11 de agosto, usuários e motoristas do
Uber relataram ter sofrido intimidação e agressão física por estarem usando
o serviço, em Belo Horizonte e São Paulo. Nenhum dos agressores foi encontrado.
E a tensão em torno do aplicativo não para de crescer.
Para
a filósofa, poeta e psicanalista Viviane
Mosé, os intolerantes não são exclusividade brasileira. O mundo passa por
um período de mudanças culturais propiciadas pelas novas tecnologias, e o
futuro, constantemente retratado como distopia, nunca foi tão incerto. Ninguém sabe direito como lidar com o momento
e a resposta da sociedade tem sido, muitas vezes, violenta.
No caso brasileiro, contudo,
ela vê um agravante:
- a polarização política,
- a falta de lideranças,
- a ausência de propostas.
Quão fundo é o buraco? Como
sair dele?
“Produzindo acordos, pactos sociais. Estamos sem direção e só vamos tê-las se
compusermos forças, em vez de tentar encontrar um salvador”, ela diz. E
concordando com a escritora italiana Natalia
Ginzburg (1916-1991), cujo livro As Pequenas Virtudes (editora Cosac
Naify) acaba de ser relançado, salienta que ou valorizamos as grandes virtudes ou não haverá sociedade.
A intolerância aumentou no Brasil ou sempre fomos um país assim?
Viviane Mosé: Nem lá nem cá. O Brasil
também tem uma forte tradição pacifista. Vamos falar do fenômeno do Uber. O Uber é uma inovação tecnológica excelente para a sociedade: diminui
o CO², aumenta o convívio com as pessoas, é uma economia. Só que essa inovação
desfaz um território estável, que era o do taxista. Então, essa profissão
antiga se vê, de uma hora para outra, fadada à destruição. A indignação é
compreensível. Mas não há ninguém na sociedade brasileira fazendo a mediação
entre essas duas forças. Se você percebe que uma determinada profissão está em
crise por uma inovação que é boa, o papel do Estado, da universidade, da
imprensa é propor um encaminhamento. Mas ninguém propõe nada. Todos perdidos,
ficamos uns a favor do Uber, outros a
favor dos taxistas. Mas os dois têm razão! Quem é que vai fazer a ponte se os
dois têm razão? Inovações tecnológicas sempre deixam um rastro de destruição. Mas tem solução para isso: é produzir
acordos, pactos sociais. Esta é a sociedade que devemos desejar, a sociedade da colaboração e do acordo.
Quanto mais acordo, melhor. Sair da pirâmide do culpado é essencial.
A
forte polarização política tem relação com a intolerância?
Viviane Mosé: Sem dúvida. Pensando
filosoficamente, o que faz a gente se ordenar são valores e expectativas. Tem
todo um jogo social que diz: “Se você se mantiver estável, o Estado também te
devolve estabilidade”. Mas, se as instituições não têm estabilidade, isso
desaparece e nos dá a sensação de que a cultura não nos sustenta mais. Qual
deveria ser o passo num momento como esse? O de encaminhar a cultura para uma
direção. É necessário apontar saídas. E não é só o Estado ou a imprensa ou a
universidade que não estão fazendo isso. Ninguém está. Ninguém dá
direcionamento. Só se joga pedra. E jogar pedra é perigoso, especialmente em um
Brasil dividido politicamente.
As
manifestações de junho de 2013 também entram nesse pacote?
Viviane Mosé: Claro que entram. Colocamos
2 milhões de pessoas na rua. Mas esse movimento não teve prévia de direção
política. Nada. Nós colocamos pessoas na rua manifestando sua pura indignação.
E indignação é afeto, não direção. Afeto quer dizer afetar e ser afetado. É
movimento. Construímos um movimento, multiplicamos por 2 milhões e mandamos
para a rua. Isso gerou, sem dúvida, o ódio.
Se você manifesta a indignação, que é justa, mas apenas afetiva, e se ela não
tem direção, a canalização é necessariamente violenta. A gente provocou um
movimento justificado, mas ninguém apresentou propostas.
Nem
surgiram lideranças.
Viviane Mosé: Esse é o maior problema do
Brasil hoje: a ausência de lideranças, especialmente políticas. Não há ninguém
canalizando o incômodo que o governo causa em grande parte da população. Apesar
de o senador Aécio Neves ter sido bem votado, não há posição dele para nada e
em nenhuma direção. Ele só faz o que a população, a imprensa e a universidade já
fazem: critica. A oposição não existe no Brasil, em nenhum grau. Às vezes o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreve algo que parece coerente, mas
ele não está mais na disputa política, entende? Ele está fora. Como é que o
Aécio Neves, que polarizou com a Dilma na eleição, sempre se posiciona na
imprensa? Joga pedra, quando o mais
necessário nessa hora é que se apontem caminhos. Desse ponto de vista, a
coisa está mais para jogo de time único e não um Fla-Flu, como dizem.
Como
assim? A polarização existe, acabamos de falar dela.
Viviane Mosé: Existe um tremendo desgaste
por causa da corrupção. Mas não há proposta. O governo tem lá a sua posição,
que é a que parte da população rechaça. Da oposição não vem nada além de pedra.
Essa situação criou um time único que repete feroz e exaustivamente: “Isso aí
não presta”. Isso é muito preocupante, porque a ausência de vazão para essa
força gera violência. Em períodos de grande impunidade, em que políticos e
criminosos comuns não são presos, também se gera violência. Mas a questão é que
nós estamos vivendo um tempo histórico de punições, e não de impunidade. Pela
primeira vez, políticos e até empresários estão indo para a cadeia. É um
fenômeno único na história do Brasil. A gente deveria estar feliz. Portanto, o que está gerando violência não é a
impunidade, mas a ausência de perspectiva e vazão de uma força que desde 2013
se manifestou e ninguém conseguiu ainda canalizar. Agora é hora de os
formadores de opinião manterem a coerência e ajudarem a sociedade a se
localizar, a pensar, porque caminhamos para o caos. É preciso ter coragem de
intervir, de esclarecer honestamente a situação, mesmo sabendo que se pode
sofrer represália. Temos que produzir
acordos, não apostar no caos. O impeachment
da presidente significaria a desestruturação ainda maior das instituições. Acho
essa conversa de impeachment uma
irresponsabilidade. É jogar sem perspectivas. E onde falta perspectiva sobra
violência.
Chile
e Argentina julgam e punem seus agentes da ditadura. O Brasil não. Isso tem
relação com o clima de ódio e intolerância?
Viviane Mosé: Para seguirmos como democracia
precisamos ter clareza de quem fez o quê ao longo da história. E é bom você ter
tocado nesse ponto, porque uma coisa que me incomoda é a convivência tranquila
com algumas situações. Por exemplo, eu não admito estar em um lugar onde uma
pessoa levanta placa pedindo a volta do regime militar. Mas às vezes parece que
está tudo bem, que isso já está resolvido. Não está! Quando a Europa fez um
museu do holocausto, muita gente ficou chocada. Mas era para lembrar as coisas
que a gente não quer repetir. A ditadura deveria ser uma dessas coisas aqui. No
entanto, o que vivemos hoje não é consequência direta disso.
É
do que então?
Viviane Mosé: A questão é a mudança da tecnologia
no mundo. Passamos de uma sociedade fundamentada no modelo de pirâmide - onde
um manda e os outros obedecem - para viver numa sociedade em rede, cujos
poderes se relacionam horizontalmente. Tanto é que, quando esse poder
horizontal funcionou, 2 milhões de pessoas foram para a rua. As manifestações
de 2013 foram consequência de um efeito viral da internet, o que não é ruim,
mas com pessoas educadas por um modelo de educação fundamentado no regime
militar, que é abstrato e não discute o mundo. A universidade não discute questões sociais. A formação do brasileiro é péssima. E não é a educação básica, é a
educação nas universidades públicas e privadas. Ela é distante da realidade,
não forma lideranças. Resumindo, nós levamos
para a rua pessoas indignadas e bem-intencionadas, mas com formação política e
intelectual zero. Isso sim gera ódio, intolerância, violência.
E
você acha que estamos dando o peso devido à gravidade dessas demonstrações de
ódio, intolerância e violência?
Viviane Mosé: Não estamos. Somos
incapazes de analisar esses fatos de maneira mais elaborada. Se alguém joga uma
bomba no Instituto Lula, por exemplo,
as pessoas que não gostam dele aplaudem. Aplaudem! Elas não têm noção de que,
aplaudindo ou minimizando, estimulam uma violência que hoje é contra o seu alvo
preferido, mas amanhã pode ser contra elas mesmas. É um ex-presidente da
República com seu escritório bombardeado. Amanhã vão bombardear o quê? Ignorar
isso é uma leviandade. Essa polarização
nos torna burros. Não conseguimos dar o verdadeiro valor às coisas porque
estamos cegos politicamente. Cegos por uma paixão que nos diz que aquilo é o
mal e aquilo é o bem. Só que bem e mal são misturados. A gente não está tendo
essa sofisticação de leitura para nenhum fenômeno brasileiro atual. Durante as
manifestações de 2013, aqui no Rio, uma professora da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro [UERJ] foi pega com bombas caseiras e acabou presa com alguns
estudantes. Eram rojões cheios de pregos. Não precisamos usar aquelas pessoas
como bodes expiatórios, mas devemos esclarecer à sociedade: isso é um gesto
terrorista e é inaceitável sob quaisquer circunstâncias. Mas a gente finge que
nada acontece. É a banalização da
violência movida por cegueira política.
Alguém
disse que ninguém nasce odiando, é ensinado a odiar. É isso mesmo?
Viviane Mosé: É o contrário. O ódio é o
excesso moralizado como mal. Se você tem alegria em excesso pode ser violento
também. O problema do homem não é o ódio, mas o excesso. Todos nós nascemos com
excessos e eles precisam ser canalizados. Se uma criança é deixada sozinha, ela
vai pegar um animal e comer cru. O que a
gente aprende é valor moral, só diminuímos a violência por causa da formação
moral. Se ninguém nos convencer de que vale a pena dizer “não” a nós
mesmos, seremos violentos.
Isso
me faz lembrar do livro As Pequenas
Virtudes, da escritora italiana Natalia Ginzburg. Para ela, os pais se
preocupam mais em ensinar as pequenas virtudes aos filhos, em vez das grandes.
Viviane Mosé: Não conheço o livro, mas
está perfeito. A grande virtude é: valorizar a vida. O maior problema contemporâneo
é a desvalorização da vida. A gente atribui todos os males à cultura, mas
confunde a cultura com a vida, quando, na verdade, o grande valor é estar vivo.
O que está em decadência não é a vida, é a cultura. E a cultura é niilista
porque ela não valoriza exatamente a vida. Então, quais são as grandes
virtudes? Existir, viver, compartilhar, se solidarizar. Em vez disso
valorizamos as pequenas, como não jogar lixo no chão. Não jogar lixo no chão é
nada, um ato que só é grande se estiver envolvido num valor maior, que é
proteger o ser humano, as cidades. Por valorizarmos a mesquinharia da virtude,
e por não sermos capazes de discutir a grande virtude, canalizamos o incômodo
para a cultura, como se ela fosse o problema. Mas não há cultura que possa resolver as nossas frustrações. Ou a gente aprende a lidar com elas ou não
haverá sociedade.
As
redes sociais dão vazão ou alimentam a intolerância?
Viviane Mosé: A razão dessa mediocrização
da sociedade são justamente as redes sociais. Principalmente o Facebook. Ele
nasceu para reunir amigos, certo? Só que a gente discute política ali. E
discutir política entre amigos é sectário. Na eleição passada, um fulano me
disse que tinha certeza de que tal candidato iria ganhar a eleição. Só que era
um candidato sem representatividade. E esse fulano baseou a afirmação no que
ele tinha lido na internet. O problema é que não era “a internet”, mas apenas
uma rede social, um círculo de amigos. Você tem uma web de A a Z à disposição,
ela te dá o que você quiser, e, no entanto, você escolhe ficar esperando o que
os seus amigos, os que pensam como você, mandam. Você lê e compartilha sem
sequer conferir a fonte, afinal foi um amigo que mandou. No final do século 19
o Nietzsche falou do niilismo passivo,
que o máximo da descrença na cultura é quando
não há mais líderes, apenas rebanho. Eu acredito que as redes sociais de
amigos são responsáveis por esse sectarismo e por essa polarização. Elas não
ajudam a desenvolver a inteligência complexa necessária para o mundo
contemporâneo. Aí surge o que eu chamo de “fascismo do bem”: a gente joga bomba
em nome do bem, espanca em nome do bem, mata em nome do bem.
O
lado perverso da tecnologia.
Viviane Mosé: A partir da segunda metade
do século 20, não houve interesse em desenvolver a nossa intelectualidade,
nossa capacidade crítica, nossa sensibilidade artística. Só se desenvolveu a
tecnologia. O resultado é uma tecnologia elaborada, mas um ser humano medíocre
intelectualmente. Essa fórmula tem necessariamente que mudar. A educação precisa ser crítica, sensível,
abrir a cabeça para o que a humanidade fez e faz de melhor, com elegância,
sofisticação, e sem deixar de chamar atenção para os abismos sociais e
ambientais. Ou a gente faz isso ou essa violência dispersa nas redes sociais
toma conta. E ela está já tomando conta.
Qual
a melhor maneira de lidar com os conteúdos violentos e intolerantes nas redes
sociais? Vigiar? Punir? Bloquear? Censurar?
Viviane Mosé: Ridicularizar. Não tem como
censurar, porque ele sempre aparece com outro nome. Temos uma mídia que nos
permite expor tudo, o nosso melhor e o nosso pior. Não podemos impedir que tudo
esteja exposto. Perda de tempo. Em vez de impedir a presença do mal, ou do que
nos incomoda, é melhor ensinar a fazer a escolha do caminho afirmativo. É
possível fazer isso. Se as grandes virtudes fossem cultivadas, a gente
relacionaria facilmente a bomba no Instituto Lula, num momento em que o PT está
em crise, com a violência generalizada de uma sociedade que pode nos levar ao
caos. É esse tipo de conversa que soluciona o nosso problema.
Como
se sai desse cenário de intolerância?
Viviane Mosé: Para viver bem, a gente
precisa valorizar a diferença. Não é
mais o bem e o mal, o certo e o errado. É conviver
com a multiplicidade. Só que está tudo muito polarizado, que é o contrário
do que precisamos. Valorizando as grandes virtudes, que, no fim, são a
convivência com o diferente e a vida, a gente estabelece um valor moral que se
chama diálogo, sustentabilidade. Ser sustentável é saber que tudo retorna. Esse
círculo é exatamente o lugar do acordo. Por exemplo: a gente só consegue
resolver a violência na escola se entender que, no caso do bullying, a pessoa mais importante é a que trabalha na portaria, na
limpeza. Porque a criança não faz bullying
na frente da diretora, se sente constrangida. Mas faz na frente do porteiro e
da moça da limpeza. Isso acontece porque não se valoriza o saber e o olhar
dessas pessoas. Pelo contrário, se menospreza. Mas elas devem ser igualmente
ouvidas. Isso é ser sustentável, ter respeito e desejar o acordo.
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