POR TRÁS DO "JE SUIS"
Entrevista
com Paul Freston*
Marília de
Camargo Cesar
Jornal VALOR ECONÔMICO
16-01-2015
Para ele, as marchas
anti-islamismo na Europa realizadas nesta semana podem ser lidas como uma
dificuldade de tolerar o multiculturalismo, mas também como uma estratégia que
reforça o discurso contra a imigração.
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Paul Freston |
O crescimento do islamismo na Europa
é visto por conservadores como uma ameaça a valores republicanos. Qual é sua
opinião sobre esse debate?
Paul Freston: Existe
uma preocupação exagerada por parte de certos setores da sociedade europeia e
mesmo na americana. Há uma literatura de autores conservadores americanos que
fazem uma leitura apocalíptica da situação, inclusive chamando-a de "Eurábia", fusão de Europa e Arábia,
como se estivesse a caminho do pior tipo de radicalização.
Que autores defendem essa visão?
Paul Freston: Samuel
Huntington [autor de "O Choque de
Civilizações" – Ed. Objetiva, 1997], o católico conservador americano
George Weigel e alguns autores europeus vão nessa linha. Essa visão tem vários
senões. O medo se fundamenta em uma projeção demográfica de imigração
continuada e fora de controle de países de maioria muçulmana e na ideia de que
esses imigrantes têm taxa de fertilidade bem mais alta que a dos europeus
nativos. Projeções como a de que no ano 2050 a França vai ter maioria muçulmana
são questionáveis. A proporção de muçulmanos hoje no país, segundo estimativas
diversas, não chega a 10%. De 10% para 50% é um salto enorme e improvável.
Outra questão: como se contam os muçulmanos? Qualquer
imigrante ou descendente de imigrante de país muçulmano é contado como
muçulmano. A pessoa não tem que se declarar muçulmana. Pode ser secularizada,
indiferente, mas entra como muçulmana. Então, pode até se tornar uma profecia
que se autorrealiza, pois, por causa do preconceito, muitos acabam se
descobrindo muçulmanos, enquanto em seu país de origem não tinham o menor
interesse em religião. Acabam criando uma identidade "default" - na falta de outra, ele se assume assim. Isso também
pressupõe que os muçulmanos, no contexto europeu, não vão se secularizar como o
restante da população, o que também é questionável.
Qual o significado de "Je suis
Charlie"?
Paul Freston: Boa
parte da população francesa se mostra identificada com um órgão da imprensa que
tem proposta secular e antagônica às religiões, e que insulta todas elas. O que
se vê não é um movimento de anti-islamismo, mas antirreligião. Ao adotar esse
slogan, vemos pessoas se associando à ideia de não religião em nome da
liberdade de expressão.
As marchas anti-islamismo que
aconteceram na Alemanha são uma manifestação de xenofobia explícita, uma dificuldade
de tolerar o multiculturalismo ou defesa contra um sentimento de insegurança?
Paul Freston: Um
pouco de tudo isso, talvez com objetivos diversos por parte de diversos
públicos. Em certos países da Europa, a imigração é mais associada ao
islamismo. Na Inglaterra, é menos. Tem uma imigração mais diversificada, há
muçulmanos do Paquistão, de Bangladesh, mas também hindus da Índia, cristãos do
Caribe, da África, os latinos e os do Leste Europeu, muitas vezes católicos
atuantes. Mas na Alemanha, historicamente, o primeiro grande fluxo migratório
foi dos turcos, de maioria muçulmana. Nesse caso, centrar as atenções num
movimento anti-islâmico talvez seja uma forma de, no fundo, combater a
imigração. Em vez de dizer "nós somos contra a imigração", você usa
um flanco exposto que é o islã. Melhor dizer que são contra imigrantes
muçulmanos, porque trazem tais e tais perigos. Eles fizeram muitas
manifestações nos últimos tempos, mas esta última, em Dresden, teve bastante
mais gente.
Como pode ser feito o combate ao
terrorismo ao mesmo tempo em que se defende a convivência pacífica entre as
religiões, nesse ambiente que ficou conhecido por conservadores como
"choque de civilizações"?
Paul Freston: Esta
é uma frase do Huntington, de seu famoso livro "Choque das Civilizações". É uma visão que convém aos
terroristas e a alguns radicais de direita europeus. Eles acreditam nisso e de
certa forma se alimentam mutuamente. Convém aos dois extremos criar essa visão,
de excluir o meio-termo. Ou você está com a gente ou com os terroristas. Creio
ser necessária uma compreensão maior. Principalmente na França, onde o laicismo
é historicamente mais agressivo, e quer excluir a religião em geral da praça
pública. A ilusão é de que o secular é neutro e não tem uma agenda própria, daí
ser importante manter esse espaço público isento. O catolicismo e o judaísmo,
por não terem força no país, acabaram aceitando e se adequando a essa exclusão,
essa privatização da religião. Mas aí chega o islã. É muito difícil privatizar
o islã. Em geral, o islã é uma religião que não aceita a privatização, pois
assume que a religião tem a ver com tudo e não pode ser excluído da vida
pública.
Mas o fundamentalismo cristão também
não tem essa característica?
Paul Freston: Tem
um tipo de fundamentalismo cristão que é justamente o privatizado. Que se
refugia numa atitude sectária, distante do mundo. Nos Estados Unidos da América,
durante muito tempo, os fundamentalistas viveram longe da política, dizendo que
política era coisa do diabo. Isso mudou dos anos 1980 para cá. Os
fundamentalistas cristãos ou são privatizados ou aceitam a democracia como
pressuposto, então podem até querer influenciar na esfera pública, nas leis,
mas o fazem pela via democrática. Uns poucos fogem disso. Por exemplo, os que
colocavam bombas em clínicas de aborto. São incidentes relembrados, mas foram
poucos e há muito tempo não se houve falar nisso.
Qual seria o maior desafio hoje na
França, depois dos ataques?
Paul Freston: Seria
um esforço para entender a religião não privatizada, seja islâmica, seja cristã
ou qualquer outra. Entender o desejo de pessoas motivadas pela sua fé de se
envolver na vida pública e de influenciar a vida pública por meios pacíficos e
democráticos. A França tem certa dificuldade com isso, pois levanta outra
questão: qual deve ser a norma de convivência? Em 2012, o site de humor americano
"The Onion" publicou uma
charge na qual Jesus, Moisés, Buda e Ganesh aparecem fazendo sexo. O título era
"ninguém foi morto por causa dessa imagem". Alguns seguidores dessas
religiões se ofenderam, mas nenhum deles comprou uma metralhadora. O objetivo era
mostrar que outras religiões têm postura diferente diante da ofensa.
* Paul Freston, pós-doutor em ciências sociais pela
Universidade de Oxford e professor catedrático de religião e política na
Universidade Wilfrid Laurier, em Waterloo (Canadá).
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 16 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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