Papa Francisco faz um balanço da viagem à Ásia
Andrea
Tornielli
Vatican Insider
19-01-2015
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Papa Francisco concede entrevista aos jornalistas da imprensa mundial à bordo do avião que o levava de Manila (Filipinas) a Roma (Itália) |
Com lágrimas nos olhos, descreveu os gestos dos filipinos,
que nestes dias o surpreenderam. A quem lhe perguntou o que queria dizer quando
falou de “colonização ideológica” da família, respondeu com um exemplo concreto
que viveu na Argentina, quando lhe propuseram que a condição para contar com
determinados financiamentos para as escolas era a introdução de livros de texto
com a teoria de gênero.
Durante a conversa
com os jornalistas no voo de retorno de Manila para Roma, Francisco falou
novamente sobre a liberdade de expressão e sobre as provocações, indicando que
a violência é injusta, mas convidando a usar a virtude humana da prudência.
Ao responder sobre o tema da corrupção, recordou um episódio que viveu em
primeira pessoa. Anunciou viagens à América Latina e à África nos próximos
meses. Falou sobre os anticoncepcionais e sobre a paternidade responsável,
denunciando o novo malthusianismo, que quer o controle da natalidade, mas sobre
o número de filhos nas famílias disse: “Há quem acredita que para ser bom católico
devemos ser como coelhos”.
Ao final da entrevista coletiva, que durou mais de uma hora,
Francisco felicitou por seu aniversário a vaticanista mexicana da Televisa, Valentina Alazraki, a quem deu um
presente. Além disso, teve um bolo para todos os jornalistas festejarem.
O
que aprendi com os filipinos
“Os gestos me comoveram, não foram gestos protocolares, mas
sentidos: gestos do coração. Quase fazem chorar (o Papa tinha os olhos cheios de lágrimas, ndr.). A fé, o amor, a
família, o futuro, nesse gesto dos pais quando levantavam os filhos para que o
Papa os abençoasse. Levantavam os filhos, um gesto que não se vê em outros
lugares. É como se dissessem: ‘Este é meu tesouro, este é meu futuro, por isso
vale a pena trabalhar e sofrer’. Um gesto original, que brotou do coração. A
segunda coisa que me surpreendeu muito: um entusiasmo não falso: a alegria, a
felicidade, a capacidade de fazer festa. Inclusive debaixo d’água... As mães
que carregavam os seus filhos doentes... Muitas crianças deficientes, com
deficiências que podem impressionar; não escondiam os seus filhos,
levantavam-nos para que o papa os abençoasse: ‘Este é meu filho, é desse jeito,
mas é meu’. Todas as mães fazem isso, mas é a forma de fazê-lo que me
surpreendeu... Um gesto de maternidade e de paternidade. Um povo que sabe
sofrer, que é capaz de levantar-se novamente e de seguir em frente.”
A
pobreza em Manila e Colombo
“Os pobres são as vítimas desta cultura do descarte. Hoje,
descartam-se as pessoas; vem-me à mente a imagem das castas... Na minha diocese
de Buenos Aires, havia uma zona nova que se chama Porto Madero, e imediatamente
depois começaram as favelas. Na primeira parte há 26 restaurantes de luxo,
deste lado há fome. Uma parte colada à outra. Nós teríamos a tendência de nos
acostumar a isso... Aqui estamos nós, lá estão os descartados. Essa é a pobreza
e a Igreja deve dar cada vez mais o exemplo ao rechaçar qualquer mundanismo. Para nós, os consagrados, os bispos, os
sacerdotes, as freiras, os leigos, o pecado mais grave é o mundanismo. É
muito feio ver um consagrado, um homem de Igreja, uma freira mundanos. Este não
é o caminho de Jesus, a Igreja de Jesus. É uma ONG que se chama Igreja, é outra
coisa. A Igreja é Cristo morto e ressuscitado por nossa salvação, e o
testemunho dos cristãos que seguem a Cristo. Às vezes, nós, sacerdotes ou leigos, escandalizamos; o caminho de Jesus
é difícil. É verdade, a Igreja deve despojar-se. Quanto ao terrorismo de
Estado, não pensei, mas você me fez pensar que também este descarte pode ser um
terrorismo de Estado. Verdadeiramente, não são carícias: é como dizer: ‘Não, tu
não, fora...’. Aqui, em Roma, um vagabundo tinha dor de estômago e quando ia ao
hospital davam-lhe uma aspirina. Ele foi encontrar um sacerdote, que o viu,
comoveu-se e disse: ‘Eu te levo ao hospital, mas quando eu começar a explicar o
que você tem, faz de conta que vai desmaiar’. E assim, caiu, um artista, o fez
bem... Tinha uma peritonite. E este, caso estivesse sozinho, iriam descartá-lo
e morreria. Esse pároco estava disposto e ajudou, estava longe do mundanismo.
Pode-se pensar que isto é um terrorismo? Pode-se pensar...”
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Livro recomendado pelo Papa Francisco em sua entrevista |
A
colonização ideológica da família
“Darei apenas um exemplo do que vi. Há 20 anos, em 1995, uma
ministra da Educação havia pedido um significativo empréstimo para construir
escolas para os pobres (nas zonas rurais,
ndr.). Concederam-lhe o empréstimo sob a condição de que nas escolas houvesse
um bom livro para as crianças de determinado nível. Um livro escolar,
didaticamente preparado bem, no qual se ensinava a teoria de gênero. Esta
mulher precisava do dinheiro e essa era a condição... Ela, imediatamente, disse
que sim, e mandou fazer outro livro (o
segundo com uma orientação teórica diferente, e os dois textos foram
distribuídos juntos, ndr.). Esta é a colonização ideológica: entram num
povoado sem ter nada a ver com essa população, ou só com grupos dessa
população, mas não com a população, e a colonizam com uma ideia que quer mudar
uma mentalidade ou uma estrutura.”
“Durante o Sínodo, os bispos africanos se queixavam do fato
de que determinados empréstimos são
concedidos sob determinadas condições. Aproveitam-se das necessidades de um
povo como oportunidade para entrar e fortalecer-se com as crianças. Mas não é
nenhuma novidade. As ditaduras do século
passado fizeram a mesma coisa; entraram com suas doutrinas: pensem na juventude
hitlerista... O povo não deve perder sua liberdade, cada povo tem sua
cultura, sua história. Quando os
impérios colonizadores impõem ideias, tratam de fazer com que os povos percam
sua identidade... Cada povo deve conservar a própria identidade sem ser
colonizado ideologicamente. Há um livro, escrito em Londres em 1903, é O Senhor do Mundo, o autor é (Robert H.) Benson [Editora Ecclesiae, 2013 - edição brasileira]: aconselho sua
leitura e entenderão bem o que quero dizer.”
Abertura
à vida
“A abertura à vida é condição para o sacramento do
matrimônio. Paulo VI estudou isso: como fazer para ajudar, muitos casos, muitos
problemas... muitos problemas que tocam o amor da família. Mas havia algo mais,
a recusa de Paulo VI (na encíclica
Humanae Vitae, que dizia não aos anticoncepcionais, ndr.) não se
relacionava apenas com casos pessoais: disse
aos confessores que fossem compreensivos e misericordiosos. Ele via o neomalthusianismo universal que buscava
um controle de natalidade por parte das potências: menos de 1% de nascimentos
na Itália, o mesmo na Espanha. Isso não
significa que o cristão deva ter filhos em série. Repreendi uma mulher que
se encontrava na oitava gravidez e que fez sete cesarianas: ‘Quer deixar os
seus filhos órfãos? Não se deve tentar a Deus...’. Mas queria dizer que Paulo
VI era um profeta.”
Sobre
os anticoncepcionais
“Eu penso que o número de três filhos por família, de acordo com o que dizem os técnicos, é o
número importante para manter a população. A palavra chave para responder é a
paternidade responsável, e cada pessoa, no diálogo com seu pastor, busca a
forma de realizar essa paternidade... Perdoem-me,
mas há alguns que acreditam que para sermos bons católicos devemos ser como
coelhos, não? Paternidade responsável: por isso, na Igreja há grupos
matrimoniais, os especialistas nestas questões, e há pastores. Eu conheço
muitos caminhos lícitos, que ajudaram nisto. E outra coisa: para os mais
pobres, o filho é um tesouro; é verdade que devemos ser prudentes, mas o filho
é um tesouro. Paternidade responsável, mas também considerar a generosidade
desse pai ou dessa mãe que vê no filho ou na filha um tesouro.”
Liberdade
de expressão e reações diante dos insultos
“Na teoria, podemos dizer que uma reação violenta diante de
uma ofensa, uma provocação, não se deve fazer, não é boa. Podemos dizer o que o
Evangelho diz, devemos oferecer a outra face. Em teoria, podemos dizer que nós
compreendemos a liberdade de expressão. Em teoria estamos de acordo. Mas somos
humanos e existe a prudência, que é uma virtude humana da convivência humana. Eu não posso provocar, insultar constantemente
uma pessoa, porque corro o risco de irritá-la, corro o risco de receber uma
reação injusta. Mas é humano. Digo que a liberdade de expressão deve levar
em conta a realidade humana, e por isso deve ser prudente; uma forma de dizer
que deve ser educada. A prudência é a
virtude humana que regula as nossas relações. Uma reação violenta é sempre
má. Mas, paremos um pouco, porque somos humanos, corremos o risco de provocar
os outros. Por isso, a liberdade deve
vir acompanhada da prudência.”
Próximas
viagens à África, à América Latina e aos Estados Unidos
“África: o plano
é ir à República Centro-Africana e a Uganda. Creio que será no final do ano.
Esta viagem tem um pequeno atraso, porque houve o problema do ebola. É uma
grande responsabilidade promover grandes encontros de massa por causa do risco
do contágio. Mas nestes dois países não há problema. Estados Unidos: as três cidades são Filadélfia, para o Encontro com
as Famílias, Nova York, para a visita à ONU, e Washington. Gostaria de ir à
Califórnia, para a canonização de Junípero
Serra, mas penso que será um problema de tempo, seriam necessários mais
dois dias. Penso que vou fazer a canonização em Washington; é uma figura
nacional. Entrar nos Estados Unidos pela fronteira do México seria uma coisa
bonita, como sinal de fraternidade, para ir ao México sem visitar a Nossa
Senhora (de Guadalupe, ndr.) seria um
drama... Creio que serão estas três cidades estadunidenses. Os países latino-americanos previstos para
este ano são: Equador, Bolívia e Paraguai. No ano que vem, se Deus quiser, irei
ao Chile, Argentina e Uruguai.”
A
corrupção política...
“A corrupção, hoje, no mundo, está na ordem do dia, e a
atitude corrupta aninha-se facilmente nas instituições, porque uma instituição
tem muitos papéis, chefes e vice-chefes... a
corrupção é tirar do povo. A pessoa corrupta que faz negócios corruptos ou
governa corruptamente ou que se associa a outros para fazer um negócio
corrupto, rouba do povo. As vítimas são
aqueles que vivem na pobreza... A corrupção não está fechada em si mesma:
vai e mata. Hoje, a corrupção é um
problema mundial. Em 2001, perguntei ao chefe do gabinete do presidente
daquele momento: ‘Diga-me, da ajuda que vocês enviam ao interior do país (tanto
contêineres como ajuda alimentar e as roupas), quanto chega ao seu destino?’
Imediatamente, este homem, que era limpo, me disse: ‘35%’. Era 2001, na minha
pátria.”
E
a corrupção na Igreja...
“Quando falo da Igreja, gosto de falar de batizados, de
fiéis, e todos somos pecadores. Mas quando falamos de corrupção, falamos de
pessoas corruptas ou de instituições da Igreja que caem na corrupção. E há
casos, sim. Recordo uma vez, em 1994, recém-nomeado bispo no bairro de Flores,
vieram dois funcionários de um ministério visitar-me. E me disseram: ‘Você tem
muitas necessidades com estes pobres... Nós podemos ajudar; se quiser, podemos
dar-lhe 400 mil pesos (cerca de 400 mil dólares)...’. Eu os escutava, porque
quando a oferta é tão grande até o santo desconfia. E depois me disseram: ‘Para
fazer esta doação, nós fazemos o depósito e depois você dá a metade do dinheiro
para nós’. Nesse momento eu pensei no que fazer: ou os insulto ou lhes dou um
chute onde o sol não pega, ou me faço de bobo. Fiz-me de bobo. Respondi-lhes:
‘Mas, vocês sabem que o vicariato não tem conta? Você vai ter que depositá-lo
na conta da arquidiocese, com recibo’. E foram embora. Pensei: ‘Se estes dois
aterrissaram diretamente sem pedir pista (e este é um mau pensamento) é porque
algum outro disse que sim...’. Recordemos
isso: pecadores, sim, corruptos, nunca! Devemos pedir perdão por esses
católicos, esses cristãos que escandalizam por suas corruptelas. Mas há muitos
santos e santos pecadores, não corruptos. Vejamos a Igreja santa.”
As
mulheres na Igreja
“Quando digo que é importante que as mulheres sejam mais
consideradas na Igreja não é apenas para dar-lhes uma função, a secretaria de
um dicastério... não, mas para que nos
digam como sentem e veem a realidade, porque veem a partir de uma riqueza
diferente, maior.”
Traduzido do italiano por André Langer.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Quarta-feira, 21 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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