PMDB É, AO MESMO TEMPO, VENENO E ANTÍDOTO!
José Roberto
de Toledo
Quando Eduardo Cunha é o “bad cop”,
Renan Calheiros é o policial bonzinho;
só Michel Temer, o vice, não muda
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OS DOIS ESTÃO BEM AFINADOS E CONVERSADOS!!! Senador Renan Calheiros (à esquerda) - Presidente do Senado (PMDB-AL) e Deputado Eduardo Cunha (à direita) - Presidente da Câmara Federal (PMDB-RJ) |
A
engenhosidade do PMDB é ser, ao mesmo tempo, o problema e a solução, o veneno e
o antídoto para o presidente da vez. Como
a trama não pode parecer chantagem, os personagens se alternam nos papéis.
Quando o presidente da Câmara, Eduardo Cunha,
é o “bad cop” [policial mau], o presidente do Senado, Renan Calheiros, é o policial bonzinho. Só Michel Temer, o vice [-presidente da República], não muda. Está
sempre equidistante, como redinha em mesa de pingue-pongue.
Cunha
começou o ano legislativo atropelando o governo com ímpeto de seleção alemã na
Copa. Quando Dilma Rousseff olhou o placar, já era goleada. Em abril, para cada
3 deputados que votavam ao menos dois terços das vezes seguindo a orientação do
governo, 5 tinham comportamento oposto. A taxa de governismo na Câmara era de
60% – ela terminara o primeiro mandato com 74%. Dilma tinha apenas 75 deputados
em quem podia confiar 90% das vezes, quase todos petistas. Em caso de pedido de impeachment, ela estaria praticamente uma centena
de votos a descoberto.
Para não ter o mesmo destino
de Felipão, a presidente nomeou Temer coordenador político. É um nome pomposo para
quem atende pedidos de parlamentares liberando verbas e fazendo nomeações. A
partir do momento que Dilma emprestou sua caneta para o vice cometer bondades,
a taxa de governismo do PMDB na Câmara passou a crescer a cada votação. Em
semanas, a obediência do partido ao Planalto pulou de 55% para 73%. Era o toma
lá dá cá habitual. Mas no meio do
caminho havia um delator.
No começo de julho, explodiu a notícia que
todo mundo em Brasília cochichava como boato: o lobista Júlio Camargo disse
em depoimento ao juiz Sérgio Moro que Cunha
havia pedido US$ 5 milhões para liberar um contrato de navios-sonda da
Petrobrás para a empresa Toyo Setal. O dinheiro, segundo o delator, foi
pago via doleiro Alberto Youssef. Havia urgência, contou Camargo, porque os dólares seriam usados na eleição.
O presidente da Câmara
passou à berlinda. Agora, ele também corria risco de cassação. Defendeu-se como sabe
fazer melhor: atirando. Acusou o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de obrigar o delator a
mentir. Insinuou uma tramoia em que Dilma estaria por trás de tudo, oferecendo
a Janot reconduzi-lo ao comando do Ministério Público em troca de ele
“constranger o Legislativo”. Cunha
declarou-se rompido com o governo e foi preparar o troco. Mas veio o
recesso e o impasse ficou suspenso.
Enquanto
na Câmara a batalha de Cunha contra o governo era gritante, o Senado, na surdina, aprovava um aumento
de gastos públicos atrás do outro. O que o ministro da Fazenda, Joaquim
Levy, economizava em cortes de despesas com infraestrutura e programas sociais,
os congressistas repunham com aumentos salariais de servidores públicos e de
benefícios para aposentados. O ajuste
fiscal mostrou-se enxugamento de gelo.
Com
a perspectiva de Levy equilibrar o orçamento da União ficando cada vez mais
improvável, aumentou o pessimismo em
relação à economia. As projeções de uma data para a retomada do crescimento
foram todas adiadas, mais de uma vez. O desemprego cresceu, a renda do trabalho
caiu e a desconfiança do consumidor aumentou. Na razão inversa, a popularidade de Dilma despencou ao
patamar mais baixo de um presidente desde Fernando Collor.
Nesse
cenário, Dilma e Cunha retomam seu duelo para ver quem desequilibra o outro primeiro.
Também acossado pela Lava Jato, Renan é
apresentado como muleta para amparar a presidente. Mas o governo pode
atender só parte das contrapartidas para o senador. Está impedido de interferir
nos inquéritos contra ele. À medida que
a investigação se eletrifica, a muleta pode dar choque.
No
dia 16, Dilma sofrerá empurrão com força proporcional ao tamanho dos protestos
– enquanto espera Janot denunciar ou não Cunha e/ou Renan. O primeiro a cair
pode ser o único.
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