A POLÍTICA BRASILEIRA COMO ELA É...
"BRASIL, PÁTRIA EDUCADORA" - DISCURSO E
REALIDADE!
Dora Kramer
A desconexão entre as palavras e os fatos é uma constante
nos pronunciamentos da presidente Dilma Rousseff. Raramente surpreende nesse
quesito, mas, ontem [01/01/2015], no discurso de posse no Congresso
Nacional, ela superou-se em vários momentos.
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Cid Gomes - novo Ministro da Educação do governo Dilma |
Em especial quando anunciou
em tom solene o lema do segundo mandato: "Brasil, pátria educadora",
significando que o governo dará à educação total prioridade nos próximos quatro
anos. Fosse real, essa primazia deveria
necessariamente corresponder à escolha de alguém de reconhecido saber na área
para comandar o ministério da Educação.
A realidade, no entanto, faz daquele emblema um mero slogan:
o ministro é o ex-governador do Ceará,
Cid Gomes, nomeado para contemplar o PROS (11 votos na Câmara) e
recompensá-lo pela saída do PSB quando o partido deixou a base do governo.
Na fase de especulação de seu nome, Cid Gomes chegou a dizer
que não queria a pasta e, depois, quando já confirmado, sua única manifestação
sobre o setor foi a ideia de alterar o currículo do ensino médio. A respeito da "expertise" do novo
ministro para conduzir o País à condição de "pátria educadora" nada
se sabe.
Assim como não se ouviu de nenhum dos outros escolhidos para
ocupar os "lotes" da Esplanada dos Ministérios uma palavra sequer
sobre as políticas que pretendem executar nas respectivas áreas ou do mérito de
cada um para as tarefas. O critério foi
exclusivamente partidário e a distribuição feita de acordo com o número de
votos de cada legenda no Parlamento.
Nesse aspecto, outro ponto do discurso da presidente em que
as palavras não correspondem aos fatos: Dilma
Rousseff prometeu se empenhar em prol de uma reforma política que permita a
adoção de "práticas mais modernas e éticas". Isso tendo acabado de
montar um Ministério com base em práticas obsoletas e antiéticas.
As promessas feitas pela presidente não correspondem à
formação do Ministério. Para o bem e para o mal. Na economia, a equipe assume
com a missão de cortar gastos, ajustar, equilibrar as contas e conter a
inflação.
Dilma, no entanto, em seu discurso desenhou um cenário
condizente com tempos de bonança total com grandes investimentos, nível de
emprego crescente, salário mínimo em valorização, verbas para Estados e
municípios investirem em transportes coletivos, muito dinheiro para saúde e
educação, enfim, o melhor dos mundos onde não existem as dificuldades de que
dão notícias as próprias medidas tomadas pelo governo.
Sobre corrupção e
Petrobrás, Dilma Rousseff continuou na mesma toada da campanha eleitoral
invertendo a realidade: não foi nos governos do PT que o esquema de
corrupção na estatal cresceu e levou à situação que a Operação Lava Jato agora
desvenda.
Na versão dela, foi graças aos governos do PT que
"malfeitos de alguns funcionários" foram descobertos. A
desvalorização da companhia, pela narrativa da presidente, não é resultado dos
desmandos, mas produto de "um cerco especulativo".
Dificilmente Dilma poderá fazer frente aos compromissos
firmados nesse discurso. Com destaque para aqueles que dependem de votação no
Congresso. Como a emenda constitucional que anunciou para permitir à União
atuar na segurança pública nos Estados, hoje prerrogativa dos governadores.
O loteamento de
ministérios não garante votos no Parlamento - até porque o nomeado fica
satisfeito, mas os não contemplados formam um grupo maior de insatisfeitos - assim como determinados discursos não têm o
poder de transformar fábulas em realidade.
Com a desvantagem de afetar gravemente a credibilidade do
autor. Ou autora. Nesse momento de início do 2.º mandato, era de se esperar que
a presidente Dilma Rousseff se dirigisse ao País justamente no sentido oposto: falando
a verdade.
Fonte: ESTADÃO.COM.BR
– Política/Colunistas – 02/01/2015 – Internet: clique aqui.
Novo velho deputado
José Roberto
de Toledo
O velho deputado está terminando seu sétimo mandato
consecutivo. Velho nem tanto pela idade, mas pela experiência. Foram 28 anos
seguidos no plenário da Câmara, votando desde os capítulos da Constituição de
1988 até as dezenas de emendas que a reformaram. Sempre foi coerente com seus
princípios. Se esses princípios coincidem com a vontade do dono do poder não é
culpa dele.
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Típica família de políticos do Brasil: José Sarney Filho (deputado federal), Roseana Sarney (ex-governadora) e José Sarney (ex-presidente da República) |
De Lula a Dilma, de Sarney a FHC, o velho deputado sempre
foi governista. Hábito. Pouco importa se seu partido faz oposição ao presidente
da ocasião ou se ele próprio fez campanha para o adversário. O líder do governo
- de qualquer governo - sabe que pode contar com seu voto em 80% das vezes ou
mais. O líder de seu partido sonha em ter a mesma confiança, mas não reclama.
Melhor um deputado governista na própria bancada do que na
dos rivais. Ele conta tempo de TV para o partido e aumenta a cota de recursos
do Fundo Partidário para a agremiação. Deixa como está.
E o velho deputado, nunca pensou em trocar de legenda? De
jeito nenhum. Ele se considera um quadro histórico. Trocaram as denominações de
seu partido, trocaram a sigla, trocaram a posição em relação ao governo, mas
ele não trocou nada. Está onde sempre esteve. É um liberal conservador, um
governista de oposição, um ruralista pró-hospitais filantrópicos, um amigo do
Tibete que defende o "direito da legítima defesa", um apoiador da
microempresa em favor da "cadeia do aço e ferro gusa".
Sua base eleitoral sabe que pode contar com o velho
deputado, principalmente com suas emendas ao Orçamento da União. São milhões e
milhões a cada ano para as pequenas e médias cidades que costumam elegê-lo,
cada vez com mais votos. Por obra do destino, às vezes coincidem a liberação,
pelo governo, dos recursos dessas emendas com votações na Câmara. Mas, de novo,
o que pode o velho deputado fazer se o governo concorda com ele?
Mais recentemente, outra coincidência tem lhe trazido
dissabores. Só porque umas empresas que levam o seu nome recebem dinheiro do
governo federal, acusam-no de franciscano. De fazer a política do toma lá dá
cá, do "é dando que se recebe". Ora, que culpa tem ele se o governo
precisa de suas faculdades? Não as intelectuais, diga-se, mas de suas salas de
aula.
Começaram alugando-as para fazer o Enem (Exame Nacional o
Ensino Médio), depois, para colocar alunos que têm suas mensalidades bancadas
pelo Fies (Financiamento Estudantil). De R$ 1,5 mil em 2011, o dinheiro
recebido da União pelas empresas homônimas ao velho deputado subiu para R$ 3,5
milhões em 2012, foi a R$ 12 milhões em 2013 e chegou a R$ 25 milhões em 2014.
Tudo legal.
É muita implicância. Até da locadora de onde aluga os carros
que usa quando está em Brasília desconfiam - só porque a fatura é paga pela
verba de gabinete que recebe da Câmara. Basta. Chega. Não dá mais para o velho
deputado. Ele vai voltar para sua terra natal, onde lhe dão valor por suas
empresas, fazendas e hospital filantrópico que administra, com pequena ajuda
federal.
Está na hora de deixar as novas gerações assumirem essa luta
ingrata. É exatamente isso que seu filho deve fazer, assim que tomar posse de
sua cadeira na Câmara dos Deputados. O velho deputado vai ser substituído pelo
novo deputado. Ele foi eleito pela antiga base eleitoral do pai - praticamente
uma herança. Pelo fabricante de armas e cartuchos que financiou sua campanha,
deve integrar a mesma frente pelo "direito da livre defesa".
Assim se renova a
política no Brasil. Sai o pai e entra o filho. Mudam caras e prenomes, seguem
os sobrenomes. Trocam as siglas e os partidos, permanecem as práticas, usos e costumes - principalmente com o dinheiro público. E o velho deputado? Vira
foto na parede, nome em letreiro? Isso também - além de garantir uma suplência
no Senado, que ninguém é de aço ou ferro gusa.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Política – Segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 – Pg. A6 – Internet:
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