Para compreender melhor o que se passa no Vaticano
A saga Burke e a oposição a Francisco em contexto
John L. Allen
Jr.
Crux
11-01-2015
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Raymond Burke - cardeal norte-americano |
Na linguagem do mundo dos negócios jornalísticos, o cardeal Raymond Burke é sempre "uma cópia boa". A expressão quer
dizer que as pessoas podem amar ou odiar o que ele tem a dizer, mas ele nunca
deixa de agitar as coisas.
Burke tem uma longa história de ser considerado um herói
para os campos politicamente conservadores e liturgicamente tradicionais da
Igreja Católica. Em outubro passado, ele
emergiu como um líder da facção conservadora no Sínodo dos bispos sobre a
família, tendo uma postura firme contra a ideia de permitir que os
católicos divorciados e recasados civilmente possam receber a Comunhão.
Esse prelado norte-americano de 66 anos de idade esteve em
alta de novo, recentemente, ao fazer comentários para uma pastoral para homens,
dizendo que a Igreja Católica tornou-se
excessivamente "feminizada" e culpou os declínios nas vocações
sacerdotais ao crescente uso de moças coroinhas.
Alguns observadores se perguntam se a franqueza de Burke
significa que Francisco calculou mal, em novembro, quando tirou Burke de sua
posição como chefe da Suprema Corte do
Vaticano e deu a ele um papel em grande parte cerimonial como patrono da Soberana Ordem Militar de Malta.
De acordo com o ditado "mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto",
Francisco pode ter errado ao liberar Burke para se tornar um espinho ainda
maior no seu lado.
Percebe-se a lógica, mas, francamente, há poucas evidências de que, deixá-lo onde ele estava teria feito muita
diferença. Não é como se Burke tivesse um histórico de amordaçar-se por
causa de seu cargo.
A nomeação para o cargo no Vaticano por Bento XVI em 2008,
por exemplo, não impediu Burke de chamar os democratas dos Estados Unidos de o
"partido da morte". Também
não o deteve, em 2009, de afirmar que nenhum católico em boa consciência
poderia ter votado em Obama, ou de insistir, em 2013, que os padres irlandeses
deveriam negar a Comunhão a qualquer político que apoiasse a liberalização do
acesso ao aborto.
A verdade é que uma
das coisas mais difíceis de fazer na Igreja Católica, mesmo o papa, é fazer com
que um cardeal permaneça calado.
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Papa Bento XVI (Pontífice de 2005 a 2013) |
Além disso, a transição de Burke pode, pelo menos,
contribuir para um pouco de clareza.
Ao longo dos anos, tem sido comum as manchetes dos jornais
afirmarem que "o Vaticano diz X"
toda vez que Burke fala publicamente, simplesmente porque ele era um empregado
do Vaticano - mesmo que ele não estivesse falando a título oficial, e mesmo
quando seus comentários, muitas vezes, não refletiam o sentimento da maioria em
Roma.
Em defesa de Burke, ele normalmente esclarecia depois o fato
de que ele não estava falando em nome do Vaticano, mas simplesmente como um
bispo individual, mas isso nunca fez muita diferença para alterar a narrativa
depois que ela já tinha sido definida.
Agora, provavelmente, o título será "Burke diz X".
Apenas para constar, Francisco
e Burke tiveram uma reunião na quinta-feira, descrita pelo Vaticano como uma
sessão de rotina quando um cardeal recebe um novo emprego, e que esse
encontro estava no calendário bem antes da entrevista mais recente de Burke.
Talvez sim, mas eu suspeito que muita gente pagaria em
dinheiro para ser uma mosca na parede da sala.
O
contexto da oposição a Francisco
A saga Burke deixou alguns observadores se perguntando se a
oposição interna que Francisco enfrenta é sem precedentes, especialmente nos
níveis superiores da Igreja.
Para começar, vamos deixar bem claro: de acordo com a
tradição, Francisco é o papa de número
266 da Igreja Católica, e ele também é o 266º a ter problemas com alguns de
seus bispos. A história remonta aos Atos dos Apóstolos e a um célebre confronto
entre Pedro e Paulo.
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São Papa João Paulo II (Pontífice de 1978 a 2005) |
Mais recentemente, tanto o papa João Paulo II quanto Bento
XVI enfrentou enorme oposição interna, tanto de setores de base quanto da
hierarquia. Há 1,2 bilhão de católicos
no mundo e mais de 5.000 bispos, e pensar que em algum momento alguma quota de
ambos não vai estar infeliz com o seu líder é uma ilusão.
Em suma, a noção de que há alguma coisa terrivelmente nova
sobre o que estamos vendo hoje é, para todos os efeitos, tolice.
Durante os anos de João
Paulo II, havia um eixo de prelados de uma linha moderada a liberal que
rotineiramente ia em uma direção diferente do pontífice, incluindo Carlo Maria Martini, de Milão; Godfried Danneels, de Bruxelas; Basil Hume, de Westminster; Karl Lehmann e Walter Kasper, da Alemanha; Joseph
Bernardin, de Chicago; Roger Mahony,
de Los Angeles; e Paulo [Evaristo] Arns
e Aloísio Lorscheider, do Brasil.
Todos aqueles homens eram ou, eventualmente, tornaram-se
cardeais.
Durante um sínodo de bispos em 1985, Danneels, abordou a questão da colegialidade,
ou seja, a partilha do poder e a descentralização, insistindo que ela "deveria ser entendida de uma forma mais
profunda e posta em prática de uma forma mais completa". Isso foi
visto como um criticismo ao papa, assim como os comentários de Burke em outubro
passado.
Em 2000, quando João Paulo II emitiu o documento Dominus Iesus sobre a relação da Igreja
com as outras religiões, contendo a frase de que os não-cristãos estão em uma
posição "gravemente deficitária" com relação à salvação, Lehmann opôs-se em voz alta afirmando
que isso rompia com o "estilo" dos documentos do Concílio Vaticano
II.
(Como nota de rodapé, Dominus
Iesus foi preparado pelo futuro Papa Bento XVI, que era então o chefe do
escritório doutrinal do Vaticano.)
Às vezes, até mesmo reclamações em massa chegavam dos
bispos. Durante o sínodo de 1998, os prelados asiáticos em bloco queixaram-se
de que havia um excesso de concentração de poder em Roma, não permitindo-lhes
uma flexibilidade suficiente para adaptar a fé às culturas asiáticas, e também
uma incompreensão básica do Vaticano da sua situação.
Em outros níveis, João Paulo II também enfrentou duro
criticismo.
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Cardeal Carlo Maria Martini (viveu de 1927 a 2012) |
A "Declaração de
Colônia", de 1989, assinada por 163
teólogos católicos de todo o mundo, reclamava de um "novo centralismo
romano" e rejeitou o que chamou de interferência "intolerável" e
"formas questionáveis de controle" no debate teológico.
Para dar outro exemplo, quando João Paulo II visitou a liberal Holanda em 1985, ele atraiu
multidões tépidas em alguns lugares e manifestantes irritados em outros. Como
escreveu um comentarista na época, "Nunca
as ruas estiveram tão vazias e os atiradores de pedras tão próximos".
Quanto a Bento XVI,
sem dúvida nenhum outro papa no século
passado enfrentou uma oposição interna tão intensa, tanto na parte superior
quanto na parte inferior da Igreja.
Por exemplo, a repercussão contra a aproximação de Bento XVI
ao movimento lefebvriano
tradicionalista e a liberalização da permissão
para a missa em latim mostrou-se tão intensa que, em 2009, uma coalizão de
católicos franceses lançou uma petição on-line em defesa do pontífice em
apuros.
Cerca de 38.000 pessoas assinaram, mas era difícil de não
perceber que apenas três dos quase 200 bispos católicos da França se juntaram a
elas.
Pouco antes de morrer, em 2012, Martini, o cardeal liberal de Milão, deu uma entrevista a um colega
jesuíta na qual ele disse que a Igreja
Católica "retrocedeu 200 anos", uma frase amplamente vista como
um tiro em Bento.
Quando Bento XVI viajou
para o Reino Unido em 2010, a viagem de forma geral foi um sucesso, mas uma
manifestação anti-papal no centro de Londres, no entanto, atraiu 10 mil
pessoas, o maior protesto de rua contra um papa na história moderna.
Tão grande era a agitação durante os anos de Bento XVI que
dois respeitados jornalistas italianos, em 2010, publicaram um livro chamado "Attack on Ratzinger" [Ataque a Ratzinger] narrando toda uma
série de episódios que incluíam protestos, queixas e controvérsias.
Não foi somente a reputação de Bento XVI com o seu conservadorismo
teológico e político que gerou oposição.
Durante esses anos, o jogo de salão favorito entre os
observadores do Vaticano era tentar descobrir qual dos príncipes da Igreja [cardeais]
estava se esforçando para sabotar o pontífice, já que os cardeais sentiam-se
ameaçados pelos apelos do papa a uma
"purificação" e pela sua campanha
anti-corrupção nas finanças do Vaticano.
Depois de Bento renunciar em fevereiro de 2013, o cardeal Christoph Schönborn, de Viena, um
protegido do pontífice, disse a seus colegas cardeais, durante uma reunião
antes do conclave para eleger o sucessor, que eles deveriam fazer um exame de
consciência para ver se não tinham falhado ao não apoiar Bento quando ele mais
precisava deles.
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Christoph Schönborn - cardeal-arcebispo de Viena |
Dois
pontos finais
Pode ser tentador dizer que o que há de novo sobre a
oposição de Francisco é que ela está vindo da direita em vez da esquerda.
Tentador é, mas está errado.
Primeiramente, tanto João Paulo II quanto Bento tiveram
críticos à direita, também, assim como há alguns na esquerda que resistem ao
charme de Francisco. Além disso, a última vez que o catolicismo teve um papa,
basicamente, de centro-esquerda, foi em 1960 e 1970 com Paulo VI e ele também enfrentou
grave reação da direita.
Por exemplo, quando o Papa Paulo VI aprovou uma forma mais
moderna da missa usando línguas nacionais em vez do latim, em 1969, um de seus
próprios cardeais, um influente veterano do Vaticano, escreveu uma longa carta
ao pontífice, basicamente, acusando-o de heresia.
Como falou uma vez, memoravelmente, o cardeal Francis George, de Chicago, na Igreja Católica, tudo já aconteceu pelo
menos uma vez.
Quanto à forma como Francisco pode lidar com essa
resistência, suspeita-se que não será significativamente diferente de como a
maioria dos outros papas fizeram, com variados graus de sucesso. A estratégia
se resume a ignorá-la em sua maior parte, e, de vez em quando, quebrar uma ou
duas cabeças para lembrar as pessoas de quem está no comando.
Quanto a isso, é só pedir ao cardeal Raymond Burke.
Traduzido do inglês por Claudia Sbardelotto.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Terça-feira, 13 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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