“Não existe o choque de civilizações. Esta é uma guerra interna ao Islã”
Entrevista
com Pierbattista Pizzaballa*
Marco Garzonio
Corriere della Sera
15-01-2015
«Os atos
de terrorismo que ensanguentam o Oriente Médio e a Europa não são fruto de um
choque de civilizações. Esta é, acima de tudo, uma guerra interna ao Islã. É,
além disso, a resposta errada e dramática de uma parte do Islã à modernidade,
aos problemas econômicos, morais, culturais que o desenvolvimento coloca. No
mundo muçulmano esta reflexão ainda não foi feita.»
(Pe.
Pierbattista Pizzaballa)
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Pierbattista Pizzaballa - padre franciscano, teólogo e biblista italiano Atual Custode da Terra Santa por parte da Igreja Católica Apostólica Romana |
Netanyahu
e Abu Mazen em primeira fila na marcha de Paris. Uma circunstância ditada por
um evento particular ou o indício de uma mudança nas relações entre Israel e
Palestina?
Pe. Pizzaballa: Não me parece que soprem ventos de mudança.
A força dos eventos os obrigou a estarem em Paris. Mas, as relações entre
Israel e os palestinenses não mudaram, infelizmente. As eleições que haverá
daqui a alguns meses impõem uma espera. Entender-se-á depois.
Hamas
condenou os ataques terroristas na França: uma tomada de distância após o
aplauso ao assassinato de 4 rabinos na sinagoga?
Pe. Pizzaballa: É uma tomada de posição curiosa. Somente o
tempo dirá se mudou a estratégia ou se foi um episódio isolado. Permaneço um
tanto frio. Frequentemente há no Oriente Médio duas faces: uma política interna
e a necessidade de conquistar crédito internacional.
Os
ataques de Paris mudarão o modo de pensar ocidental sobre os conflitos que ensanguentam
o Oriente Médio?
Pe. Pizzaballa: Não são os primeiros ataques terroristas de
matriz islâmica na Europa. Se pense em Madri, em Londres, na própria França. A
novidade é o impacto sobre a opinião pública. Estão se determinando as
condições para que a Europa realize uma ação de esclarecimento sobre algumas
palavras deixadas na ambiguidade. A palavra integração. O que significa? Há valores
no centro da convivência. Os direitos fundamentais da pessoa: liberdade de
consciência, igualdade homem-mulher, dignidade e papel da mulher, liberdade de
cultura, de expressão, legislação sobre o trabalho, distinção entre política e
religião e assim por diante. Quem vem à Europa não pode pô-las em discussão. A
Europa deve clarear a própria identidade, sabendo que, para poder integrar,
deve definir com clareza os pontos firmes irrenunciáveis.
Dizia
Martini [cardeal Carlo Maria Martini] que
haverá paz no mundo quando houver paz em Jerusalém. É somente um paradoxo?
Pe. Pizzaballa: Jerusalém tem um valor simbólico altíssimo
e, simultaneamente, uma rede de relações e interdependências muito estreitas
com o mundo. As tensões que são expressões daquelas mundiais. E vice-versa. Se
aqui se dialoga, se pode reverberar sobre o planeta uma capacidade de encontro.
Na
mobilização de Paris há somente a Europa das luzes que defende a liberdade de
manifestar as próprias ideias, ou também a Europa que se inspira no solidarismo
cristão dos grandes líderes do pós-guerra?
Pe. Pizzaballa: A Europa de hoje é diferente dos momentos
que a viram nascer. Não sei quanto o solidarismo de inspiração cristã anima
hoje o Velho Continente. Basta ver como se enfrentou o tema da imigração, as
salvações no mar e as políticas coligadas. Por certo o que aconteceu em Paris
tem movido novas dinâmicas, a partir da necessidade de coordenar-se para
responder ao terrorismo.
Portanto
pôs em ação somente um mecanismo que garanta a ordem pública?
Pe. Pizzaballa: Esta é uma parte. Há uma Europa que não faz
notícia e trabalha para a integração, uma rede de movimentos, voluntários,
iniciativas. Olhemos para tal Europa, que conta mais de quanto não se creia.
Você está
em contato com os cristãos de todas as confissões em Israel, no Egito, na
Síria, Jordânia, Iraque, Líbano. Que situações encontra?
Pe. Pizzaballa: São países diversíssimos entre si. Israel não é como a Síria e o Iraque. O Egito, hoje
mais tranquilo, oferece aspectos e dinâmicas interessantes e vivazes. Penso no
importante discurso do presidente Sisi da universidade Al Azhar. Em geral vejo
uma debilidade institucional difusa. Certamente, encontro situações humanas
dramáticas, mas descubro também tanta solidariedade, além de uma humanidade
negativa. Estive em Aleppo. É uma cidade há dois anos sob assédio. Permaneceu
quem não sabe aonde ir. Não há água e a concessão de um pouco de eletricidade
depende dos rebeldes. No entanto, o imã e o pároco se ajudam. Os jesuítas
distribuem 10 mil almoços ao dia e jovens voluntários, cristãos e muçulmanos,
os levam a quem deles necessita. Há tantas realidades das quais a mídia não
fala. São o contrapeso ao fanatismo e às decapitações.
Muitos
cristãos afirmam que estavam melhor sob Saddam [no
Iraque] e Mubarak [no Egito], que gozavam de maior liberdade e
proteção: tal juízo tem fundamento?
Pe. Pizzaballa: Tratava-se de regimes ditatoriais, que por
certo não serei eu a defender. Mas, a elas sucederam ditaduras piores, a
começar pelo fundamentalismo.
Que coisa
da Isis atrai os jovens europeus?
Pe. Pizzaballa: Não sei explicar como o fanatismo possa
atrair. Muitos falam de jovens desesperados que vem das periferias onde não há
nada. Mas, depois veja que também acorrem pessoas instruídas e te perguntam se
não há aí um problema de formação, a incapacidade de habituar os jovens, desde
a escola, a pensar, confrontar-se, problematizar. A Europa e, sobretudo o
Oriente Médio deve enfrentar o tema da educação.
No
Oriente Médio, entre as pessoas, não se advertem reações de tipo humano a
torturas e execuções?
Pe. Pizzaballa: Sim, há uma reação, mas nos encontros
pessoais. Eu esperava mais firmeza da parte da mídia no Oriente Médio. Talvez
algo se mova. Penso nas reações aos atentados de Paris e ao mundo que os
exprime da parte de Al Azhar, a universidade religiosa do Cairo, referência
importante para o Islã.
O Papa
foi o primeiro a evocar a imagem de “terceira guerra mundial”. Que elementos
sugeriram ao Pontífice aquela intuição?
Pe. Pizzaballa: O Papa tem uma visão de conjunto sobre a
realidade mundial que poucas pessoas podem ter. Ele captou a mudança epocal e,
nisso, a violência que a habita como nódulo. O fanatismo, o dizer “eu estou no
que é certo; ou te tornas como nós, ou deves desaparecer”. Depois, conforme as
situações, no Oriente Médio se terá Isis
e na África Boko Haram. É um retorno
ao ponto mais obscuro de séculos passados.
O Papa
convidou a uma prece comum judeus, cristãos, muçulmanos. Dizem que ele tenha
sido regista. Podem fazem algo pela paz as três religiões do Livro?
Pe. Pizzaballa: Podem fazer muitíssimo. Mas, falamos de
religiosos, não de religiões, palavra abstrata. Os religiosos, no interior dos
seus mundos, devem ter claro o papel da experiência religiosa, as relações com
Deus e entre elas e os homens e entre os homens, evitando absolutizações que
levam aos fanatismos. Neste contexto é principalmente o Islã que tem um pesado
trabalho a fazer a propósito. A imagem de religiosos que dialogam entre si é
hoje essencial. Não podemos ficar apenas com a imagem que nos transmitem os
fundamentalismos.
A Europa
deve agora fazer as contas com a deriva antissemita. A comunidade judaica
francesa se dividiu, as comunidades cristãs do Oriente Médio emigram. Em alguns
países da Europa os muçulmanos atingem a metade da população. O que está
acontecendo?
Pe. Pizzaballa: É preciso olhar o mundo em transformação e
estes deslocamentos sem apavorar-se. Termina uma época, mas não o mundo. As
discriminações contra as minorias são o apara-sol da nossa cegueira e dos
nossos medos. Acreditávamos que o antissemitismo tivesse terminado após as
ferocidades do nazismo e reduzimos nossa atenção. Infelizmente existe ainda o
preconceito antijudaico e é combatido. É preciso distinguir os aspectos
político e religioso. Se pode não compartilhar da política do Estado de Israel,
mas tal avaliação não pode assumir conotações antijudaicas ou ser pretexto
para alimentar formas de antissemitismo.
Existe um
Islã moderado ou falar nisso exorciza o medo?
Pe. Pizzaballa: Islã moderado é uma expressão muito europeia.
Responde às nossas necessidades de simplificação. Devemos aprender a conhecer
melhor o Islã, que é uma realidade muito complexa. Naquela galáxia nem tudo é
fanatismo, nem tudo é Isis: por caridade! Certamente se requer um grande
esforço da parte do Ocidente.
* Pierbattista Pizzaballa, que em abril completa 50 anos, é
padre franciscano Custode da Terra Santa há onze anos, isto é, herdeiro da
capacidade de encontro instaurada pelo Santo de Assis como o Saladino: a outra
face em relação às Cruzadas.
Fonte: Instituto
Humanitas Unisinos – Notícias – Sexta-feira, 16 de janeiro de 2015 –
Internet: clique aqui.
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