BATISMO DO SENHOR – ANO B – HOMILIA

Evangelho: Marcos 1,7-11

Naquele tempo:
7
João Batista pregava, dizendo: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias.
8 Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo.”
9 Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia, e foi batizado por João no rio Jordão.
10 E logo, ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito, como pomba, descer sobre ele.
11 E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem-querer.”

JOSÉ ANTONIO PAGOLA

CONFIANÇA E DOCILIDADE

Jesus viveu no Jordão uma experiência que marcou para sempre sua vida. Não permaneceu mais com o Batista. Tampouco, voltou a seu trabalho na aldeia de Nazaré. Movido por um impulso irrefreável, começou a percorrer os caminhos da Galileia anunciando a Boa Nova de Deus.

Como é natural, o evangelista Marcos não pode descrever o que viveu Jesus em sua intimidade, porém foi capaz de recriar uma cena comovedora para sugeri-lo. Está construída com traços “míticos” de profundo significado. “Os céus se rasgam”: não há mais distâncias; Deus se comunica intimamente com Jesus. Ouve-se “uma voz vinda do céu”: “Tu és o meu filho querido. Em ti me comprazo”.

O essencial está dito. Isso é o que Jesus escuta de Deus em seu interior: “Tu és meu. És meu filho. Teu ser está brotando de mim. Eu sou teu Pai. Eu te amo profundamente; me enche de alegria que sejas meu filho; sinto-me feliz”.

Doravante, Jesus não o chamará com outro nome a não ser: Abbá, Pai. Desta experiência brotam duas atitudes que Jesus viveu e tratou de transmitir a todos: confiança incrível em Deus e docilidade. Jesus confia em Deus de maneira espontânea.  Abandona-se a ele sem receios nem cálculos. Não vive nada de forma forçada ou artificial. Confia em Deus. Sente-se filho querido.

Por isso, nos ensina a chamar a Deus de “Pai”. Lamenta a “pouca fé” de seus discípulos. Com essa fé raquítica não se pode viver. Repete-nos várias vezes: “Não tenhais medo. Confiai”. Toda sua vida transcorreu infundindo confiança em Deus.

Ao mesmo tempo, Jesus vive numa atitude de docilidade total a Deus. Nada nem ninguém o separará desse caminho.

Como filho bom, busca ser a alegria de seu pai. Como filho fiel, vive identificando-se com ele, imitando-o em tudo. É o que procura ensinar a todas as gerações: “Imitai a Deus. Assemelhai-vos a vosso Pai. Sede bons como vosso Pai do céu é bom. Reproduzi sua bondade. É o melhor para a humanidade”.

Em tempos de crise de fé não devemos nos perder no acessório e secundário. É fundamental cuidar do essencial: a confiança total em Deus e a docilidade humilde. Todo o resto vem depois. É uma pena que, apesar de nos dizermos seguidores de Jesus, voltamos tão facilmente a imagens regressivas do Antigo Testamento, abandonando a experiência mais genuína de Deus.
ESCUTAR O QUE DIZ O ESPÍRITO

Os primeiros cristãos viviam convencidos que, para seguir a Jesus, é insuficiente um batismo de água ou um rito parecido. É necessário viver encharcados de seu Espírito Santo. Por isso, nos evangelhos se recolhem de diversas maneiras estas palavras do Batista: “Eu vou batizei com água, porém ele (Jesus) vos batizará com o Espírito Santo”.

Não é estranho que, nos momentos de crise, recordaram de modo especial da necessidade de viver guiados, sustentados e fortalecidos por seu Espírito. O Apocalipse, escrito nos momentos críticos que vive a Igreja sob o imperador Domiciano, repete várias vezes aos cristãos: “Quem tem ouvidos, que escute o que o Espírito diz às igrejas”.

As mudanças culturais sem precedentes que estamos vivendo, nos está pedindo, hoje, aos cristãos, uma fidelidade sem precedentes ao Espírito de Jesus. Antes de pensar em estratégias e receitas automáticas diante da crise, temos de perguntar-nos como estamos acolhendo, hoje, o Espírito de Jesus.

Ao invés de lamentarmos, sempre, da secularização crescente, temos de perguntar-nos que caminhos novos anda buscando, hoje, Deus para encontrar-se com os homens e mulheres de nosso tempo; como devemos renovar nossa maneira de pensar, de dizer e de viver a fé para que sua Palavra possa chegar até as perguntas, dúvidas e medos que brotam em seu coração.

Antes de elaborar projetos pensados até os últimos detalhes, necessitamos transformar nosso olhar, nossa atitude e nossa relação com o mundo de hoje. Necessitamos parecer-nos mais com Jesus. Deixar-nos trabalhar por seu Espírito. Somente Jesus pode dar à Igreja um rosto novo.

O Espírito de Jesus segue vivo e operante também hoje no coração das pessoas, ainda que nem nos perguntemos como se relaciona com aqueles que se distanciaram definitivamente da Igreja. Chegou o momento de aprender a ser a “Igreja de Jesus” para todos, e isto, somente ele pode nos ensinar.

Não devemos falar somente em termos de crise. Estão se criando condições nas quais o essencial do evangelho pode ressoar de maneira nova. Uma Igreja mais frágil, débil e humilde pode fazer que o Espírito de Jesus seja entendido e acolhido com mais verdade.

Traduzido do espanhol por Telmo José Amaral de Figueiredo.

Fontes: MUSICALITURGICA.COM – Homilías de José A. Pagola – Sexta-feira, 9 de janeiro de 2015 – 18h15 – Internet: clique aqui & Sopelako San Pedro Apostol Parrokia – Sopelana – Biskaia (Espanha) – J. A. Pagola – Ciclo B (Homilías) – Internet: clique aqui.

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