O BRASIL IMAGINÁRIO DOS POLÍTICOS!!!
“A linguagem política, destina-se a fazer com que
a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir
ao vento uma aparência de solidez”
(George Orwell: 1903-1950 – escritor e jornalista inglês)
O mundo imaginário do PT
Editorial
O discurso da ministra
Tereza Campello, na cerimônia de posse como titular do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome - cargo que
já ocupava no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff -, é um exemplo
claro da tendência do Partido dos Trabalhadores (PT), desde que assumiu o
poder, de escapar da realidade e viver num mundo imaginário.
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Tereza Campello - Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome |
Para a ministra, "foi
muito mais fácil acabar com a miséria do que acabar com o preconceito contra os
pobres". E para que não pairasse dúvida de que não era um pensamento
mal formulado, ela explicou que não se trata de uma ideia nova, mas de algo que
ela expressa com frequência. "Eu sempre digo uma frase que eu acho que tem
que nortear a nossa agenda no próximo período", e aí soltou a bendita
frase, para concluir que o desafio
prioritário a ser enfrentado pela sua gestão no segundo mandato de Dilma será
acabar com o "preconceito contra os pobres".
É, no mínimo, assustador ouvir da pessoa que, desde o
primeiro dia de 2011, é a titular do Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome - era de esperar que
quatro anos no cargo a tivessem ajudado a conhecer ao menos um pouco da
realidade brasileira -, e que continuará a chefiar a pasta, que já não
existe miséria no País e bastaria agora enfrentar o "preconceito contra os
pobres". Em que mundo vive alguém
que formula um pensamento desse teor? Por quais cidades brasileiras a ministra
tem andado?
Por ocasião da campanha eleitoral do ano passado, a
candidata à reeleição Dilma Rousseff já havia dito semelhante disparate. Nas
linhas gerais do programa de governo que ela apresentou ao Tribunal Superior
Eleitoral, dizia-se que "a tarefa
de combater a extrema pobreza (...) foi superada", para daí afirmar
que a batalha atual é "assegurar a perenidade da erradicação da miséria e
da pobreza". E, diante desse admirável mundo novo, o lema da campanha era
que "o fim da miséria é só um começo".
Dizer que acabou a
miséria no País é fechar os olhos à realidade. Por uma opção ideológica -
que atende muito bem aos interesses marqueteiros do governo e muito mal às
necessidades reais do País -, as prioridades do Brasil ficam invertidas. Já não é preciso melhorar as condições
materiais; bastaria agora difundir uma campanha contra o preconceito.
Esse discurso - que infelizmente não é apenas retórica, pois
vai deformando a ação governamental - é contraditório com o que o próprio PT
sempre defendeu. Se houve 500 anos de graves injustiças no País - como eles
gostam tanto de afirmar -, serão meros 12 anos que corrigirão os rumos? Quisera que os problemas sociais do País
fossem assim tão fáceis de ser resolvidos. Tal raciocínio - que agora
repete a ministra - é de uma superficialidade que faz temer as suas
consequências, pois quem o formula faz parte do grupo que tem as rédeas do País.
Troca-se a realidade pelo pensamento imaginário. Já não há fome, já não há miséria, já não
há pobreza - há apenas o preconceito. Essa opção não é, infelizmente,
indolor. É uma bofetada de desprezo em
tantos brasileiros e brasileiras que ainda vivem em condições subumanas.
Logicamente, o preconceito - seja de qual espécie for: por
raça, cor, sexo, língua, condição social, orientação política, etc. - é
prejudicial e deve ser fortemente combatido. Mas trocar a busca do
desenvolvimento social e econômico real - que deveria ser a missão da ministra
- por um discurso ideologicamente enviesado afronta as necessidades de tantos
brasileiros que ainda vivem em situação de pobreza.
Ninguém nega que, nos últimos anos, houve redução
significativa da parcela da população que vive em estado de pobreza. Segundo
estudo do Banco Mundial, em 1999, 35% dos brasileiros eram pobres. Em 2011,
eram 17% da população. Isso, no entanto, nada tem a ver com fechar os olhos à
realidade e construir um mundo imaginário. Um
governo que faz vista grossa a 17% da população é um governo muito distante das
reais necessidades do País - e muito apegado aos seus interesses
ideológicos.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Notas e Informações – Domingo, 11 de janeiro de 2015 – Pg. A3 –
Internet: clique aqui.
Lula e Dilma
Eliane
Cantanhêde
Jornalista
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Dilma Rousseff toma posse como Presidente da República em seu segundo mandato, o ex-presidente Lula levanta sua mão (Brasília, DF, 1 de janeiro de 2015) |
Com a economia miando, os ajustes mostrando as garras, as
dúvidas sobre a independência da equipe econômica e as feras da Petrobrás
aterrorizando o Congresso Nacional, o ano já vinha devidamente animado. Só faltavam as manifestações de rua. Não
faltam mais.
Pode ser a mais pura coincidência, mas também pode não ser. No mesmo dia, a última sexta-feira, houve
protestos ao menos em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Os motivos aqui eram uns, inegavelmente justos. Os de acolá,
outros, talvez nem tanto. Mas as manifestações pararam o trânsito, infernizaram
a vida de milhares de pessoas e, em São Paulo, atraíram os ainda indecifráveis black blocs. Podem, ou não, se multiplicar
pelas capitais.
Com:
·
economia estagnada,
·
inflação sempre acima do centro da meta,
·
juros na estratosfera,
·
contas externas desfavoráveis e
·
contas internas exigindo do governo malabarismos
tanto contábeis quanto legais,
o ambiente é favorável à multiplicação.
O brasileiro está
mais bem informado, mais atento e mais crítico. Aprendeu que protestar faz
bem à saúde e é um santo remédio, não para curar, mas para dar dor de cabeça em
poderosos de todos os níveis. Nem sempre os índices de popularidade suportam.
Os da presidente Dilma Rousseff despencaram em junho de 2013.
A diferença de lá
para cá é que as condições de Dilma pioraram muito. Quando aquelas
manifestações surpreenderam o País e os governantes, Dilma batia recordes de
aprovação. Já tinha encenado o teatro da “faxina” [ao demitir alguns ministros acusados de corrupção], baixado os
juros na raça, ido à televisão para vangloriar-se da redução da conta de luz.
Ela ainda mantinha a imagem de gerentona. E tinha Lula, tinha o PT unido.
Hoje:
·
Dilma acaba de sair de uma eleição duríssima, em que ganhou
por pouco – e apesar de tudo.
·
Os “faxinados”
estão de novo no governo.
·
Os juros
voltaram para onde sempre estiveram.
·
E, depois que o setor virou um caos, as tarifas de luz só aumentam e
·
o pronunciamento de Dilma foi parar no fundo da
gaveta dos marqueteiros.
Ah! E se, em junho de 2013, havia apenas a sensação
desconfortável de que algo andava mal na Petrobrás, hoje já se sabe bem o
tamanho – e o preço – da encrenca. A roubalheira era gigantesca, mas a
administração da maior e mais simbólica companhia brasileira era, igualmente,
caso de polícia.
E Lula? Evaporou. A
união do PT? Já era. Como diz a senadora Marta Suplicy (por ora PT-SP), que
conhece bem a turma e não tem papas na língua, “Lula está totalmente fora”. Mas fora do governo Dilma, não da
política.
Dilma depende mais do que nunca de Dilma. Não dá para contar
com o carisma e a retórica inebriante de Lula. E o PT está dividido entre “lulistas” e “dilmistas”. Uns precisam dos
outros, mas dizer que os lulistas torcem para o sucesso de Dilma não chega a
ser verdade.
É assim que Dilma tem
de torcer para que as manifestações de sexta-feira tenham sido residuais,
desconectadas, sem consequências e sem poder de mobilização pelo País
afora.
Mal comparando, é como a torcida em Paris e no mundo para
que o ataque ao Charlie Hebdo tivesse
sido obra de um punhado de tresloucados, não uma ação terrorista da Al-Qaeda.
Lá, já se viu o que era. Aqui, ainda vai se ver.
Como última lembrança: Dilma tem a caneta, uma equipe
econômica finalmente considerável e oficialmente o PT, o PMDB e a maior base
aliada das galáxias. Mas Lula ainda tem o principal: os movimentos sociais.
Dilma mal consegue
ser uma chefe – precisa gritar para acreditarem –, mas Lula, para o bem e
para o mal, segue sendo um dos maiores líderes de massa que este País já teve.
Além de driblar as ameaças explícitas do PMDB e dos aliados, Dilma tem de acertar na economia para
escapar da ameaça implícita que é Lula. E não só em 2018.
PS: Eu sou Charlie.
Fonte: O Estado de S.
Paulo – Política – Domingo, 11 de janeiro de 2015 – Pg. A7 – Internet:
clique aqui.
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