PAPA ADVERTE SOBRE UMA SOCIEDADE SEM PAIS
Rocio Lancho
García
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Papa Francisco discursa na Sala Paulo VI - Vaticano Audiência da Quarta-feira |
Como acontece toda semana, fiéis e peregrinos vindos a Roma
de todas as partes do mundo receberam com entusiasmo o papa Francisco para a
audiência geral das quartas-feiras. Hoje, na Sala Paulo VI, um grupo de
artistas do Circo Medrano apresentou um espetáculo no final da audiência, que
divertiu o papa e todos os participantes.
Francisco deu
continuidade às catequeses sobre a família e, desta vez, falou sobre a figura do pai. No resumo
final, ele disse:
«Queridos irmãos e irmãs! Em nossa reflexão sobre a família,
hoje nos concentramos na palavra pai. Pai é uma palavra universal, conhecida
por todos, que indica uma relação fundamental cuja realidade é tão antiga
quanto a história do homem. É a palavra com que Jesus nos ensinou a chamar a
Deus, dando-lhe um novo e profundo sentido e revelando-nos, assim, o mistério
da intimidade de Deus Pai, Filho e Espírito Santo, que é o centro da nossa fé
cristã.
Em nossos dias, chegou-se a falar de uma sociedade sem pais.
A ausência desta figura foi interpretada como uma “libertação”, especialmente
quando o pai é percebido como a autoridade cruel que limita a liberdade dos
filhos, ou quando os filhos se sentem desatendidos por pais focados unicamente
em seus problemas, em seu trabalho ou na própria realização pessoal, ou caracterizados
pela notável ausência do lar. Tudo isto cria uma situação de orfandade nas
crianças e nos jovens de hoje, que vivem desorientados sem o bom exemplo e a
orientação prudente de um pai. Deste modo, todas as comunidades cristãs e a
comunidade civil devem ficar atentas à ausência da figura paterna, pois ela
deixa lacunas e feridas na educação dos jovens. Sem guias nos quais confiar, os
jovens podem se encher de ídolos que acabam lhes roubando o coração, os sonhos,
as autênticas riquezas; roubando a sua esperança.»
O papa saudou em seguida os peregrinos latino-americanos e
recordou que Jesus prometeu que não nos deixaria órfãos. “Vivamos com a esperança firme nele, sabendo que o amor pode vencer o
ódio e que é possível um futuro de fraternidade e de paz para todos. Que Deus
os abençoe. Muito obrigado”.
Após as saudações em diversas línguas, o pontífice dedicou
um pensamento especial aos jovens,
aos enfermos e aos recém-casados, lembrando a todos que
hoje celebramos a memória de Santo Tomás de Aquino, doutor da Igreja. Por isso,
ele desejou aos jovens que a sua dedicação ao estudo favoreça neles o
compromisso da inteligência e da vontade a serviço do Evangelho. Aos enfermos,
desejou que a fé os ajude a se voltar ao Senhor também nas provações. E aos
esposos recém-casados, que a mansidão de Jesus lhes indique o estilo das
relações entre os cônjuges dentro da família.
Íntegra da catequese do
Papa sobre a figura paterna:
Queridos
irmãos e irmãs, bom dia!
Retomamos o
caminho das catequeses sobre família. Hoje nos deixamos guiar pela palavra
“pai”. Uma palavra mais que qualquer outra querida a nós cristãos, porque é o
nome com o qual Jesus nos ensinou a chamar Deus: pai. Hoje o sentido deste nome
recebeu uma nova profundidade justamente a partir do modo em que Jesus o usava
para se dirigir a Deus e manifestar a sua especial relação com Ele. O mistério
abençoado da intimidade de Deus, Pai, Filho e Espírito, revelado por Jesus, é o
coração da nossa fé cristã.
“Pai” é uma
palavra conhecida por todos, uma palavra universal. Essa indica uma relação
fundamental cuja realidade é tão antiga quanto a história do homem. Hoje,
todavia, chegou-se a afirmar que a nossa seria uma “sociedade sem pais”. Em
outros termos, em particular na cultura ocidental, a figura do pai seria
simbolicamente ausente, dissipada, removida. Em um primeiro momento, a coisa
foi percebida como uma libertação: libertação do pai-patrão, do pai como
representante da lei que se impõe de fora, do pai como censor da felicidade dos
filhos e obstáculo da emancipação e da autonomia dos jovens. Às vezes, em algumas
casas, reinava no passado o autoritarismo, em certos casos até mesmo a
opressão: pais que tratavam os filhos como servos, não respeitando as
exigências pessoais do crescimento deles; pais que não os ajudavam a empreender
o seu caminho com liberdade – mas não é fácil educar um filho em liberdade – ;
pais que não os ajudavam a assumir as próprias responsabilidades para construir
o seu futuro e o da sociedade.
Isto,
certamente, é uma atitude não boa; porém, como acontece muitas vezes, se passa
de um extremo a outro. O problema dos nossos dias não parece mais ser tanto a
presença invasiva dos pais quanto a sua ausência, a sua falta de ação. Os pais
estão, por vezes, tão concentrados em si mesmos e no próprio trabalho e às
vezes nas próprias realizações individuais a ponto de esquecer a família. E
deixam sozinhos os pequenos e os jovens. Já como bispo de Buenos Aires percebi
o sentido de orfandade que vivem os jovens; muitas vezes eu perguntava aos pais
se brincavam com os seus filhos, se tinham a coragem e o amor de perder tempo
com os filhos. E a resposta era ruim, na maioria dos casos: “Mas, não posso,
porque tenho tanto trabalho…” E o pai era ausente daquele filho que crescia,
não brincava com ele, não, não perdia tempo com ele.
Ora, neste
caminho comum de reflexão sobre família, gostaria de dizer a todas as
comunidades cristãs que devemos ser mais atentos: a ausência da figura paterna
na vida dos pequenos e dos jovens produz lacunas e feridas que podem ser também
muito graves. E, de fato, os desvios de crianças e de adolescentes podem, em
boa parte, ser atribuídos a esta falta, à carência de exemplos e de guias
autoritárias em suas vidas de cada dia, à carência de proximidade, à carência
de amor por parte dos pais. O sentido de orfandade que tantos jovens vivem é
mais profundo que aquilo que pensamos.
São órfãos
na família, porque os pais muitas vezes são ausentes, mesmo fisicamente, da
casa, mas sobretudo porque, quando estão ali, não se comportam como pais, não
dialogam com os seus filhos, não cumprem o seu papel educativo, não dão aos
filhos, com o seu exemplo acompanhado de palavras, aqueles princípios, aqueles
valores, aquelas regras de vida de que precisam como precisam do pão. A
qualidade educativa da presença paterna é tanto mais necessária quanto mais o
pai é obrigado pelo trabalho a estar distante de casa. Às vezes parece que os
pais não sabem bem qual posto ocupar na família e como educar os filhos. E,
então, na dúvida, se abstém, se retiram e negligenciam suas responsabilidades,
talvez refugiando-se em uma improvável relação “em pé de igualdade” com os
filhos. É verdade que você deve ser “companheiro” do teu filho, mas sem
esquecer que você é o pai! Se você se comporta somente como um companheiro em
pé de igualdade com o filho, isto não fará bem ao menino.
E vemos
este problema também na comunidade civil. A comunidade civil, com as suas
instituições, tem uma certa responsabilidade – podemos dizer paterna – com os
jovens, uma responsabilidade que às vezes negligencia ou exerce mal. Também
essa muitas vezes os deixa órfãos e não propõe a eles uma verdade de
perspectiva. Os jovens permanecem, assim, órfãos de caminho seguros a
percorrer, órfãos de mestres em quem confiar, órfãos de ideais que aquecem o
coração, órfãos de valores e de esperanças que os apoiam cotidianamente. São
preenchidos, talvez, por ídolos, mas se rouba o coração deles; são impelidos a
sonhar com diversão e prazer, mas não se dá a eles o trabalho; são iludidos com
o deus dinheiro, e se nega a eles as verdadeiras riquezas.
E então
fará bem a todos, aos pais e aos filhos, escutar novamente a promessa que Jesus
fez aos seus discípulos: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). É Ele, de fato,
o Caminho a percorrer, o Mestre a escutar, a Esperança de que o mundo pode
mudar, que o amor vence o ódio, que pode haver um futuro de fraternidade e de
paz para todos. Alguém de vocês poderá me dizer: “Mas, padre, hoje o senhor foi
muito negativo. Falou somente da ausência dos pais, o que acontece quando os
pais não são próximos aos filhos…” É verdade, quis destacar isso, porque na
quarta-feira que vem prosseguirei esta catequese colocando o foco na beleza da
paternidade. Por isso escolhi começar pelo escuro para chegar à luz. Que o
Senhor nos ajude a entender bem estas coisas. Obrigado.
Tradução: Canção Nova.
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