Cresce o número de países que tentam censurar a internet
VINDU GOEL
ANDREW E.
KRAMER
Em todo o mundo,
crescem os desafios à liberdade na internet, e os usuários são obrigados a
buscar atalhos e subterfúgios. Sobretudo a Rússia e a Turquia tentam
intensificar os controles sobre as empresas.
![]() |
Adesivo mostrando o líder russo, Vladimir Putin, com a expressão "Obedeçam!" em Moscou |
O presidente russo, Vladimir
Putin, assinou uma lei que obriga as companhias de internet a armazenar
dados sobre usuários russos no próprio país, onde o governo possa ter acesso a
eles. Calcula-se que poucas empresas cumprirão a lei, que entrará em vigor em
1° de setembro.
Em dezembro, a agência reguladora da internet na Rússia
exigiu que o Facebook retirasse uma
página que estava divulgando uma manifestação contra o governo.
Depois que a rede social bloqueou a página para seus cerca de
10 milhões de usuários russos, surgiram dezenas de páginas de imitadores e a
notícia se espalhou em outras redes como o Twitter.
Isso gerou ainda mais publicidade para o evento marcado para
15 de janeiro, em protesto contra a pena imposta a Aleksei Navalny, um conhecido líder da oposição.
O blogueiro russo Anton
Nosik disse que é absurdo um governo achar que pode suprimir facilmente um
conteúdo, já que esses materiais podem ser copiados e encontrados em outros
lugares mediante poucos cliques. "O leitor sempre quer ver aquilo cujo
acesso lhe foi negado", disse Nosik.
O governo turco passou por constrangimento semelhante quando
tentou impedir a disseminação de documentos e gravações vazados no Twitter em
março.
Além de o governo perder uma batalha judicial relativa à
questão, e embora o Twitter estivesse bloqueado, legiões de turcos trocaram
dicas sobre truques técnicos para contornar a proibição.
![]() |
Bloqueio não conseguiu impedir a divulgação de um protesto em Moscou em dezembro de 2014 |
"Nós todos viramos hackers", comentou Asli Tunc, professor na Universidade
Bilgi, em Istambul.
Ativistas pela liberdade de expressão consideram o Facebook, a maior rede social do mundo,
com 1,35 bilhão de usuários por mês, como a empresa mais inclinada a cooperar com
os governos.
No início de 2014, enquanto o Twitter estava bloqueado na Turquia e o YouTube foi fechado, o Facebook
retirou conteúdo impugnado e continuou funcionando.
O Twitter, que
tem cerca de 284 milhões de usuários por mês, se autoapregoa como uma espécie
de praça do mundo e um defensor global da liberdade de expressão, mas se adapta
à censura, ao mesmo tempo em que faz vista grossa a estratégias para driblá-la.
Como maior ator do setor, o Google, cujo YouTube frequentemente enfurece governos estrangeiros
e é obrigado a enfrentar muitas batalhas, ainda é considerado por muitos como um herói por sua decisão de deixar a
China em 2010, em vez de continuar censurando resultados de buscas no país.
A despeito dessas vitórias dos defensores da livre expressão,
governos aumentam seus esforços para controlar a internet. "Há cada vez mais pedidos
para a retirada de informações", disse Colin Crowell,
vice-presidente global do Twitter para políticas públicas.
O Paquistão, por
exemplo, bombardeou o Facebook com quase 1.800 pedidos para retirar conteúdo no
primeiro semestre de 2014. Todavia, a pressão não parte apenas de regimes
autocráticos.
A União Europeia,
onde o recém-estabelecido "direito
ao esquecimento" permite que residentes solicitem a motores de busca a
retirada de links sobre eles, agora quer que resultados de busca em suas
versões não europeias também sejam deletados sob pedido.
No entanto, a Rússia
é o atual ponto focal nas guerras que envolvem censura. Em meados de 2014,
Moscou passou a exigir que qualquer pessoa com no mínimo 3.000 seguidores por
dia acate regras semelhantes àquelas que se aplicam a uma empresa de mídia.
O Google, cujo
serviço de busca é o segundo mais usado na Rússia, só perdendo para a local Yandex, anunciou que fechará seus
escritórios de engenharia no país.
A empresa disse que está consolidando esses escritórios
globalmente, mas um fator que pesou na decisão acima mencionada foi o risco de ser alvo de inspeções a mando de
autoridades russas.
Robert Shlegel,
membro do Parlamento russo que participa da elaboração de políticas para a
internet no Kremlin, disse que as regulações russas são uma reação à espionagem
dos EUA revelada pelo ex-prestador de serviços da NSA Edward Snowden.
Segundo ele, a prioridade da Rússia é persuadir outros
países a elaborarem um conjunto internacional de regras para redes sociais e
sites colaborativos, o qual estipularia em que situações países poderiam
bloquear páginas para cumprir leis nacionais.
Shlegel disse que as autoridades russas não pretendem
bloquear empresas de internet que não cumprirem a lei. "O que precisamos
fazer é dialogar".
Para Nosik, é improvável que as redes sociais como o
Facebook e o Twitter sejam proibidas.
Afinal, há o temor de que, ao perder repentinamente o acesso
a fotos, lembranças de família, cartas de amor e contatos com amigos acumulados
durante anos, milhões de usuários de internet russos passariam a culpar o
presidente Vladimir Putin.
Fonte: The New York
times International Weekly – Folha de S. Paulo – Sábado, 24 de janeiro de
2015 – Pg. 4 – Internet: clique aqui.
Comentários
Postar um comentário