O calor e a seca que continuará: que fazer?
WASHINGTON
NOVAES
Jornalista
![]() |
Prof. Antonio Donato Nobre |
Acendem-se muitos sinais de alerta diante de notícias como a
de que 2014 foi o ano mais quente desde
quando se registram temperaturas no planeta (1880), diz a National Oceanic and Atmospheric
Administration, a agência meteorológica dos Estados Unidos. Os dez anos
mais quentes aconteceram após 2000, com uma única exceção: 2015 tende a ser ainda mais quente, pois neste ano teremos o fenômeno El Niño, que aquece as águas do
Pacífico e influi na atmosfera continental - o que não se verificou em 2014.
O aumento das emissões de poluentes para a atmosfera foi
muito forte e ao lado da formação de
"ilhas de calor" em áreas urbanas muito adensadas já é causa bem
estudada de eventos problemáticos, dizem os cientistas do Instituto Climatempo.
Assim como o aumento do desmatamento no País, principalmente na Amazônia, e a
ocupação de novas áreas pela pecuária e pela agricultura. E tudo isso nos
coloca entre os países que mais contribuem para mudanças no clima.
Outro estudo, de 18 cientistas respeitados (ScienceXpress,
15/1), adverte que mudanças no clima e perdas na biodiversidade podem
"levar o planeta Terra a um novo estágio, se a ultrapassagem de limites
continuar ocorrendo", afetando mesmo a camada de ozônio e intensificando a
acidificação dos oceanos. Na verdade, dizem eles, deveríamos até, ao calcular a
evolução do produto econômico no mundo, incorporar o que acontece em terra, na
água, no ar.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura (FAO) dá-lhes razão, ao lembrar que, como a população terrestre vai chegar a 9 bilhões até 2050, nas próximas décadas precisaremos aumentar a
produção de alimentos em 60% (para atender inclusive aos 40% da população
que vive abaixo do nível de pobreza fixado pela ONU), aumentar a produção de energia em 50% e a utilização de recursos hídricos em 40%. E tudo sem aumentar a
degradação - o que exigirá modos de viver adequados às possibilidades do
planeta.
Deveríamos também, todos, ler o relatório O
Futuro Climático da Amazônia, do professor Antônio Donato Nobre*, pesquisador no Inpe, MCT e Inpa, produzido
para a Articulação Regional Amazônica. Ele chama a atenção para os efeitos devastadores do desmatamento na
Amazônia e sua influência muito forte em todo o País, inclusive para quem vive
nas áreas urbanas. E destaca alguns ângulos da questão:
1) A capacidade da Floresta Amazônica de
contribuir decisivamente para manter a umidade do ar naquele bioma e em outras
partes distantes; as árvores extraem água pelas raízes, levam-na para as
folhas, que jogam o líquido, evaporado, para a atmosfera; isso leva a que uma árvore de grande porte contribua a cada
dia com o equivalente a mil litros de água - o que se traduz em quase 20
bilhões de toneladas de ar diárias evaporadas pela floresta, mais que o
aporte diário de água para o Rio Amazonas; e que equivale, em energia solar, a
mais do que toda a energia gerada por uma usina como Itaipu.
2) Esse processo leva a um rebaixamento da
pressão atmosférica sobre a floresta, que suga o ar úmido que está sobre o
oceano para dentro do continente, mantendo as chuvas "em quaisquer
circunstâncias".
3) No processo a Amazônia também exporta
"rios aéreos de vapor", que transformam a água transportada em
"chuvas fartas que irrigam regiões distantes no verão hemisférico"; o
processo florestal também distribui e dissipa a energia transportada nos ventos
que chegam e impede a formação de "eventos climáticos extremos", como
furacões e similares.
Mas todo esse
processo está em risco. Até 2013 o desmatamento na Amazônia chegou a quase
763 mil km2. Se forem somadas as áreas onde ocorreu a "degradação
florestal", serão mais 1,2 milhão de km2 - chegando o total
final a quase 2 milhões de km2.
A tudo isso ainda se
podem somar as perdas no Cerrado (mais de 50% da área já desmatada), na Mata Atlântica e em outros biomas. A
impermeabilização do solo do Cerrado com o desmatamento impede que a água se
infiltre - e se reduz a capacidade de geração de fluxos para as três grandes
bacias brasileiras.
Cinco passos
essenciais são apontados por Antônio Nobre e outros cientistas:
1) Ter uma estratégia de "guerra à
ignorância" quanto às questões das chuvas e da Amazônia;
2) conseguir, com políticas competentes e
obrigatórias, chegar ao desmatamento zero na Amazônia;
3) abolição do
uso do fogo;
4) estratégias de recomposição de espaços das
florestas;
5) conscientizar
as "elites" de seu papel decisivo no processo.
Se o Brasil tivesse cumprido o Plano Nacional de Mudanças Climáticas, aprovado em 2009, dizem os
estudos, estaríamos chegando já em 2015 ao desejado desmatamento zero. Mas,
como diz o dirigente do Instituto SocioAmbiental, Beto Ricardo, todos os projetos multilaterais para a
Amazônia são "ridículos".
Então, será decisivo
impedir que o desmatamento propicie a expansão de pastagens (com o aumento
das emissões de metano), é preciso mudar os caminhos da pecuária. Repensar
nossos formatos de mobilidade urbana, para reduzir as emissões de poluentes por
veículos. Tratar com competência a área de energia e não utilizar fontes
térmicas, altamente poluentes, como o carvão. Sempre lembrando o que é
conclusão quase unânime na Convenção do Clima: teremos de reduzir em 80% o uso dos chamados "combustíveis
fósseis".
Nas cidades, onde as "ilhas de calor" causadas
pelo adensamento atraem chuvas problemáticas, vale a pena enfatizar o recente
"apelo à população" feito pelo diretor executivo da Rede Nossa São Paulo, Oded Grajew: "A cidade de São
Paulo está diante de uma catástrofe social, econômica e ambiental sem
precedentes (...). A Cantareira pode secar em 60 dias (...). Estamos acomodados
e tranquilos num Titanic, sem nos dar conta do iceberg que está se
aproximando".
É tempo de juízo.
Assista a um vídeo muito didático sobre a contribuição da Amazônia para as chuvas - "Há um rio sobre nós" - clique aqui.
* Prof. Antonio Donato
Nobre possui graduação em Agronomia pela Universidade de São Paulo (1982),
mestrado em Biologia Tropical (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas
da Amazônia (1989) e PhD em Earth System Sciences (Biogeochemistry) pela
University of New Hampshire (1994). Atualmente é pesquisador titular do
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e pesquisador Visitante no Centro
de Ciencia do Sistema Terrestre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais,
onde lidera o grupo de modelagem de terrenos. Tem experiência na área de
Ecologia e Geociências, com ênfase em Biogeoquimica, atuando principalmente nos
seguintes temas: evolução da vida na terra, ecologia de florestas, ciclo do
carbono, efeito estufa, relações biosfera-atmosfera, hidrologia, clima e
mudanças globais, sensoriamento remoto, modelagem matematica da paisagem e
ordenamento territorial empregando modelos digitais de terrenos. Foi membro do
Comite Cientifico Superior do Global Carbon Project (IGBP_GCP) e do comite do
Global Canopy Program (GCP_WFO); ainda atua no Experimento de Larga Escala da
Biosfera-Atmosfera na Amazonia (LBA), alem de participar no Terrestrial Carbon
Observations Panel (GTOS-TCO). Atua em variados tópicos na agenda de desenvolvimento
sustentavel para a Amazônia e tem destacada atuação na popularização da
ciência.
Fonte: O Estado de S. Paulo – Espaço aberto – Sexta-feira, 23 de janeiro de 2015 – Pg. A2 – Internet: clique aqui.
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