Papa Francisco, sínodo, mulheres na Igreja e relacionamentos homoafetivos
Entrevista
com o cardeal Reinhard Marx
Luke Hansen,
SJ*
revista America
22-01-2015
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Cardeal Reinhard Marx - Arcebispo de Munique e Freising (Alemanha) |
O cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Freising, é presidente da conferência episcopal alemã,
membro do Conselho dos Cardeais que
assessora o Papa Francisco sobre a governança da Igreja, coordenador do Conselho para a Economia e autor de “Das Kapital: A Plea for Man” (2008).
Marx palestrou no evento anual “Roger W.
Heyns Lecture”, no dia 15 de janeiro deste ano na Stanford University, Califórnia. A entrevista a seguir, editada
para esclarecimentos e aprovada pelo cardeal, foi feita no último dia 18 na
Memorial Church da mencionada universidade.
Eis a entrevista.
A sua experiência no Conselho dos
Cardeais lhe propiciou uma perspectiva diferente sobre a Igreja?
Cardeal Marx: Tenho
uma nova responsabilidade. Quando sou entrevistado – como hoje –, me perguntam:
“O que o senhor está fazendo neste Conselho?” e “Como é estar com o papa?”
Sinto uma responsabilidade maior. Não vejo a Igreja de uma maneira nova, no
entanto. Sou bispo há 18 anos e cardeal há 5, e venho participando dos Sínodos.
O que vejo são minhas novas responsabilidades e oportunidades, e também o
momento histórico de a Igreja avançar e sermos parte da história dela.
Quais são as novas oportunidades?
Cardeal Marx: Este
pontificado como um todo abriu novos caminhos. Podemos sentir isto. Aqui, nos
Estados Unidos, todo mundo está falando sobre o Papa Francisco, até mesmo as
pessoas que não pertencem à Igreja Católica. Tenho que dizer: o papa não é a
Igreja. A Igreja é mais que o papa. Mas há uma atmosfera renovada. Um rabino me
disse: “Diga ao papa que ele nos ajuda, porque está fortalecendo todas as
religiões, não somente a Igreja Católica”. Então, temos um novo movimento.
No Conselho dos Cardeais, temos a tarefa especial de criar
uma nova constituição para a Cúria Romana, de reformar o Banco Vaticano e
discutir muitas outras coisas com o papa. Mas não podemos estar presentes o
tempo todo em Roma. Devemos ver este pontificado desta forma, como um passo
mais amplo e novo. Tenho a impressão de que estamos num caminho novo. Não
estamos criando uma nova Igreja – ela continua sendo a católica –, mas há um ar
renovado, um novo passo para frente.
Qual o desafio que acompanha este
novo tempo na Igreja?
Cardeal Marx: Melhor
é ler “Evangelii Gaudium” [Exortação Apostólica de Papa Francisco - acesso aqui].
Algumas pessoas dizem: “Não sabemos o que o papa realmente está querendo”. Eu
digo: “Leia este texto”. Ele não dá respostas mágicas para questões complexas,
mas sim expressa o caminho do Espírito, o caminho da evangelização, estando-se
próximo das pessoas, próximo dos pobres, próximo dos que fracassam, próximo dos
pecadores; este documento não expressa uma Igreja narcisista, não é uma Igreja
do medo. Há um impulso renovado e livre para se sair ao mundo.
Alguns se preocupam com o que vai acontecer. Francisco usa
uma imagem forte: “Eu prefiro uma Igreja que esteja machucada, ferida e suja porque ela
saiu às ruas”, em vez de uma Igreja que esteja bem limpa e possuidora
da verdade e de tudo o que é necessário. Esta segunda forma não ajuda as
pessoas. O Evangelho não é novidade, mas Francisco está expressando-o de uma
maneira nova e que inspira muitas pessoas, em todo o mundo, pessoas que estão dizendo: “Sim, esta é a Igreja”. Trata-se de
um grande presente para nós. Algo muito importante. Veremos o que ele fará. Ele
é papa por apenas dois anos, o que não é muito tempo.
O que o senhor pode nos contar sobre
o Papa Francisco, a pessoa, a partir de seu estreito trabalho com ele?
Cardeal Marx: Ele
é muito autêntico. Tranquilo, calmo. Na idade que tem, ele não precisa realizar
algo ou provar alguma coisa para mostrar que é alguém. Ele é muito claro e
aberto, não é orgulhoso. É forte. Não uma pessoa fraca, mas forte. Não acho que
seja tão importante se analisar o caráter do papa, mas compreendo o interesse.
O que é um tanto interessante é como, junto dele, iremos
desenvolver o caminho a seguir para a Igreja. Por exemplo, ele escreve [na
exortação apostólica] “Evangelii Gaudium”
sobre a relação entre o centro em Roma e as conferências episcopais, e também
sobre o trabalho pastoral nas paróquias, nas igrejas locais e o caráter dos
sínodos. Estes são elementos importantíssimos para o futuro da Igreja. É também
bastante importante o fato que tenhamos um papa. Neste momento, todo mundo está
falando sobre a Igreja Católica, nem todos de forma positiva, mas a maioria.
Então, Cristo fez muito bem em estabelecer o ofício de São
Pedro. Percebemos isto. Mas isso não significa centralismo. Eu disse ao papa: “Uma
instituição centralizada não é uma instituição forte. É uma instituição fraca”.
O Concílio Vaticano II começou a estabelecer um novo equilíbrio entre o centro
e a Igreja local, porque viram, há 50 anos, o início da Igreja universal. Não
se alcançou isto, no entanto. Devemos fazer acontecer pela primeira vez. Hoje,
50 anos depois, vemos o que é preciso para sermos uma Igreja num mundo
globalizado, uma Igreja universal. Nós ainda não a organizamos de maneira
suficiente. Esta é a grande tarefa deste século. A tentação é centralizar, mas
assim ela não vai funcionar. O outro
desafio é encontrar uma forma de explicar a fé nas diferentes partes do mundo.
O que os sínodos e as igrejas locais podem fazer juntos com Roma? Como podemos fazer
isso de uma boa maneira?
Dois problemas no presente sínodo [sobre a família] são os católicos divorciados e recasados,
e os católicos gays (especialmente os que se envolvem em relacionamentos
homoafetivos). O senhor tem oportunidades de ouvir diretamente estes católicos
em seu atual ministério?
Cardeal Marx: Sou
sacerdote há 35 anos. Este problema não é novo. Tenho a impressão de que temos
muito trabalho a fazer no campo teológico, não só relacionado à questão do
divórcio, mas também à teologia do matrimônio. Fico admirado que alguns digam: “Tudo
está claro”, referindo-se a este assunto. As coisas não estão claras.
Não se trata de a doutrina católica estar sendo determinada pelos tempos
modernos. Trata-se de uma questão de aggiornamento
[atualização], para dizê-lo de uma forma que as pessoas possam entender, e de
sempre adaptar a nossa doutrina ao Evangelho, à teologia, no intuito de
encontrar, num novo caminho, o sentido do que Jesus disse, o significado da
tradição da Igreja e da teologia, e assim por diante. Há muita coisa a fazer.
Converso com muitos especialistas – canonistas e teólogos –
que reconhecem muitas das questões relacionadas à sacramentalidade e validade
dos casamentos. Uma delas é: O que podemos fazer quando uma pessoa se casa, se
divorcia e encontra um novo parceiro? Há diferentes posições. Alguns bispos no
Sínodo disseram: “Elas estão vivendo em pecado”. Mas outros disseram: “Não
se pode dizer que alguém esteja em pecado todo dia. Isso não é possível”.
Veja, há interrogações sobre as quais devemos falar. Abrimos um debate sobre
este assunto na conferência episcopal alemã. Hoje, o texto está publicado. Eu o
considero um material muito bom e uma grande contribuição para a discussão
sinodal.
É muito importante que o Sínodo não tenha o espírito de
“tudo ou nada”. Este não é um bom caminho. O Sínodo não pode ter vencedores e
perdedores. Este não é o espírito do Sínodo. O espírito do Sínodo é encontrar
uma forma de andarmos juntos, e não de dizer: “Como posso encontrar um jeito de
fazer valer a ‘minha’ posição?” Em vez disso, [devemos nos perguntar]: “Como posso entender a outra posição, e
como podemos juntos encontrar uma nova possibilidade?” É este o espírito do
Sínodo.
Portanto, é de grande importância que estejamos trabalhando
nestas questões. Espero que o papa inspire este Sínodo. O Sínodo não pode
decidir; apenas um concílio ou o papa pode decidir. Estas interrogações devem
ser compreendidas num contexto mais amplo. A
tarefa é ajudar as pessoas a viverem. Não tem a ver, segundo o “Evangelii Gaudium”, com a forma como podemos
defender a verdade. Tem a ver com ajudar
as pessoas a encontrar a verdade. E isto é importante.
A Eucaristia e a Reconciliação são necessárias às pessoas.
Dizemos para algumas delas: “Vocês jamais se reconciliarão”. É impossível
acreditarmos nisso quando nos deparamos com certas situações. Eu poderia dar
exemplos. No espírito da “Evangelii
Gaudium”, temos que ver como a
Eucaristia é um remédio às pessoas, servindo para ajudá-las. Devemos
procurar maneiras de as pessoas receberem a Eucaristia. Não se trata de
encontrar formas de mantê-las fora. Devemos encontrar meios para acolhê-las.
Precisamos usar a nossa imaginação, perguntando: “Podemos fazer algo?” Talvez
não possamos ajudar em algumas situações. Mas esta não é a questão. O foco deve estar em como acolher as
pessoas.
No Sínodo, o senhor se referiu ao
“caso de dois homossexuais que viveram juntos por 35 anos e que cuidavam um do
outro, mesmo nos últimos momentos de suas vidas”, e o senhor se perguntou:
“Como posso dizer que isto não tem valor?” O que o senhor aprendeu a partir
destes relacionamentos e isto tem alguma relação com a ética sexual hoje?
Cardeal Marx: Quando
falamos sobre ética sexual, talvez devêssemos não começar com “dormir juntos”,
mas sim falando sobre o amor, a fidelidade e a busca por um relacionamento que
dure a vida inteira. Fico admirado que a maioria dos nossos jovens, e também
homossexuais católicos praticantes, desejem um relacionamento que dure para
sempre. A doutrina da Igreja não é tão estranha às pessoas.
A Igreja diz que o relacionamento homoafetivo não está no
mesmo nível de uma relação entre um homem e uma mulher. Isto está claro. Mas
quando eles são fiéis, quando estão engajados no trabalho a favor dos pobres,
quando estas pessoas estão trabalhando, não
é possível dizer: “Tudo o que vocês
fazem, pelo fato de serem homossexuais, é negativo”. Não se pode ver
alguém somente de um ponto de vista, sem enxergar a situação como um todo. Esta
postura é bastante importante para a ética sexual.
O mesmo vale para as pessoas que vivem juntas mas que se
casam depois, ou quando são fiéis juntas mas só no casamento civil. Não é
possível dizer que a relação era negativa em seu todo, se o casal é fiel e se
está esperando, ou planejando sua vida, e 10 anos depois encontram o caminho
para o sacramento. Quando possível,
devemos ajudar as pessoas que vivem juntas a encontrar uma realização no
matrimônio. Discutimos este assunto no Sínodo, e muitos dos padres sinodais
partilham desta opinião. Não estive sozinho neste sentido.
No mês passado, Dom Johan Bonny, da
Arquidiocese de Antuérpia, Bélgica, disse que a Igreja deveria reconhecer uma
“diversidade de formas” e que poderia abençoar alguns relacionamentos homoafetivos
com base nestes valores de amor, fidelidade e compromisso. É importante para a
Igreja discutir estas possibilidades?
Cardeal Marx: No
Sínodo dos Bispos, eu disse que o Papa Paulo VI teve uma grande intuição na
[carta encíclica] “Humanae Vitae”. A
relação sexual num relacionamento fiel funda-se no procriar, no dar amor, na
sexualidade e na abertura à vida. Paulo VI acreditava que esta série de
elementos pudesse ser destruída. Ele estava certo; basta vermos todas as
questões envolvendo a medicina reprodutiva e assim por diante. Não podemos
excluir este grande modelo de sexualidade e dizer: “Temos uma diversidade”, ou
ainda: “Todos têm o direito de...”. O grande significado da sexualidade é a
relação entre um homem e uma mulher e a abertura à vida.
Como a Igreja Católica e as igrejas
protestantes marcarão o 500º aniversário da Reforma em 2017? Quais são as
possibilidades de uma cooperação maior entre as nossas igrejas?
Cardeal Marx: Estamos
tendo um bom diálogo na Alemanha e em nível de Santa Sé, com a Federação Luterana Mundial, no intuito
de realizarmos uma memória desse período. Nós católicos não podemos “celebrar”
este aniversário, visto não ser bom que a Igreja tenha se dividido durante estes
séculos. Mas temos que curar as nossas
memórias, um ponto importante e um bom passo adiante em nossa relação. Na
Alemanha, fiquei muito feliz que os líderes da Igreja protestante não quissessem
celebrar este aniversário sem os católicos. Há 100 anos, ou mesmo 50 anos
atrás, um bispo protestante não diria: “Só irei celebrar quando os católicos
estiverem presentes”. Então, estamos planejando este momento. “Curar as Memórias” será uma celebração
conjunta.
Na Alemanha, os líderes protestantes e católicos farão uma
peregrinação à Terra Santa, para voltarmos às nossas raízes. Faremos uma
celebração maior não a Martinho Lutero e sim a Cristo, uma “Christusfest”, para olharmos adiante:
Qual é o nosso testemunho hoje, o que podemos fazer hoje, qual o futuro da
religião cristã e o que podemos fazer juntos. São estes os nossos planos para
marcar o 500º aniversário.
O Papa Francisco pede por uma
participação maior das mulheres na Igreja. O que o senhor pensa neste sentido?
O que ajudaria a Igreja a melhor cumprir a sua missão?
Cardeal Marx: A
desclericalização do poder é importantíssima na Cúria Romana e nas
administrações diocesanas. Devemos olhar para o Direito Canônico e refletirmos
teologicamente para vermos quais papéis necessariamente exigem sacerdotes; e
então “todas” as outras funções, no sentido mais amplo possível, devem ser
abertas aos leigos, homens e mulheres, mas especialmente às mulheres. Na
administração do Vaticano, não é necessário que religiosos liderem todas as
congregações, conselhos e departamentos. É uma pena que não haja mulheres entre
os leigos no Conselho para a Economia. Os especialistas foram escolhidos antes
que eu começasse como coordenador, mas irei procurar mulheres para atuarem
nesta função.
Pela primeira vez no Vaticano, o nosso Conselho tem leigos
com as mesmas responsabilidades e direitos que os cardeais. Pode não parecer
grande coisa, mas as grandes coisas começam com passos pequenos, certo?
Digo e repito em minha diocese: Por favor, vejam o que vocês
podem fazer para trazerem os leigos, especialmente as mulheres, para as
posições de responsabilidade na administração diocesana. Fizemos um plano para
a Igreja Católica na Alemanha ter mais postos de liderança nas administrações
diocesanas assumidos por mulheres. Em três anos, veremos o que foi feito.
Nessa questão devemos fazer um grande esforço em vista do
futuro, não só para sermos modernos ou imitar o mundo, mas também para
percebermos que esta exclusão das mulheres não está no espírito do Evangelho.
Às vezes, o desenvolvimento do mundo dá-nos um sinal: vox temporis vox Dei (“a voz do tempo é a voz de Deus”). O desenvolvimento do mundo dá-nos sinais,
sinais dos tempos. João XXIII e o Concílio Vaticano II disseram que
precisamos interpretar os sinais dos tempos à luz do Evangelho. Um destes sinais são os direitos das
mulheres, a emancipação delas. João XXIII disse isto há mais de 50 anos.
Estamos sempre em vias de sua realização.
O progresso não é aparente.
Cardeal Marx: Às
vezes, ao invés de as coisas melhorarem elas pioram.
Qual o impedimento que precisa ser
superado?
Cardeal Marx: Mentalidade!
Mentalidade! Mentalidade! E as decisões dos que têm cargos de responsabilidade.
Isto é claro: os bispos têm que decidir.
Os bispos e o Santo Padre precisam começar a mudança. Muitas vezes
participei de seminários ou cursos para gerentes de empresas, e isto sempre
esteve claro: as escadas são limpas a
partir de cima, não de baixo. Assim devem fazer os líderes; os chefes devem começar. A mentalidade deve mudar. A Igreja não
é um negócio, mas os métodos não são tão diferentes. Precisamos trabalhar mais
em equipe, em projetos. A questão é: “Quem tem os recursos para fazer acontecer
estas ideias?”. Deus nos dá todas estas pessoas e nós dizemos: “Não, ele não é
padre, ele não pode fazer este trabalho, ou esta ideia não é tão importante”.
Isto é inaceitável. Não mesmo.
O Papa Francisco fará a sua primeira
visita aos Estados Unidos em setembro. O que o senhor espera desta visita?
Cardeal Marx: Sempre
fico admirado com a capacidade do papa de reunir as pessoas e inspirá-las.
Espero que as pessoas nos Estados Unidos possam vivenciar isso também. Uma das principais tarefas e desafios de um
bispo, e de um papa, é unir as pessoas e unificar o mundo. A Igreja é o um instrumentum unitatis, um instrumento e
sacramento de unidade entre as pessoas e entre Deus e elas. Espero que, quando
o papa visitar este país – e possivelmente a ONU –, a Igreja possa mostrar ao
mundo que a ela será um instrumento não para si mesma, mas para a unidade do
país e do mundo.
Traduzido do inglês por Isaque Gomes Correa, com algumas pequenas adaptações de Pe. Telmo José Amaral de Figueiredo.
Para ter acesso à entrevista em sua versão original inglesa, clique aqui.
*
Luke Hansen é jesuíta, ex-editor associado da revista America e estudante na Faculdade
Jesuíta de Teologia, da Universidade de Santa Clara, em Berkeley, Califórnia
(Estados Unidos da América).
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Segunda-feira, 26 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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